Pensava na morte todos os dias, todos. De manhã, enquanto se vestia e se sentia vivo, imaginava-se arrebentado por uma rajada de tiros, levado mar adentro por um temporal violentíssimo, arrojado em braços até uma fogueira, atingido por um relâmpago rebelde, trespassado, soterrado, enforcado, envenenado; lavava os dentes e caía sem amparo, em queda livre, por penhascos sem fundo. Só assim se sentia realmente vivo e nada o atingia, nada o conseguia ferir, nada além das palavras, que até de longas distâncias conseguem ter um poder destruidor. Usava a imaginação da morte como um escudo silencioso, pois, estando calado, não estava necessariamente desarmado. Por isso pensava na morte, para afastar as palavras que o matavam aos poucos, e também, para se sentir vivo e forte. O que conseguisse. Parecia quase em casa assim. Morto por dentro, mas protegido. Pensar nisso, concedia-lhe a p erturbante capacidade de se lhe apresentar, umas vezes, a segurança como bizarro, e o...