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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro 3, 2017

Felicidade! Cuidado, não se afoguem.

A busca incessante pela felicidade é talvez o maior cliché cultural que nos espreita a razão. Por todo o lado se vêm imagens de deslumbramento e sorrisos que vagueiam pelas redes sociais. Ao virar da esquina a melhor música de sucesso projectada para celebrar-nos, finais felizes épicos de Hollywood em belos instantes de instagram, livros de auto-ajuda a povoarem a maldição da internet, semi-misticas cultas e palestras sensacionais no espaço de um post, que têm como único objetivo ajudar-nos a atingir essa experiência fenomenal de acabarmos felizes para sempre, ou mortos então. Mortos, seríamos talvez mais felizes que a vivermos nestes tempos de constantes falácias.  Se eu insistisse no que sei, adiante de tantos assombros, acabaria morto, certamente. E isso, nem quero saber. Na internet tornam-se cada vez mais populares as instruções ou dicas ou roteiros infalíveis para se ser feliz. Sobram os exemplos que temos desta busca incansável. - Eu até já vi fascistas assumidos a homenagearem …

A Felicidade é um Gaio Azulado nas bordas

Diálogos internos

A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais

Começa:
     Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace Hotel. O chofer não estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a “seu” José para vir buscá-la às cinco, não calculando que não faria as unhas dos pés e das mãos, só a massagem. Que devia fazer? Tomar um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera que nunca se deve andar sem nenhum dinheiro. Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro. Mas - mas era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela - com outros, e nesses outros ela se refletia e os outros refletiam-se nela. Nada era – era puro, pensou sem se entender. Quando se…

Com pássaros na voz

Eram ontem seis da tarde quando o coração se me suspendeu. Nem arritmia nem taquicardia nem palpitações nem nada dos tumultos habituais. Descobri apenas uma gentileza de um estranho. E de tão raros que são estes movimentos autónomos da internet, moveu-me. Alguém decidiu suspender um pouco do seu tempo próprio e criar um vídeo onde faz a leitura de um excerto do meu novo livro: "A Ausência dos Pássaros" depois de o encontrar na minha página do Facebook, onde eu o havia postado. Foi como ter um peito que não mexe e de repente, sentir o vento que se levanta enquanto o dia assenta. Muito obrigado por este gesto tão bonito Paula Machado, muito.


Saúde!

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Os meus amigos, os livros.

Chegada a altura da primeira escola, que depois seguiu por ali adiante, acabei possuído de um fervor que me sugava para dentro dos livros, sofrendo de um evidente estigma de bicho esquisito, por andar a arrastar cadernos e livros feito um burro de letras. Ainda hoje sofro desse mesmo mal-estar, tomado como consequência do “excesso” de leituras.
O meu mundo, ou a minha casa alargada, era um pouco maior que a dos amigos que me acompanhavam. Não sei se seria por o meu pai ser alfaiate, e costurar as estantes com novos livros do Círculo todos os dois meses, ou porque terei sempre sido muito solitário pelas brechas, metido ao acaso entre rodos de gente, pondo mais empenho nas leituras que nas brincadeiras. - Digo isto sem qualquer arrogância classista, que não possuo alguma. - A verdade é que, na rua dos meus pais, um quilómetro de paralelos empinados entre uma igreja matriz e uma fábrica de chocolates, ainda hoje se contam pelos dedos de uma mão, aqueles enferrujados pela fome dos livros. …

A Noite em que Gershwin me deu um filho - Parte 2

...continuação
Outra noite, pela hora do jantar, ao revirar o contentor do lixo, duvidei que aquela tivesse sido a sua última palavra. Pensava que quando uma mulher diz que não fica à espera que insistamos antes de tomar a decisão final, mas que sei eu sobre mulheres? E só Deus sabe, quantas decisões finais já me haviam sido enganadas. Só via um caminho de saída: A descendência. Era como se o tempo bom saltasse a minha geração e fosse concretizar-se apenas nos anos vindouros, que assistissem à vinda de um herdeiro para me apagar da linha da genealogia e mesmo assim continuar o nome Monteiro, que é um bom nome, para todos os efeitos. Houve homens de têmpera na minha família, mas era tarde para os celebrar pela simples razão da minha existência. Aprendi todo o significado de força com as mulheres, a minha mãe, tias, a minha avó do lado materno, que nunca precisaram da madrugada para manterem a ilusão do poder que detinham.  Pegam num homem e atiram-no contra o chão, se já houver nele ligaç…