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A mostrar mensagens com a etiqueta Micro-contos

Escrever,escrever,escrever..morrer.

"Escreveu um drama: disseram que se julgava Shakespeare Escreveu um romance: disseram que se julgava Proust Escreveu um conto: disseram que se julgava Chekhov  Escreveu um diário: disseram que se julgava Pavese  Escreveu uma despedida: disseram que se julgava Cervantes  Deixou de escrever: disseram que se julgava Rimbaud Escreveu um epitáfio: disseram que se julgava defunto." Augusto Monterroso - escritor guatemalteco (texto encontrado por si em um cemitério)

Vila do Conde

para Rui Pedro Tendinha Dormi pouco. Fiz trezentos quilómetros. Julguei ver-te várias vezes no caminho. Encontrei os teus cabelos soltos numa estação de serviço. Ao abrir sem querer o guarda-luvas redescobrirem o teu cheiro. Por duas vezes pensei na tua boca em estado de pura provocação. Eras quase tu e nunca me dizias nada. O cansaço deixa-nos tão vulneráveis. Um bom amigo levou-me para o Norte. Achou por bem que mudasse de paisagem, de companhias. Na noite em que chegámos bebemos tanto, ele ainda mais do que eu. De manhã não se recordava do fim da noite. Perguntou-me várias vezes se não tinha feito nenhuma asneira e não se mostrava tranquilo quando lhe dizia que não. Como se eu não fosse de confiança no que respeita a recordações. Havia um rio, havia rosas. Eu acho que tivemos sorte. O meu amigo só me pedia que não o deixasse sozinho, que tinha medo de não voltar a encontrar o caminho do hotel e no hotel a porta do quarto. Dormi sozinho. Antes ainda li alto uma tradução de ...

A água comanda a Vida

Vi gente a apaixonar-se porque lhes tremiam as mãos ao trocarem histórias de assuntos relevantes, conheci gente incapaz de aceitar o improvável, mas isto ainda não tinha visto. - Mentira, tinha sim. Encontrei-as hoje de manhã, depois de já as ter visto à coisa de cinco semanas, e ainda mais duas vezes no ano passado. Ia caminhando aos meus afazeres, por nunca acreditar ser ainda possível, só por me obrigarem a viver em 2017, ou porque julguei que se faziam filmes em Vila do Conde. As mesmas duas mulheres, reconheci-lhes logo pela pinta do detergente, amigas há trinta e sete anos ou por quanto o preço da água se foi tornando incontornável. Encontram-se no tanque para lavar a roupa e a vida, ali naquele baixio da estrada, onde o caminho amaldiçoa costas e cabelos armados.  Depois, sentam-se lado a lado e à sombra mal parada da roupa a secar dobram em quatro, o tempo. A mais velha lê o jornal do LIDL e a mais nova fuma e recorta memórias de cabeça.  Avancei aqueles lev...

Piquenas estórias de amore VIII

Já era quinta-feira e o mundo continuava fantástico. Disse-me que sim: "É tudo simples, viver é simples. Que mais há para ser dito sobre o amor? que é bom, que existe?  - E sobre as ausências e os grãos de desespero pelo mundo afora? Que crescem e crescem, sem parar. E sobre as cordilheiras de pura dor que atravessam o mundo? - Pergunto-lhe. - Que são o que são, e que não há nada demais nisso. E sobre os abraços espontâneos de um filho, não queres falar? E sobre aquela borboleta que me entrou ontem pela janela. Sobre os dois euros que encontrei num casaco de Inverno e te convidei para vires tomar café hoje comigo. Sobre estas coisas, queres falar? Acuso-o de optimista, e ele sorri com gratidão: "Sou. Coisas há que nos dão garantias de estabilidade aos dias. De contrário, chega Dezembro, e nada feito a que se chame vida. Rio-me e penso que talvez aquilo seja uma estreiteza que lhe deu neste dia. Está bem que ele não queira viver para sempre, mas rio-me porque lh...

A pensar morreu um burro!

Pensava na morte todos os dias, todos.  De manhã, enquanto se vestia e se sentia vivo, imaginava-se arrebentado por uma rajada de tiros, levado mar adentro por um temporal violentíssimo, arrojado em braços até uma fogueira, atingido por um relâmpago rebelde, trespassado, soterrado, enforcado, envenenado; lavava os dentes e caía sem amparo, em queda livre, por penhascos sem fundo.  Só assim se sentia realmente vivo e nada o atingia, nada o conseguia ferir, nada além das palavras, que até de longas distâncias conseguem ter um poder destruidor. Usava a imaginação da morte como um escudo silencioso, pois, estando calado, não estava necessariamente desarmado. Por isso pensava na morte, para afastar as palavras que o matavam aos poucos, e também, para se sentir vivo e forte. O que conseguisse. Parecia quase em casa assim. Morto por dentro, mas protegido. Pensar nisso, concedia-lhe a p erturbante capacidade de se lhe apresentar, umas vezes, a segurança como bizarro, e o...

Piquenas estórias de amore III

Alex Gozblau - "The Lost Motel" - Há-de acabar - deixou escapar - Hmmm... - A doença é uma coisa terrível. Engole-nos. - É? - O que foi? - Não sei como te dizer isto... Ao entrarem no quarto, já com as lágrimas secas e o espírito mais aliviado, começaram a sentir diferenças no seu íntimo. A princípio, não percebiam o que era, apenas sabiam que incomodava. Passado pouco tempo, para onde quer que olhassem, viam a morte. E eis que chega sexta-feira. A manhã avança lenta entre as paredes do quarto e dentro deles uma comitiva de bichos alimentava-se aos ziguezagues. - Chegou finalmente o tempo de te levar muito a sério. Falta-me é a energia. - Só estou à espera que a minha vida comece. - E eu exactamente o contrário. - E se atribuíssemos tudo ao conceito da atração dos opostos? - Fecha as cortinas e volta para a cama querido.

Piquenas estórias de amore II

João - Tu és tão parvo, vais acabar sozinho. Seja. Se é isso que queres é isso que tens, fica pr'aí a ser um menino trágico, a ver no que isso dá. Humberto - Continuo a ser teu amigo. João - Amigo? Claro! Eu faço o meu destino, enquanto tu esperas por ele. Esta amizade vai desencontrar-se nalgum lugar. Humberto - Ou nalgum tempo não achas, talvez até agora mesmo? João - És mesmo parvo! Humberto - Pois sou, mas os parvos também deviam poder ter amigos. João - Vai-te foder!

Jogo das cadeiras

Sentado, ocupo um lugar esquecido pela idade. Incapaz de me agarrar ao verão, deixo-me ficar. Por respeito, ninguém comenta isto. É justo, mas tão triste em simultâneo.  Entre todas as coisas boas há este mesmo espaço, se se considerar que cada coisa boa, ou má, ou mesmo assim-assim, tem apenas dois lados, sempre desenquadrados . - Deixem-me explicar de outra forma. - Considere-se uma estrada de terra, por exemplo, rugosa, uma longa estrada atafulhada de pequenas pedras e torrões de terra soltos, sem fim à vista, com campos verdes desiguais dos dois lados. Terra arada de um lado, esmero, organização de milho infindável, protegido e desabitado, produto da mão humana. No outro, relva fresca, poças de água e muita bicharada invisível, ocupada a viver as suas vidas. Pressente-se um qualquer movimento a qualquer momento, mais do que a simples brisa suave que a atravessa no sentido longitudinal, e de repente, no único caminho que a cruza de través, ao lado do pequeno barraco ...

Piquenas estórias de amore

Life-a-big-mexican-soap-opera - 80% water, 20% drama - Mariana a Miserável "- Oprimi-te tanto. - E eu amei-te. - Fui tão egocêntrico. - E eu amei-te. - Tão incompreensivo! - Aceitei todos os teus erros. - Hoje, por fim entendo o quanto te amo. - Acho que vou vomitar. "

Nenhum dia de anos qualquer...

A inquietação começara, ainda o mês de Janeiro ía a meio. A senhora Rosa, da casa ao lado, que era menina na verdade, pois nunca casara, nem enjeitara namoro com ninguém, mas que toda a gente  chamava de senhora à mesma, fazia questão de manter presente essa lembrança, na passagem morosa daqueles dias, que, Deus meu, tanto me custaram a passar.  Fazia-o indolentemente, com um menear preguiçoso das ancas, uma espécie de samba automático, que o meu pai dizia que ela aprendera com a Carmen Miranda, e fazia-o, sem me deitar olho propriamente, pois só lhe via a parte de trás da cabeça a mexer do outro lado, mais nada. Um cocuruto hermético, trancado num puxo grisalho, que se agitava num quase desprendimento, enquanto deitava a roupa a corar no estendal alcantilado entre o muro que dividia as duas casas. De tantos nervos me remoía, por essas alturas, que nem sequer lhe imaginava com algum grau concreto de exactidão, o ritmo do resto do corpo: - Já só faltam quinze dias Zezinho...

Viver no Passado.

Surpreende-me a minha própria nostalgia por tempos que nem conheci, e dos quais tenho apenas recordações transmitidas por terceiros. Nunca antes me colocara a viver nos anos da geração dos meus pais, mas de tempos a tempos, sou involuntariamente transportado para aí. São somente breves instantes que se dilatam quando passo pela cozinha e o sol ilumina uma determinada cor das paredes. Caio numa fantasia em tons de azul pastel, de um tempo em que havia vacas leiteiras, muito pouca gente, e todas as pessoas se conheciam umas às outras, numa pequena aldeia isolada no cimo de um monte, sobranceira ao rio Ave. Havia ali uma quietude de ledo pasmo que muito me agradava. Velhas que raramente saíam de casa, e a quem eu fazia recados. Casas trancadas no tempo pela penúria ou pelo abandono, algumas mais antigas que as próprias velhas. Não existiam bulícios de inquietações, não se choravam misérias em privado, e em público não havia necessidade para tal, pois as desventuras eram de todos. Um...

A sorte posta a nu.

O seu grito estridente de vitória foi inoportuno. Parecia despropositado, embora totalmente justificado. Terá sido somente a constante falta de oportunidades que nos assolava a todos, que o fez destoar, ou talvez o simples facto de Josefina não envergar naquela tarde, a modéstia da roupa de baixo, expondo sem compromissos o seu corpo ainda rijo de mulher madura, perante o aglomerar da multidão de vizinhos que se reunia todas as semanas em sua casa por esta hora. Mas, confesso que o solavanco da sua felicidade absoluta, no exacto instante em que viu o alinhamento perfeito daqueles números no ecrã iluminado da televisão, terá sido em parte, também uma imensa alegria para mim, e para todos os outros infelizes, que sem poderem gozar do luxo de possuírem uma televisão em casa, acabaram por presenciar  ao custo do mesmo valor, o desaire de mais semana de miséria e um espectáculo completo de variedades, composto por um número de magia extraordinário, (a sorte grande de Josefina) e de ...

Dez!

Sentia-se com um domínio completo da sua vontade quando se sentou a pensar na sua ausência. – Quinze dias é muito tempo! – Depois, pensou que tinha esse tempo só para si. Estava calmo, mas com a alma alimentada pelas pílulas da excitação. A erosão da sua partida era muito mais libertadora do que ele supunha. Precisava de a remeter ao papel para a sentir fora de si, era este o seu processo de purga, a sua forma de tornar real o que desejava. 

A luz

Numa certa idade os escritores transformam-se em conselheiros. É inútil que protestem essa condição, se o fizerem serão acusados de deslealdade. Uns tentam salvar-se com o que escrevem, outros, corrompem-se com o primeiro dinheiro ganho, depois, com a descoberta de que não conseguem escrever, mas de que não sabem fazer outra coisa diferente. Assim era Emílio Sobral Alvarenga, autor  singular de um único opúsculo mal vendido, que durante o limite máximo de três meses, colocou o nome Alvarenga na boca de certos círculos corrompidos por um mau dizer ergonómico que lhes desfigurava o sentido de ser. Tentava agora, depois de dias e noites a fio, deslindar outra narrativa que o guindasse novamente até essa fama efémera que conhecera, mas era inútil, a sua cabeça era um poço profundo de escuridão. 

Wattpad

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Maldade!

Sou um homem doente, sou mau. Nada tenho de simpático. Julgo estar doente do estômago, embora não o perceba nem saiba ao certo onde reside o meu mal. O sofrimento é a causa única da consciência humana; aprendi esta lição faz muitos anos, quando ainda me despontavam erupções de gordura na cara, e atónito, ouvia esta frase da boca do meu professor de história do décimo ano. Foi então que percebi que sou mau, pois nada que fosse humano, me fazia sofrer. - Professor, então eu sou mau! – Respondi-lhe. Não o estava a questionar perante o que me dizia, afirmava-o com determinação, orgulhoso. Ele alçou-me os olhos sob a película espessa das sobrancelhas de uma alvura óssea, que lhe cobriam o olhar como prepúcios desgrenhados e disparou a contra resposta: - Quando quiseres saber algo sobre a maldade humana, vem ter comigo, que eu explico-te. Um rodopio de vozes açaimadas pelo medo ecoou pela sala de aula, mas bastou um gesto dele para que estas se sumissem num nada. No vác...

Finalmente, paz.

Fez mórbidos preparativos naquela manhã, para o desfecho há muitos anos congeminado na sua mente de homem perdido. O caminho de pedregulhos polidos levava-o a um nicho recatado, mais além da língua de areia da rampa dos Socorros-a-Náufragos, pelo paredão comido por anos e anos de rebentação sistemática, de ondas gigantes de inverno, aí, num cantinho de pescador, Benito, deixou de olhar para trás. Nesse ponto no espaço, o tempo parou. Como se uma parede invisível se erguesse em seu redor, insonorizando o mundo que o circundava, resguardando-o do Universo à volta.

Os sonhos também se abatem!

Era o segundo dia de canícula, humedecida vez em quando por uma chuva miúda, uma chuva molha parvos. Ele interrompeu a narrativa do conto, para escrever outra história que lhe ocorrera quatro ou cinco dias antes, e que desenvolvera, pensou, nas duas últimas noites enquanto dormia. Sentia-se confiante e seguro, e decidiu deixar o conto para mais tarde e escrever a história antes que a ocasião fugisse.

Um amor sem idade

Justino Viriato era um homem incomum. Pouco dado a cismas e dono de um juízo mental irrepreensível dada a sua idade avançada. Arrastava consigo a perna esquerda, como um toco inútil, caída faz anos, na desgraça da paralisia, e o muito além disto que lhe pudessem apontar, derivava sobretudo da sua fala dobrada em tremelga, fruto do mesmo incidente que lhe tirara vida à perna. Era uma criatura sem proveito de serventia: nunca apanhava nada do chão, nunca apagava luzes, nem fechava uma porta, e na plenitude da sua vida, quarenta anos antes, o fulcro de glória da sua existência, havia sido a sua ostentosa coleção de botões de punho, de derivadas origens, cores e formatos. Amealhou mais de dez mil, muito embora poucos fizessem fé de que haveria tantos assim no mundo. 

Amigo.

N o dia em que completou onze anos de idade, Lucas fugiu a  fechar-se no seu quarto, permitindo que a vontade de abandonar os pais e o irmão, juntos lá em baixo na sala,  em pose de cartão postal, defronte ao seu estranho bolo de aniversário, decorado ao jeito das atividades triviais  dos estrunfes, corresse solta no seu coração, e entregou-se à grata tarefa de contar mais uma vez os seus amigos, que guardava debaixo da cama.