Ouvir o álbum branco dos Beatles enquanto encarreiro cigarro atrás de cigarro é um bom artifício de contrição contra a apatia que muitas vezes a vida nos impõe. O álbum branco aqui é meramente inconsequente, como qualquer outro o seria. Mais me importa a nuvem de tabaco que produzo e que a tudo se agarra. Aquelas garras de águia nevoeirentas trazem-me a distância da memória junto ao peito. O meu pai fumava em casa. O meu pai fumava na sua oficina de alfaiate. O meu pai fumava imenso, fumou até quase à minha idade actual, quando um médico lhe ditou uma sentença da qual não se pode esquivar. Depois desse dia, o meu pai jamais prendeu um cigarro nos lábios. Porém, até então, o meu pai fumou muito. Sempre me pareceu um prazer simples que o agradava. E, nunca sequer, suspeito, ouviu o álbum branco dos Beatles enquanto baforava qualquer coisa e bebia muitas outras. Com ele na oficina, fumavam o meu tio, tanto ou mais do que ele fumava, tanto, tanto que o matou pela garganta, ou p...