Naquela noite, mesmo sem o sabermos, fizemos amor como pequenos deuses. Havia lágrimas ou tristes ramagens desfolhadas sobre a margens dos teus olhos, de cujo brilho verde brotava um rio inteiro, em cada gota de peixe que deles descia. Fizemos amor sim, como criaturas solitárias daquela única noite. Sem hora ou destino marcado, às cegas e às escuras, a minha mão e a tua, depois o teu peito e o meu peito, paragem abrupta, sem jeito já havia tanto de nós à mostra. Fizemos amor em andamento. Primeiro na entrada, depois, a escorregar da relva húmida até á estrada , depois no carro, depois na saída, nas lajes pardacentas, depois n'areia, por fim no mar ou na lua, nem sei bem. éramos só um. E como não soubemos nada sobre esse amor, assim ficou, para sempre preso nesse brilhante escuro, dos objectos incertos que nos cercavam. A noite acendeu depois as estrelas, porque teve medo da nossa própria escuridão. E todas as lágrimas...