Comecei a querer falar numa idade em que o horizonte era irregular, quase montanhoso, e quando olhava em frente julgava estar a chegar a algum lado. Mas nunca mais chegava. O torpor dos sons das línguas que tudo adulam aferrolhava-me a boca. Estava cheia de eu não poder falar. Tinha a boca cheia de me calar. Aos doze anos, uma senhora muito bonita tentou catequizar-me o que Deus esperava de mim. Disse-me que a boca de um animal é espessa; que tem uma boca pela forma da boca, por dentro e por fora. Que é o vazio cheio de periferia e os beijos são ao centro, um absoluto desperdício de boca. – Tu não és nenhum bicho pois não? – Sou pois. – Oh! – Exclamou. – Mas Deus quer-te homenzinho, sabes? – Não. Aos quinze anos, situei-me por fim na língua franca destes barulhos. Fui ter com essa senhora, pedi-lhe que me emprestasse o seu relógio. – Para quê? – Quis saber. – Chiu! – Disse-lhe. Peguei no seu relógio e pousei-o na mesa a contar tempo sozinho. – Que estás a faz...