Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas contemporâneas

O Homem-Espelho no 13 de Maio

 "OLHA O PORCO, O PORCO NO ESPELHO!" Por favor não me negues mais, estou cansado de não existir, de não importar. Ontem mesmo nem quis saber de me limpar por trás. Dir-se-ia que é por estar tão gordo que a minha mão que limpa a merda já não consegue atingir o esfíncter de onde esta surge. (baseado em uma história real) Fui existir outro dia com uma crusta de merda nas culotes intoleráveis. Uma fila castanha de aeroporto onde só as moscas aterram. Esfrego e esfrego e é só papel atrás de papel poluído por esta inabalável frustração. O cheiro da nulidade tornou-se tão insuportável pelas três da tarde que me abriu as narinas à epistemologia desta acção. Daí em diante evitei tomar banho, apenas para que o meu próprio odor pudesse emergir do fedor desta ciência inabalável. Por favor voltem, por favor todos vós retornem...Eu limpo-me! - Sou negacionista, sou hipócrita, sou carente....sou tão carente! Guincho a todos os vidros que encontro na esperança que me reflitam, nenhum devolve...

Três!

  Fui e sempre serei um ' geek '! - Cresci com o universo marvel nas revistas que lia em um quase arrebatamento do espírito em crescimento. O mesmo aconteceu-me com " Star Wars" , e com praticamente todos os bons  franchises que me animassem a vontade.  Quando este universo em particular, ( marvel ), surgiu finalmente em forma de cinema, exultei-me, obviamente. Mais ainda quando tudo se foi compondo em uma determinação de lhe incutir um percurso coordenado e sensato. Aquilo que ficou conhecido como MCU (Marvel Cinematic Universe). A interacção pareceu-me perfeita. Eles faziam os filmes e eu deliciava-me com os mesmos. Isto decorreu pelo que foi denominado por fases. As 4 primeiras atingiram-me os nervos certos e agarraram-me de tal maneira que mormente uma falha aqui ou ali, não me predispus a matar o amor que lhes tive. Foi uma espécie de idílio, até a DISNEY flectir os músculos financeiros que arrebanhou sabe-se lá como, e começar a comprar tudo o que faz um ...

26

  Os que trabalharam no dia a seguir à revolução também foram patriotas. Há demasiados feriados neste país. Demasiadas 'pontes', dias santos, concedidos e afins. O excesso de nada se fazer cria cidadãos que exigem ainda mais displicência, mais opacidade de visão face ao avanço necessário da edificação desta nação tão maltratada pela perspectiva externa. Pois o desinteresse só produz mais insipidez. Não são os dias de ócio pré-estabelecidos que nos fazem melhores, são as conquistas que se fazem, trabalhando, para conseguirmos um horário laboral que nos permita, consequentemente, usufruir desse tempo livre que todos merecemos e necessitamos, de uma forma que mantenha o país são, funcional e competitivo.  Portugal, durante o período negro da 'crise' financeira 2008/11, chegou a ocupar o 9º lugar no ranking de países com menos feriados no mundo. Na parte superior desta lista, estava o México, com apenas sete feriados. Hungria, Reino Unido e a Holanda com menos dias de folga...

A Humidade no Yoga

Sejamos realistas, qualquer homem que decida integrar um 'estúdio' de Yoga, que maioritariamente é atendido por mulheres (é verdade, fui ver as estatísticas.) , mulheres dedicadas a melhorarem-se, é certo, mas mesmo assim, vendidas ao apelo daquelas indumentárias que envergam, porque são as roupas a isso destinadas, e portanto têm de as usar... porque..porque sim. Isto é demasiado errado! Eu sei. As mulheres devem (não) TÊM de ser livres para fazerem, serem e usarem o que desejarem. Porra! Se acharem o Yoga ridículo (como eu acho que é), afastem-se disso, não o façam. Se, por outro lado até quiserem fazer Yoga nuas, façam-na. É uma coisa que existe.(outra pesquisa que fiz.) - Nunca me excitarei mais com a nudez do que com o seu mistério. - A questão aqui prende-se com a natureza mais básica do ser humano. - Tanto homens como mulheres, vagueiam em um lodo primordial de excitações constantes. Estamos armadilhados para fodermos! - Somos assim, não há como contorná-lo. Assim que, a...

Ainda...os Óscares.

Adoro cinema. Vejo tudo, não quero parecer especialista, nem sou iconoclasta ou cinéfilo, não me entendo demasiado purista para passar adiante o lixo que se vai fazendo por todo o lado, e é tanto, tanto lixo que se faz...cada vez é mais. Hollywood está em queda. - Assoberba pela negativa! Gosto tanto do cinema que vou retirando deste lixo, do meio-cinema que assisto, e que coloco em caixinhas minhas. Este é assim e aquele é assado. Isto é realmente lixo, nem chego ao meio. Isto, por seu turno é uma daquelas pérolas que ninguém promove, mas, que vale tanto a pena ver. Que guardarei, pois o futuro chegará para lhe dar o devido valor. Isto é ver cinema. Vê-lo, no seu todo. Os que endereçam a sua atenção aos mesmos caminhos de sempre, jamais descobrirão aqueles pequenos tesouros, que, por vezes nos surpreendem. - Aos críticos de profissão, só lhes posso dizer isto: arrisquem mais! Nunca assisto nas salas, porém. Receio as pessoas, o contacto com as pessoas, tenho umas pancas aqui e ali, e ...

O grosso do mundo

Retornei a voltar a reiniciar um fresco percurso. Ando a tentar caminhar novamente. Para já, só no labirinto da minha cabeça, mas aguardo a aberta para sair e meter os pés na terra-fel e seguir.  Ontem, mais uma vez, debative-me com a 'difícil' tarefa de apertar os cordões dos sapatos, a simplicidade desta acção versus a tarefa hercúlea de a executar, sempre me põe alerta. Bufei tanto que quase me saía a vontade por detrás. - Apertei-os e depois olhei lá para fora. - Vou caminhar! - Disse, determinado. Não fui. Sentei-me e comecei a beber, habitual...Dentro, era como uma mola inútil. Inútil por não saltar como fazem as molas. De que serve algo que não faz aquilo para que serve? Será o meu corpo desenhado para caminhar...ou, para beber? Bebi mais enquanto a luta filosófica me colocava no meu tamanho humano. As fronteiras, as barreiras postadas em um batente sobre a minha vontade, são o muro de sempre. Ser saudável, saudável o suficiente para conseguir apertar os cordões dos sapa...

Episódios de uma Guerra fora do seu Tempo

Sinto um espanto incomensurável pelo povo Ucraniano. Uma admiração sem precedentes que pouco me admira, face a um povo agredido. Todavia, continua a inspirar-me assombro pela sua coragem vibrante. Quanto mais não seja por alguns trechos de notícias, aqui e ali, que vou retirando do contexto geral, muito esbatido por vezes, fabricado, noutras. Mas, atentem nestes excertos: - Oficiais Ucranianos pediram que não se estabelecesse uma zona de ' não vôo ' sobre o seu território, ainda que a Rússia continue a bombardear objectivos que não são de todo militares; sejam estes: zonas habitacionais, exclusivamente civis onde existem creches, infantários, orfanatos..durante os quais imensas crianças já pereceram neste dislate. - O Embaixador Ucraniano reiterou ao seu congénere russo que: "Não existe purgatório para criminosos de guerra. Estes seguem directos para o Inferno." - Um soldado Ucraniano dirigiu-se a uma ponte para detonar uma bomba durante uma batalha, sabendo de antemã...

As Lágrimas de Portugal

  Da esplanada do velho café da minha janela saboreando um whisky aguado com direito a comiseração a vapor, vi do outro lado da praça uma mulher à janela, arejando um tapete ou um cobertor ruço ou o que fosse de pano, não importa realmente. O que me importou era o que tinha atrás de si embutido na parede. Era o Menino da Lágrima , na sua pose estática tão conhecida e familiar, como se estivesse, nesse preciso momento, a fazer de modelo para todos os infelizes do mundo que vertem amiúde, ou sempre? a desdita inconsolável que os assola. - Quem se terá lembrado de o pintar assim e porquê? - É uma questão pertinente, penso. A pergunta imediata que me assombrou foi: Afinal, quem é que ainda ostenta o Menino da Lágrima , sem ter um espírito irónico ou 'kitsch' ou ser mero amante da pop-art trash?  No fundo, quem, em 2022, persistirá em manter este retalho de carnaval feirante pendurado em uma parede da sua casa, fazendo-o quase que por devoção a uma tristeza imaterial que requer rep...

O Cisma do Meio-Século

  Todos os aniversários não são iguais. Quer dizer, todos os anos se tingem com um aniversário, é inevitável, mas nunca são da mesma cor interior. Este meu último, que foi ontem, pareceu-me mais escuro que o costume. Eu sei porquê. Não venho aqui aviltar ingenuidades. Foi-o pelas razões do costume: a minha aversão às pessoas em geral, às convenções sociais em particular, ao trato comum de entrega que traz retorno, a essas 'caixinhas' que todos trazem dependuradas na humanidade e que acabam pontilhadas nestes justos momentos. Falta-me a vontade de me imiscuir com o resto das pessoas que me compôem. Família, amigos, quase-amigos, relacionamentos, conhecidos...todo um rol de gente que me povoa a vida-carne, que, para mim, nunca chega a ser a vida-alma. É um defeito! Afastar-me, salva-me a posição inerente àquilo que de mais humano pode ter um humano, entregar-se sem barreiras ou rodeios. Sem restrições. Mais uma vez; como não me afundo na inércia de ser ingénuo ou hipócrita. Ou hi...

A Eleição do Medo

Ainda que o meu voto tivesse contado. Ainda que o meu voto contribuísse para a eleição do candidato. Ainda que o meu voto não esperasse na fila mas fosse célere e eficaz, digno de qualquer contentamento possível ao votante. Ainda que o meu voto progredisse realmente a democracia em Portugal. Ainda que o meu voto contrariasse o rumo natural da predileção política familiar, e, mesmo assim, não criasse cissões, rupturas nesse tecido tão delicado. Ainda que o meu voto fosse único, impopular, consciente, ponderado, surpreendente.. Ainda que o meu voto fosse tomar um café depois de cair na urna, satisfeito o meu voto, por ser, por existir...Mesmo que tudo isto seja verdade, sinto-me contrafeito à mesma. Desagradam-me as decisões generalizadas do povo, que se assusta e mesmo assim elege o terror que se antecipa à dúzia. Que castiga, e afasta tantas vozes importantes do lugar onde a verborreia mais conta, apesar de sempre demagógica. Apesar de sempre cíclica, conta. Faz mossa, aqui e ali. Barr...

A vida é uma caixa de sapatos

Admito que os álbuns de retratos me fazem um pouco de espécie. As fotografias ali tem sempre um certo ar bovino, quase domesticado, irritam-me. Sabe-se de cor a ordem de entrada em cena, e criam uma lógica de tempo e espaço nas nossas vidas que talvez jamais tiveram ou voltem a ter.  Arrumam-se para ali organizados os momentos mais marcantes de uma vida. Mas porquê aqueles? E qual a razão para terem aquela ordem? Cronológica, a ver um grupo de pessoas a envelhecerem em fragmentos de papel " gloss ", página a página? Ou pior, álbuns de efemérides? Infindáveis. Todas as vidas nutrem estas composições singulares. Existe um paradoxo pré-ordenado para se angariarem estes instantes, em vez daqueles outros, os passageiros, que, sem que nos apercebamos importam mais que os anteriores. O casamento da Mi e do Carcará; que magra estava ela naquela altura, linda mesmo, porém, aquilo quiçá era a bicha solitária a comer-lhe por dentro. Mais tarde seria o marido a devorar-lhe a vida inte...

O Portento morre cedo

  Saudades de ter amigos.  É, de todas, a que mais me assombra. Se antes me sentia essencial a um grupo, agora, e depois de me manifestar como sou, vejo-me nas franjas, onde todas as boas emoções se retiram deixando-me só no que expresso livremente porque sou. É um peso incomensurável que balança alguma se preparou para equilibrar. É uma força imbatível que nos derrota à partida: querer ter amigos e afastá-los perpetuamente porque queremos ser como somos. Um dia acordei e vi o abismo. Não era nenhum fosso, nenhum desfiladeiro entre coisas que existem para nos separarem. Era, tão somente, um branco nulo. Panorama de absurdo, onde um abraço surtia tão raro como um unicórnio, e a fala caía no terror do desuso do electrónico fácil.  Nesse dia percebi que sempre tive amigos contrafeitos. Vendiam-se-me com falsas etiquetas e pareciam-me tão verdadeiros que comprei tudo o que me abraçaram. Justo até sentir frio, um gelo oculto por baixo dos seus braços.  Mas, onde estão hoj...

Tudo branco pelas paredes negras.

  Ouvir o álbum branco dos Beatles enquanto encarreiro cigarro atrás de cigarro é um bom artifício de contrição contra a apatia que muitas vezes a vida nos impõe. O álbum branco aqui é meramente inconsequente, como qualquer outro o seria. Mais me importa a nuvem de tabaco que produzo e que a tudo se agarra. Aquelas garras de águia nevoeirentas trazem-me a distância da memória junto ao peito. O meu pai fumava em casa. O meu pai fumava na sua oficina de alfaiate. O meu pai fumava imenso, fumou até quase à minha idade actual, quando um médico lhe ditou uma sentença da qual não se pode esquivar. Depois desse dia, o meu pai jamais prendeu um cigarro nos lábios.  Porém, até então, o meu pai fumou muito. Sempre me pareceu um prazer simples que o agradava. E, nunca sequer, suspeito, ouviu o álbum branco dos Beatles enquanto baforava qualquer coisa e bebia muitas outras. Com ele na oficina, fumavam o meu tio, tanto ou mais do que ele fumava, tanto, tanto que o matou pela garganta, ou p...

O Café dos Felizes

  Entrei naquele café fugido do frio lá de fora.  Foi ocasional, condicional quiçá, não fui para ali atirado, mas entrei ao resguardo, sobretudo. Pareceu-me tão acolhedor; duas ou três pessoas, cada uma sem telemóveis nas mãos, sem Tv, música ambiente mansa e fluída, sorrisos e aromas que nos sentam gratos.  O dono acercou-se e transportou-me para casa, sem imposições de falas comerciais. Pedi um chá e ele acenou com a cabeça. Quem é que ainda faz isto? Ao meu lado uma rapariga da minha idade olhava o horizonte e começava a mexer o seu café com leite com a colherzinha alongada. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio. Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. O café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um redemoinho. Eu encontrava-me sentado mesmo ali. O café tinha quatro pessoas, cinco com o dono. A rapariga continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima.  F...

O Neiva junto ao Ave

Recordo-me bem do Cine-Teatro Neiva por si mesmo, o velho cinema de alcatifa puída e manchas de esperma e cuspo ressequido nos cromados. Fui duas vezes ameaçado de morte ali dentro, por mor de ser um piçinhas de Azurara que lavava as mãos depois de urinar e pedia as coisas "por favor". O Papel de parede descascava aqui e ali, fruto da humidade e os lavatórios fediam a uma cinefilia sem paralelo por toda a Vila do Conde. Recordo-me da sua pureza simplista e utilitária, bem antes de cair em desuso, ser esquecido e abandonado à ruína e por fim renascido, como uma fénix ímpia, que serve alguns em vez de todos.  É quiçá contraditório isto, eu sei, mas hão-de perdoar-me o saudosismo 'porco' de amar um cinema mais comum, mais humano, mais feio, em detrimento de um "Teatro Municipal" que brilha mais nas lajes de mármore do que nos conteúdos programáticos. - E mesmo que assim fosse? - Muitos anos depois, já se havia constituído um bom caminho para os amantes do cin...

Tolerância à lactose lida.

  Quando era novo, a minha mãe comprava meio queijo limiano todas as sextas, que, em princípio, seria para todos lá de casa, mas eu gostava muito de ler: "As Crónicas Marcianas", "Viagem ao Centro da Terra" e todas as revistas de Super-heróis que comprava no quiosque do Altino com uma mão, enquanto comia queijo, desbragadamente, com a outra. Assim, o queijo acabava-se em um instante. Muito, por que lia tanto quando era novo, até mais do que agora, apesar de continuar ainda a comer imenso queijo.  O Freud talvez fosse capaz de explicar isto, mas o Freud serve para tudo. Face a qualquer tribulação, vem o Freud em auxílio, explicar tudo. O Freud e o Fernando Pessoa, que tinha tantas sombras diferentes, que qualquer inexplicável ele me resolvia.  Fui adolescente desde muito cedo. Não tive período de infância, comecei a trabalhar para ser homem, novo, e a estudar todas as leituras possíveis com uma curiosidade infinita. Mas tive uma sorte espantosa, porque tive amigos - ...

O Mal

Lembro-me muito bem que a minha mãe via sempre o Mal onde, para meus inconvenientes trabalhos, inevitavelmente ele aparecia, onde sempre se ocultara, esse 'mal' que de facto existia, e que o seu coração singular sempre me pareceu feito por medida para detetar. Eram os vizinhos, os parentes desbragados, o senhor da mercearia que cobrava tudo em excesso. O Mal, jamais me pareceu serem as atitudes erradas das pessoas, mais se assemelhava a um jogo de catequese. A senhora catequista dizia-nos certas coisas sobre o bom deus justo e generoso, e, logo a seguir sussurrava outras coisas muito baixinho sobre o diabo e afins. Na minha cabeça aquilo era um jogo das escondidas. O bem vinha contar até cem, terminava, todo apaixonado pelas pessoas e acendia-se na busca. Dentro do tasco da Dona Evinha, adjacente ao adro, escondia-se o Mal a beber sumol de ananás, sobranceiro na sua altivez. O bem, raramente o encontrava, apesar deste se esconder sempre no mesmo lugar. Parecia-me uma espécie de...

Tempo Vencido

Vila do Conde em Primavera antecipada é um chamamento com uma persistência vegetal, secreta. Vencido o manto húmido que pesava sobre a cidade nas últimas semanas, o ar pôs-se ligeiro, aliviado e chama-nos para as suas ruas. Primavera, finalmente a Primavera, tal como ela costuma chegar aqui depois de muitas hesitações e de muito trabalho para vencer as nuvens da costa. As pessoas bem dão por isso. Sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul e um azul fino, alegre, e dizem baixinho: "era mesmo isto." Depois descobrem as pedras louças das ruas ancestrais, o voo luminoso dos pássaros e a colina milenar a debruçar a cidade, diante do rio e dos campanários, cobertos de uma luz macia, feminina e descobrem um novo andar neste espaço todo. É isso a Primavera em Vila do Conde; um novo sentido no olhar, uma nova velocidade: "era mesmo isto", dizem as pessoas. Uma romagem feita com a aparência do acaso vê-se na multidão atarefada com estes dias de Primavera. Circul...

Ano novo, mesmas queixas.

Como sempre imaginei que assim fosse, tudo se resume a mãos dadas, a entregas desprendidas. A um amor primordial, pois. De outro modo como poderei racionalizar que um texto "x" valha mais que outro "y"? - Venham os teóricos patrões desta razão toda e discutam isto. - Não virá ninguém, eu sei. Escrever é uma bestialidade tremenda que só serve as aflições mais primitivas do ser humano. Em boa verdade, desde a véspera de seja o que for que escreva penso em publicá-lo, e aqui é quando me sinto agitado, mergulhado numa excitação quase juvenil. No dia seguinte, visto-me quase sempre de fraque melodramático. Todos os dias seguintes, são a mais triste festa de passagem de ano que alguma vez passei (e já passei por algumas bem taciturnas). O pior, é que todos os anos são piores que os anteriores. Tomara que o tempo tivesse parado algures cerca de dois mil e treze. Aí tudo ainda me parecia possível e vivia uma ingenuidade libertadora, propensa ao desejo férreo de jamais ...

Elegia para um caixão vazio

( Título roubado ao Baptista-Bastos ) Quando eu morrer, quantas pessoas assistirão ao meu funeral? Dez ou quinze, a família e os amigos ou uma pequena multidão carpideira? - Ainda não conheci ninguém que intimamente não fizesse este auto-julgamento pré-morte. - Talvez seja de alguma estranheza, relacionar-me com pessoas assaz mórbidas e egocêntricas para pensarem nisto, ou quiçá seja eu que projecto estas ideias e depois digo que foram outras pessoas que as comentaram. Quantas pessoas me amaram, e quantas dirão que fui boa pessoa? Quantas me elogiarão o trabalho e quais serão aquelas que inevitavelmente irão dizer, em sussurros, que: " ele nada fez para conseguir aquilo que queria. Quedou-se e esperou as oportunidades. Não sabia que as oportunidades nunca nos batem à porta? Era uma morte anunciada. " Não, não sabia. É que bater em portas, lembra-me os Natais da minha infância e não posso deixar de me emocionar apenas. O meu pai costumava fazer-se passar pelo pa...