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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro 10, 2017

Tangências

Reflexão sobre o osso da minha perna

A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também
como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura
ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva
sim, este osso a mais dura parte de mim dura mais do que tudo o que ouço e penso mais do que tudo o que invento e minto este osso dito perônio
é, sim, a parte mais mineral e obscura de mim já que à pele e à carne irrigam-nas o sonho e a loucura
têm, creio eu, algo de transparente e dócil tendem a solver-se a esvanecer-se para deixar no pó da terra
o osso o fóssil
futura peça de museu
o osso este osso (a parte de mim mais dura e a que mais dura) é a que menos sou eu?

Daniel Moreira
"entre o território" (2014)

Harry Dean Stanton

Certo dia, sobre Harry Dean Stanton, o crítico de cinema Roger Ebert, disse: "Nenhum filme protagonizado por si (HDS) poderá ser mau de todo." - O seu grande talento foi o de tornar imediatamente autêntico tudo aquilo que fazia. Este foi o poder deste extraordinário actor.


Coisas insensatas das Ausências

(...)

Esfarelou-se como um lenço de papel perante o espirro furioso de um gordo e disse-me: “Há muitos fenómenos de visões. Nós, pastores, conhecemos sempre alguém que nos vem dizer que tem visões. Estes fenómenos são naturais. Não que esteja a aguardar que a Nossa Senhora venha do céu por aqui abaixo.- Riu-se falsamente. - Se o fizesse, certamente que faria logo paragem no oitavo, beberia um copo, conversaria com a passarada, apanharia um pouco daquele arzinho cristalino, e descansaria os pés, – ou as asas, não sei – na balaustrada aquecida. Um esquema de engonha, demorando o seu santo tempo, a ver se valeria a pena o esforço final da descida. Não, não. Esta minha situação, afinal, não passa de uma realidade profundamente evangélica. E o que acontece quando deixamos transparecer os nossos defeitos? Somos linchados, pois claro. Taxados de loucos, sem juízo, caídos longe da realidade.” E eu acreditei em tudo, como se fosse mesmo comigo.

Dia sim, dia não uma beleza antiga

A Noite em que Gershwin me deu um filho - Parte 3

...continuação

Passaram-se alguns meses depois disso. Aproveitamos a noite para nos municiarmos junto à Grana Padano, a pizzaria do Leandro Antonino, um benemérito dos desabrigados e também um homem de grandes paixões. - Bendito Leandro que nos deixa sempre qualquer coisa para a refeição da noite. – Diz ela. - O que foi que encontraste? - Uns restos bons de lasanha. Tão bons como se tivessem sido cozinhados para nós. - Lasanha, que elegância! Isso casaria tão bem com um Chardonnay, de madeira discreta, se o encontrássemos claro. Um Malvasia, um Vermentino ou até um Garganega, cumpririam aqui bem o seu papel. - Tinha lido isto tudo num manual que encontrei na semana passada neste mesmo lixo, o do Leandro. Ela entretinha-se a limpar cascas de cebola e restos queimados de pimento do contentor da lasanha. Prossegui. - Ali num corpo médio, só para eliminar a gordura untuosa dos queijos e a cremosidade das natas, entendes? - Dei tudo o que podia mas ela nem me notou a ser fingidor. - Sonhar não…