Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta família

A Amélia é grande....ou, A Amélia foi grande!

  A morte acompanha-nos sempre no seu avanço inexorável. Cai-nos dos telhados, ergue-se de solos nunca consagrados, mata-nos pelos flancos, os lados desprotegidos, aqueles lados onde achávamos que tudo correria pelo melhor, sem que nos apercebamos que findamos aos poucos. Dá-nos as mãos, invisíveis à percepção. Tira-nos o nosso bem mais precioso, a razão. A morte sabe muito mais do que nós sabemos e mesmo quando parecemos saber alguma coisa, ela engana-nos e reergue-se. A morte é deus! - O único deus possível. A minha tia Amélia foi uma força da natureza. Foi-o. Divorciou-se de um homem que a maltratava, em um tempo em que as mulheres ainda viviam convencidas de que estes sofrimentos faziam parte da existência feminina comum. A luta restringia-se a algumas (poucas) heroínas, sobretudo se se tratasse do Portugal de então. Daquele Portugal ainda lazarento, mas já tão próximo da revolução. Porém, como poderia a minha tia Amélia saber disso? - Eu próprio, seu sobrinho e afilhado, deten...

Cortar em Seis o Pão

Versos heróico-familiares .III Houve um tempo  em que o meu pai trabalhava por turnos na fazenda na tesoura, giz e no cigarro campeão como um herói de acrobacia. Coração de aço, entretela feito asa vestida em madeira ancestral. O dinheiro era um osso que mal chegava para encher a concha de uma mão. Dormia com a minha mãe e a direito fazia a emenda dos dias de cristal. Há noite, chegava a casa e antes de se sentar à mesa sorria, como ninguém. .. A minha mãe esfregava do pescoço o torcicolo respiração e canto, o cheiro a frio de varrer a casa da rádio a água da cor da ferrugem e das camas, o vil cotão. Mulher indómita de perfume perfeito dir-se-ia uma planície formosa não inventada por flores. duas mãos papoilas, vermelho sangue e uns olhos de abismo aberto. Havia também, por perto, um gato  amarelo esgalgado pelo meu colo fogo de calor, amor, risos e pão. .. Sei de toda esta matéria de  embaraços mesmo no fim de quatro, fui eu quem ...

Praia dos Banhos

Todas as estátuas de sal vão desaparecendo perante o rumor do mar. Até me lembro do exacto instante diferido da sua queda. A manhã estava pronta. O Sol na extensa espera da aurora, que não era feia nem bonita. Havia tantos suicidas na família que cheguei a duvidar que fossem todos aparentados. Pequenas borboletas insónias trazendo às costas as consciências e afogando-as no escuro. Todos eles estátuas seguindo viagem na desenvoltura do salitre. Quando mergulhei a cabeça, pareceram-me todos mortos, mas eram só tios e primos afastados por muralhas em meu redor. Acabaram todos em tempestades e fúrias e tristezas e vergonhas heróicas, com as cabeças entre as mãos e o sal a fecha-los nas suas cavernas para sempre. Venho sorver ar às nuvens da madrugada e trago ainda um rasto de vozes agarrado ao cabelo como algas desencantadas. Vozes rasteiras que rompem por momentos o ataúde do mar. O tempo e a areia salgada esqueceu-os. Mesmo eu só me recordo de uma bruma envidraçada de braços cúmplices...