Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta contos

Altamira, ao entardecer. - Cap.3

    Cedeu a semana alguns dias à redução do regresso à desdita. Nenhum estafeta viera trazer-lhe a tragédia líquida aos pés da porta. A garrafa de Coca-cola, meia, continuava depositada incólume no suporte do frigorífico, justo até aquele dia fatídico. Humberto bebia 7 litros de uísque por semana. Sete litros exactos. Quase tão exactos como toda a sua vida. Ainda não tivera a experiência acolhedora de saborear uma pizza com amigos, nem sequer a regurgitante ocasional cerveja da adolescência. Aquilo era mais membrana que homem, todo ele dobras da cor mais pálido do sangue, todo ele um cheirete de peles, líquidos assombrosos de brancos e pêlos à mistura. Um produto recolhido da vida de antes agora. Fechado seria sempre uma fortaleza, aberto estaria perdido entre iguais. Aliás, Humberto só bebia assim tanto, por ser aquele macaquinho em todo o tempo que assistira ao pai fazê-lo. Só mijava sentado pelo mesmo motivo. Mal fazia ideia dos estigmas que os vícios e as idiossincrasias r...

Altamira, ao entardecer. - Cap.2

  Lavadura de nojo. Viera-se justamente três dias antes de se ver a si mesmo pondo-se humano na rua aberta depois de tanto tempo encoberto. Humberto, lavara-se por baixo com fricções extremas de acreditar em um futuro mais limpo. Pôs sabão a borbulhar na banheira, frescura resplandecente entre o escroto e o ânus. Prazer adiado pelo prazer antecipado. Toda esta limpeza visava a sua determinação. Altamira passava lá embaixo, passava todos os dias. Levava a rodilha de roupa no crânio, o corpo a incendiar o mundo medonho daquela terra dormente. As suas mamas alçavam o marasmo de Santa Clara até ao escândalo que jamais poderia prever pelo medo de ser expulsa desta nova vida. No jornal da semana passada, um foto sua toda desbotada na patine, desconchavada nas ilhargas das coxas expostas, descrevia o terror do sexo nos habitantes acostumados aos ditames da apatia: - Desejos de Maus-caminhos? Siga aqui para o lado, para a ' Sodoma ' dos Casinos e das festas de Verão. - rematava o edito...

Altamira, ao entardecer. - Cap.1

Leituras em praia de névoa alvorada: cozido de Humberto: o porco que gostava da vitela que gostava dos enchidos que toda a gente provara antes. O todo ali fugiu assustado. A graça morreu na pastelaria ao ler gratidão na poesia de um heterónimo. S e faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançado em um tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo, nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar meio-verde, meio-castanho, não sabia deixar de fitar as cores da desgraça. Ainda no outro dia, Humberto alçou a barriga do recobro da morte anunciada, e pôs-se a jeito de morrer melhor dentro dela. Altamira, que viera das cavernas subterrâneas da Turquia, acabou refugiada em Santa Clara por um mero erro burocrático. Santa Clara, terra mártir de luz excessiva. Santa Clara, área do grito final do artista. Estufa de frustrações...

O contrário da escrita incorpora-nos.

(...)  A “Bisa” lambia-me os selos das encomendas dos livros, fazia-me a cama e limpava a merda do gato Ajax da sua caixinha cor de rosa. Eu escrevia, escrevia, escrevia pelos dias fora, e de resto era normal, afinal, vivia fora do mundo real. Pensava muito em sexo, muito mesmo. Sexo! Enfim, na pornografia mais abjecta maioritariamente, ou em erotismo avulso em dias melhores, e na mistura confusa que ambos me faziam. Pensava nas mulheres que se deitaram comigo nas melhores noites, e naquelas com as quais gostaria de me ter deitado se estivesse acordado. O balanço era desequilibrado. Sobretudo nos nomes. E começava aí a confusão. Lembrava-me de quando uma amiga (já se me olvida o seu nome) me aconselhara um livro erótico, ela disse erótico, não pornográfico. Meu Deus! Pornográfico nunca, que os inválidos não tem direito à pornografia natural do mundo: Era o “Duas Vidas sem Importância”, do Cristóvão Altuna, (disto lembro-me). Então, pedi a um primo meu, o Albino, que mo comprasse e...

Diz Simão.

Há, perto do pilar da ponte, claros sinais de vida. Uma pequena área antes das casas-de-banho públicas, completamente nas sombras. E, quando não há vento, quase sempre se vêem beatas de cigarro e um restolho amerdalhado inexplicável que aqui se acumula há longos anos. Nem as ocasionais cheias o eliminam. É só o processo natural de entropia da ponte. Um dia desabará, corroída pelo fel da passagem. O olhar de Cristóvão pousa no rio, mais escuro que aquela sombra perpétua. Os seus pensamentos e o asfalto lodoso debaixo dos pneus da bicicleta escorrem nesse sentido. Podiam-lhe ter dito o que quer que fosse, que ele ali estaria na mesma, àquela hora, neste lugar. De repente, um peixe: "Que gordo!" - Fala para dentro, como os peixes, se os peixes falassem. - Se os peixes falassem soariam mudos. Exactamente como um mudo quando tenta falar. Claro que tinha razão, percebia-se logo, era-lhe importante saber que havia vida na água, como ele a descer o selim da bicicleta no es...

O Incidente de Plutão (Parte III)

Continuação... No enjoativo largo pendente à entrada da antiga fábrica de sabão, entulhado de latas vazias e frascos empoleirados, dois cães disputavam ferozmente uma carcaça de pão seco. Xavier trocou de pé sem lhes tirar os olhos de cima e seguiu afoito na peugada de uma Doroteia de passo muito determinado. Até hoje, vivera de preencher requerimentos e carimbá-los, sem pressa de nada, neste momento sentia-se o protagonista de uma estranha história que pede adiantamentos à natureza para se manter viva. Neste mesmo dia, ao acordar, descompôs-se a si próprio em voz alta, como se fosse uma segunda pessoa ali no quarto: "Tu queres que a besta acorde ou não queres? Se queres, não há cá juízos nem dúvidas. Acorda-a."  - Vens ou quê? - incita-o Doroteia, quase adivinhando-lhe os pensamentos. - Pareces parvo! Apesar de tudo ele fazia grandes esforços para não desistir da sua missão daquela manhã. Porém, o dente estragado a pulsar-lhe uma dor fina na boca, punha-o a mil...

O Incidente de Plutão (Parte II)

Continuação... Xavier sonhara o corpo de uma loura por semanas, nos intervalos em que se convencia a si mesmo que a amava porque sim. Mas que desacato. Não tinha heroísmos em part-time para dar a ninguém e por isso se pusera a fazer teatro no fim do trabalho como forma de não se maçar a si mesmo. Era um salto à vara espantoso, se de tantos lados que procurou socorro, este lhe chegasse através desta mulher. Doroteia, vista pelos seus olhos era a mulher mais bonita da cidade, e ai de quem o  contradissesse. Não era que o dissesse a ninguém, de todos os modos só se queria deitar com ela e deixar-se adormecer ao seu lado como uma fera amansada. Era tudo matéria de sonhos. - E o que foi que tiveste de fazer pelo teu pai? - Arriscou a pergunta. Não foi pronta a sua resposta, apesar de se perceber na comissura dos seus lábios os indícios de um longo diálogo consigo mesma - precisamos de falar sem rodeios - ouviu depois o rapaz dizer. - Isto é, se queres que fique e te escute. ...

O Incidente de Plutão (Parte I)

Sentia-se ainda o inexorável fedor a ossos moídos pelo ar, da antiga fábrica de sabão do fim da avenida, que fizera a última barra em Outubro de 1971. A grade era muito velha e estava quase toda coberta de glicínias. A porta, enferrujada, mexia-se à justa com a idade, rangendo. Na escuridão, brilhavam as poças da chuva recente. Via-se um quarto iluminado, mas o silêncio mais correspondia a uma casa sem quartos. Contornaram um jardim abandonado, coberto de mato, por uma viela que ladeava o terreiro lateral, semi-fechado e sustentado por colunas de ferro. Entrariam por aí. A casa era velhíssima, suas janelas davam para o quintal e ainda conservavam as grades coloniais; os grandes ladrilhos do piso eram certamente daquele tempo, pois sentia-se que estavam rachados, gastos ou partidos. Ouviu-se um clarinete: uma frase sem estrutura musical, lânguida, desarticulada e obsessiva. - Bem - disse Xavier -, pelo menos aqui está uma lâmpada. Julguei que nesta casa só haveria iluminação a velas....

Altino cansado da Vida

- Não tenho nada a dizer da minha vida profissional, apenas que uma gravata é um nó corredio e, embora invertido como está, enforcará um homem se ele não tiver cuidado. O médico observou-o, intrigado. Revelava uma extensa fieira de dentes brancos e sólidos e uma careca encrespada e suave como um pêssego. O Sol da manhã coagulava musgo nos rebordos da janela do consultório. Mais além, a estrada do Comendador perdia-se no túnel da sua visão. Quase no fundo, onde já quase bifurca com a Calçada da Cancela, um velho homem muito bem vestido vasculhava detritos com uma bengala, jogando-os para a berma. - Senhor Neves? - Interpelou-o o médico. - Das Neves. - Corrigiu este. - Como? - Que me chamo Altino das Neves e não "Neves", como o senhor doutor me chamou. É um erro muito comum. Vê, está aqui escrito o meu nome correctamente na sua ficha. - Soergueu-se sobre a secretária para lho apontar. - Está a ver? - Sim, claro. Peço-lhe desculpa. - No fundo dos olhos do aleijado...

A Falsa Ilha

Quem se dirige, rumo a nordeste, do extenso lavradio alagadiço para o interior da ilha falsa do Marques Trancão, nota logo a rápida elevação do terreno, oculta de outros pontos de vista, pelo espesso arvoredo e que faz de ponte com o resto do país. Após vinte minutos bem contados de marcha ao longo de tortuosos caminhos obstruídos por pedras enormes ou escavados em ladeiras escorregadias, com casas de paredões de barro largadas aqui e ali, ao abandono, chega-se à pátria do Trancão, e de quem quer que esteja em dificuldades com a lei. Gilberto Sidónio, "o pelintra", homem monumental, de espáduas quadradas e sólidas, com passadas elásticas, fez todo o percurso em doze minutos, e ademais carregava em cima da sua bárbara saúde, uma sacola impermeável de lona que quase parecia sua gémea em peso e volume. O interior sacrossanto da ilha é um baluarte que nasceu do peito de um bastião encaniçado, rodeado por pequenos fossos de água salobra e cães semi-selvagens que vagueiam...

Textos Devolvidos IV

.III O Banquete do Jardineiro Em Junho de oitenta e cinco comecei a trabalhar no "resgate" do jardim da Ermelinda Sameiro e Sá. A sua casa era grande, verde e antiga. Na frente havia um pátio quadrado, quase nu, nas traseiras, aquele jardim de tesouros onde noite e dia corria um rio pelo meio. Foi sobretudo um processo de o habitar... habitar e perceber, mais pressentir talvez, o sentido orgânico de tão grande espaço, de um verde inteiriço cercado por uma orquestra de pequenas cores, de notas altas, aqui e ali.  Mal abri o portão de ferro, baixei-me e levei um torrão de terra à boca, para descobrir-lhe a razão da mortandade. Nessa altura ainda pressentia as coisas pelos sentidos todos, como quem joga xadrez sozinho depois do jantar, só pelo gosto suave de cometer pequenas tolices e não as achar grande coisa. Agora, já não o faço. Já não consigo. Ela tirou-me isso, e depois ainda me dizia: “Ó homem pára de chinfrinar. Que coisa. Tens lá necessidade de estar sempre a ...

Textos Devolvidos III

Aquele Céu de um Cinzento Cristal O rumor fino das pessoas que passam pela marginal ainda em obras de alargamento suplanta o das marés vivas de encontro às rochas. Até em dias de nevoeiro cerrado engolfam o ruído sonolento da sirene de vapor, em efeito, o compasso da sua passagem contínua e embirrenta, só destrói a idílica paz marítima deste lugar de istmo rasurado dos mapas comuns. Uma tarde, David estava nas traseiras a tirar fotografias ao céu, quando percebeu que existiam demasiadas pessoas novas em Cabo Alvo. Como se de repente se tivessem reproduzido em número, do mesmo modo que o fazem os ratos, ou os insectos de bando, exponencialmente, por mero mecanismo de sobrevivência. Visto tudo em conjunto, era preciso reconhecer que a vida moderna tinha muito más intenções. Pareciam andar todos à deriva, a falarem cegos e sozinhos, alheios a tudo. Deixou de as fotografar, e foi à cozinha dar dois goles de uísque para não se lembrar de meter um outro ansiolítico pela goela abai...

Vila do Conde

para Rui Pedro Tendinha Dormi pouco. Fiz trezentos quilómetros. Julguei ver-te várias vezes no caminho. Encontrei os teus cabelos soltos numa estação de serviço. Ao abrir sem querer o guarda-luvas redescobrirem o teu cheiro. Por duas vezes pensei na tua boca em estado de pura provocação. Eras quase tu e nunca me dizias nada. O cansaço deixa-nos tão vulneráveis. Um bom amigo levou-me para o Norte. Achou por bem que mudasse de paisagem, de companhias. Na noite em que chegámos bebemos tanto, ele ainda mais do que eu. De manhã não se recordava do fim da noite. Perguntou-me várias vezes se não tinha feito nenhuma asneira e não se mostrava tranquilo quando lhe dizia que não. Como se eu não fosse de confiança no que respeita a recordações. Havia um rio, havia rosas. Eu acho que tivemos sorte. O meu amigo só me pedia que não o deixasse sozinho, que tinha medo de não voltar a encontrar o caminho do hotel e no hotel a porta do quarto. Dormi sozinho. Antes ainda li alto uma tradução de ...

Uma Cidade que vai contar Histórias

Aberto ao público em geral  - A não perder no próximo Domingo -  Casa da Cultura de Santa Comba Dão. Os meus sentidos agradecimentos ao mentor deste projecto, Amaro Figueiredo, pelo convite que me lançou para participar neste projecto. Tomara que houvessem mais como tu neste país, Amaro. Obrigado.

Piquenas estórias de amore XI

Perdido em um mar cintilante de nevoeiro e solidão humana, encontra-se um pequeno lugar todo ele rarefeito e da cor do chumbo, que raramente recebe visitas de turismo. Falecida a mulher, Mr. Olyphant, bom cidadão insuspeito, de cem quilos ou mais de carne conduzida só por vontade, realizou aí a viagem de comboio com que sempre sonhou. Em proporção à cidade onde vive, este sítio pacífico de rocha imaculada sempre lhe soou como aquele singular brilhante de fancaria que atentamente observou excepcional, deitado à sorte de quem o perdeu, no piso armado a cimento bruto, que era o salão de baile onde a conheceu. Apreendeu-o como o extraordinário , em meio a uma desoladora circunstância de espaço reduzido, com tanta, tanta gente acotovelando-se na pretensão ou fingimento de que dançariam. O facto de se terem descoberto aí, de se terem visto um ao outro aí, entre a turba barulhenta e suada, consumiu-o. Uma boa consumição, daquelas que nos alimenta a vida em vez de a diminuir em um dese...

Brilho fosco das Mudanças - Parte 4

continuação... - Deus nosso senhor! – Exclamou de acanhamento. – Isto nunca antes me havia acontecido. - Estás bonito, estás, ó Viriato. – Diz-lhe ela. Era a primeira vez que se lhe ouvia a voz barítona. - Aposto que bebeste algum vinho novo, fermentado a martelo, comeste figos maduros ou farinheiras de colorau estragadas, não foi? – Replicou-lhe de mãos postas às ancas fartas. - Sossega lá. Deixa que a Germina já te faz uma canja pura que te limpa os canos dos pés até à alma. Ele assim assentiu, sem mais nem menos, só pela boa estranheza que o seu toque lhe trazia às entranhas. Germina fez-lhe a canja a voar, e obrigou-o a engolir duas colheres em um longo intervalo. À segunda, Justino teve um vómito erótico que lhe subiu das virilhas até à glote e largou tudo para o prato, mas ela não se melindrou por isso. Sem grandes trejeitos, levantou o saiote e a combinação e colocou a mão dele sobre a sua perna nua. A canja sumiu-se do prato num milagre. O velho Justino fez conta...