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Mensagens populares deste blogue

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro.
Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio.
O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou-o de…

A rubrica da Madalena Patusca IV

Puxou a colcha mais os lençóis para a frente, levantou-se e acendeu a luz pálida do candeeiro da mesinha. Três palmos ao seu lado, o Senhor Barbosa sonhava com galáxias. Havia-as visto no Sábado no cinema. A temperatura caíra lesta durante a noite e ele apertava-se na colcha almofadada como um filho no colo de uma mãe. O filme continuava-lhe no sonho. - Tenho de ir trabalhar - murmurou Madalena, e ele retomou a posição inicial de barriga para cima. Mas logo acordou. O dia chegara com as suas vozes de mistério, embrulhadas no mesmo silêncio de sempre, mas agora havia algo diferente a secar-lhe o bafo do sonho. A janela que se abria para a praça saltava divisões, e no quarto havia uma dupla cortina a bloquear a entrada da luz da manhã. Na mesa-de-cabeceira do seu lado havia um rádio-despertador cujo chinfrim incomodativo só seria devido daí a mais uns quinze minutos. Ulisses Barbosa carregou em um botão, detendo-o e sentou-se na cama a dar pancadinhas no queixo, como se tentasse decidi…

Quando os corpos passarem

(...)



O homem ia bêbado no comboio enquanto o dia nascia por trás dos quintais as casas alegres dormiam tão tristes na escuridão, e os gatos e os cães pelas vielas aos pares brincavam aos animais para louvar a deus ou aliviar o peito. Dentro de mim morria gente todos os dias,
por noites florindo sem apoio debaixo de uma redoma assim eu não me ajeito somente rastos de pó e cicatrizes tão belas incrustadas de mãos caídas, baças pedrarias todas confidenciais. A luz filtra-se pelas pedras sem razão e a insónia do fim retirou-me a força das pálpebras indefesas para falar. Lá fora, no escuro nas ervas daninhas, nos ramos nus, no que está acabado pousam pássaros minúsculos que são apenas, nunca perguntam o que está agora ou o que foi ou se chegará algum messias. Não pedem de comer, nem cantam são o que são em qualquer hora. Quando me levantar o céu estará morto e saqueado. Por dentro, serei sempre só um muro de gente de mim, que só morre e morre, todos os dias.
"Todos os Fogos são Fevereiro" Poesia - 2017