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A mostrar mensagens com a etiqueta Madalena Patusca

A rubrica da Madalena Patusca V

- Já terminaste - diz-me ele, visivelmente amedrontado. - Podes responder-me agora? Ainda ontem pensei há quanto tempo não vou ao Mosteiro, há quanto tempo não subo a pé até ao ponto mais alto da vila, onde sopra o vento na razão de quase voarmos e queima o sol sem que nos possamos dele proteger. Lá em cima só se deveria querer alegrias, êxtases profundos dentro dos carros embaciados, com aplausos e festança e orgasmos. Casamentos e baptizados. Comunhões evito, que me lembram funerais com crianças mal-vestidas. Também se morre de desespero lá em cima, esperanças mal dirigidas que falham o alvo e caem, lá de cima. Tantos enterros segui desde lá de cima. Poderá este ser mais um? Aprovei com um movimento. Arrumei a louça para o lado e levantei a cabeça ante o seu olhar fixo. - Isto é sério demais - respondi-lhe. - Esta nossa vida é como um livro apenas começado e com um "R" gigante, a vermelho, a cortar tudo de cima a baixo. Ontem pensei em ...

A rubrica da Madalena Patusca IV

Puxou a colcha mais os lençóis para a frente, levantou-se e acendeu a luz pálida do candeeiro da mesinha. Três palmos ao seu lado, o Senhor Barbosa sonhava com galáxias. Havia-as visto no Sábado no cinema. A temperatura caíra lesta durante a noite e ele apertava-se na colcha almofadada como um filho no colo de uma mãe. O filme continuava-lhe no sonho. - Tenho de ir trabalhar - murmurou Madalena, e ele retomou a posição inicial de barriga para cima. Mas logo acordou. O dia chegara com as suas vozes de mistério, embrulhadas no mesmo silêncio de sempre, mas agora havia algo diferente a secar-lhe o bafo do sonho. A janela que se abria para a praça saltava divisões, e no quarto havia uma dupla cortina a bloquear a entrada da luz da manhã. Na mesa-de-cabeceira do seu lado havia um rádio-despertador cujo chinfrim incomodativo só seria devido daí a mais uns quinze minutos. Ulisses Barbosa carregou em um botão, detendo-o e sentou-se na cama a dar pancadinhas no queixo, como se tentasse d...

A rubrica da Madalena Patusca III

Eram duas e um quarto quando lhe bati à porta. Recebera a carta nem há vinte minutos e puseram-se-me logo insustentáveis tanto as pernas como o coração. Procurei anos e anos agarrar-me a todas as horas tépidas. Inutilmente. Cada fim do dia era um fim. E nem me esforçava muito por tentar reter o Sol no céu, até o conhecer. Hoje de tarde, pôs-se tudo em um emaranhado de nevoeiro sujo, de rugidos industriais assustadores e de frio. Sobretudo frio. Um frio pior do que o de antes. Hoje de tarde pôs-se tudo Inverno. Mas já nem apetece acobertar-me mais como outrora. Vou desembestada pelas ruas da cidade e sou toda a cidade, como ele é da cidade e eu sou dele. - Como assim, não me procures mais? - Estava deitada na cama em roupa interior, vesti o roupão e desci os três lanços de escadas até à caixa do correio. Quando a abri com aquela chave pequenina e vi a sua letra fiquei eu desse tamanho. - O que quereria ele dizer com não me escrevas mais? - Esperava-o nessa tarde e até lhe preparei um...

A rubrica da Madalena Patusca II

- Isto o quê? - Ficou sem resposta. - Isto é isto e que mais haveria de ser? - Disse-me à saída. - E aquilo não era coisa alguma. Nem dito nem feito. Pareceu-me uma interjeição cheia de palavras. Em outra ocasião fomos jantar fora: " Ao Veneno da Madrugada ", um restaurante cheio de más pretensões mas boas recomendações aqui e ali. Todos os pratos diziam-se com nomes esquisitos, muito embora a comida me parecesse exactamente igual à de outros lados. E todos os empregados arrastavam consigo uma frescura suja deliberada, nas roupas e nos cabelos e barbas. Nos olhos e até no discurso. Como se quisessem parecer ainda mais estranhos que os nomes da comida. Foi ele quem o escolheu. Talvez pensasse que deveria aparentar outra idade e disposição, diferentes daquelas pelas quais me apaixonei. Para me impressionar, de algum modo. Encontrámo-nos ao pé da entrada e tentei abraça-lo, mas já vinha a mexer na memória e só dizia: "Merda, merda...merda", entrámos directos a...

A rubrica da Madalena Patusca I

O resto do dia cismei aquele encontro. Quiçá mesmo o resto da minha vida. O coração de um outro é sempre uma escura floresta onde se aventuram apenas os verdadeiros apaixonados. Para o lado oposto da estrada já quase ficava outra terra, e ali não havia quase nada de amor-próprio. Como foi que ganhei coragem para estar ali naquela praça, naquele dia, naquela hora? Nunca o saberei. A minha vergonha era rija como se imaginaria que fosse o dorso de um rinoceronte. Encouraçada naquela frustração, perante o fim inusitado da faca do tempo, deixei-me estar.  Isto, até o saber ali, vivo. Nem sei porque me apetece contar esta vulgaríssima história de um amor estranho. Mas, como poderei resistir à tentação de reproduzir este nosso momento? Juraria, apesar de tudo, que aquele encontro, à deriva do que ambos éramos por dentro foi a grande excitação das nossas vidas. Mal lhe afaguei o cabelo, soube que também ele sempre me amara sem saber. E provou-me. Tocou-me no braço, e depois pegou-...