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A mostrar mensagens com a etiqueta Humberto

"Eu digo ficção, e o drama não ficcionar..."

Ontem quis saber mais sobre a existência dos " crica s", ademais exaltei-me entre espaços abertos e viajei mesmo nessas planícies volumosas da criação. Fui a Cuba, finalmente! Não a dos trópicos, essa está na bolsa de viagens a fazer com dinheiro, mas a nossa, a do Alentejo. Indentada entre umas mini-férias do seu criador, "Humberto Crica" surgiu novamente tão vívido como quando o fiz nascer, quando dealbei pelas bandas de um espaço desconhecido onde o coloquei na história. Cuba é maravilhosa. Não apenas a estação de comboios, mas toda a Vila. "Humberto" perdeu tanto em não a explorar, seriam alguns capítulos mais de deslumbre, mas optei pela economia. O " Corre! " é uma novela e há que avançar com a narrativa cortando as cartilagens onde as houver. Porém, fiz a graça de campo em um banco de jardim onde o criador tentou imitar a postura da personagem. Convêm realçar que o dito personagem nunca foi idealizado na formosura anafada do seu criador, a...

Altamira, ao entardecer. - Cap.3

    Cedeu a semana alguns dias à redução do regresso à desdita. Nenhum estafeta viera trazer-lhe a tragédia líquida aos pés da porta. A garrafa de Coca-cola, meia, continuava depositada incólume no suporte do frigorífico, justo até aquele dia fatídico. Humberto bebia 7 litros de uísque por semana. Sete litros exactos. Quase tão exactos como toda a sua vida. Ainda não tivera a experiência acolhedora de saborear uma pizza com amigos, nem sequer a regurgitante ocasional cerveja da adolescência. Aquilo era mais membrana que homem, todo ele dobras da cor mais pálido do sangue, todo ele um cheirete de peles, líquidos assombrosos de brancos e pêlos à mistura. Um produto recolhido da vida de antes agora. Fechado seria sempre uma fortaleza, aberto estaria perdido entre iguais. Aliás, Humberto só bebia assim tanto, por ser aquele macaquinho em todo o tempo que assistira ao pai fazê-lo. Só mijava sentado pelo mesmo motivo. Mal fazia ideia dos estigmas que os vícios e as idiossincrasias r...

Altamira, ao entardecer. - Cap.2

  Lavadura de nojo. Viera-se justamente três dias antes de se ver a si mesmo pondo-se humano na rua aberta depois de tanto tempo encoberto. Humberto, lavara-se por baixo com fricções extremas de acreditar em um futuro mais limpo. Pôs sabão a borbulhar na banheira, frescura resplandecente entre o escroto e o ânus. Prazer adiado pelo prazer antecipado. Toda esta limpeza visava a sua determinação. Altamira passava lá embaixo, passava todos os dias. Levava a rodilha de roupa no crânio, o corpo a incendiar o mundo medonho daquela terra dormente. As suas mamas alçavam o marasmo de Santa Clara até ao escândalo que jamais poderia prever pelo medo de ser expulsa desta nova vida. No jornal da semana passada, um foto sua toda desbotada na patine, desconchavada nas ilhargas das coxas expostas, descrevia o terror do sexo nos habitantes acostumados aos ditames da apatia: - Desejos de Maus-caminhos? Siga aqui para o lado, para a ' Sodoma ' dos Casinos e das festas de Verão. - rematava o edito...

Altamira, ao entardecer. - Cap.1

Leituras em praia de névoa alvorada: cozido de Humberto: o porco que gostava da vitela que gostava dos enchidos que toda a gente provara antes. O todo ali fugiu assustado. A graça morreu na pastelaria ao ler gratidão na poesia de um heterónimo. S e faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançado em um tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo, nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar meio-verde, meio-castanho, não sabia deixar de fitar as cores da desgraça. Ainda no outro dia, Humberto alçou a barriga do recobro da morte anunciada, e pôs-se a jeito de morrer melhor dentro dela. Altamira, que viera das cavernas subterrâneas da Turquia, acabou refugiada em Santa Clara por um mero erro burocrático. Santa Clara, terra mártir de luz excessiva. Santa Clara, área do grito final do artista. Estufa de frustrações...