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Restauração

"Risquei o último fósforo e estou agora vazia, não esperando sequer o deserto. Posso de novo sublinhar os livros sem pensar noutros olhos, numa vontade que não coincida; como quem se despe de portas abertas, luzes acesas, buracos na roupa, indiferente ao desejo de vizinhos e espelhos. Sou finalmente o único fantasma da minha vida inteira." Inês Dias,  in "Um raio ardende e paredes frias"  averno, 2013

Textos Devolvidos VIII

(...) Remédios cultiva um jardim suspenso em casa. Através de um sistema que envolve muitas cordas, muitos pregos e muitos vasos, debruçam-se gerânios, begónias e bromélias do seu tecto. A cozinha era o último bastião de vida na casa ancestral dos Bruno, e fazia questão de a manter assim. Um raminho de salsa espreita por cima do armário do pão e dos pratos. Um pessegueiro anão frutifica entre a pia e o fogão. As folhas concorrem com o detergente da louça e com o bico do gás. - Aquilo nunca uso, - explica com desdém. – O Luís não me deixa. É o seu pessegueiro de estimação. – Nos anos mais férteis, os frutos escorrem pelas portas dos armários e no centro da cozinha, e Remédios está bem ciente que o pessegueiro padece de uma doença terminal, que já não lhe permite ser um pessegueiro orgulhoso, por isso, só lhe apara as folhas mortas e recolhe a podridão dos frutos deixados ao abandono. - Não tenho esperança nesta árvore caduca. Nasceu frágil, morrerá frágil. E se morrer, morreu. Nã...

Textos Devolvidos V

(...) Aqui em casa há um pátio, cobre-o um verde murcho por todos os lados; heras, madressilvas, pés de feijão-verde e tantos, tantos arbustos, todos secos e mirrados por falta de luz e de água. Pelo meio estão as canas beges e escamadas que o meu pai trouxe de um campo.  Não se alimentam em condições os pobrezinhos, nenhum deles. Ao centro, sobrevivem dois limoeiros, tristemente secos também, despidos de qualquer amarelo. O meu pai pôs dois chapéus gigantes em cima dos limoeiros para eu poder visitar o pátio de vez em quando e observar o vai-e-vem atarantado das formigas. A minha mãe não gostou nada disto. Diz que as árvores não são gente para terem chapéus, que as formigas não são nada tontas e que os meninos como eu, deveriam era ficar dentro dos ninhos, resguardados.  Depois dos limoeiros, e depois do muro, fica a doca do Libânio, que, por ser feita de pedras cinzentas tem sempre luz em abundância.  Tenho tanta pena das pedras. É mesmo uma chatice isto da lu...

Esta é a minha Praia

A Capela de N. Srª. da Guia vista da Praia de Azurara - Foto de Pascoal Silva

Fim?

Lançamentos do último número (#18) da Revista Flanzine - "FIM" Sábado, 8 de Dezembro, 17h30 - Porto, Gato Vadio Sábado, 15 de Dezembro, 17h00 - Lisboa, Livraria Cotovia É aparecer, que isto é um doce de Natal à vossa espera.

O Arquipélago Precioso

No próximo Sábado, dia 8, pela 16h00, em Vila do Conde. Com a auréola que lhe outorga a habitual inquietude, o Helder carregado de pruridos põe-se constantemente a descobrir e a inovar. Ouso quase afirmar que possui um daqueles espíritos indomáveis que só se saciam a experimentar as barreiras. Barreiras essas, que cedo entendeu que nunca poderão ser bem definidas, no que à arte diz respeito. Por norma remete-nos ao incompreensível em um tempo onde só queremos compreender tudo à pressa. Isto diz que, a melhor percepção da obra de um artista é descoberta quase sempre naquilo que não entendemos. E quiçá nunca tenha sido esse o seu grande objectivo, dar-nos lições sobre a sua arte, porém, não restam dúvidas que a sua atitude quase ‘camaleónica’ na relação com a sua arte sempre em modo de descoberta, acaba por nos ensinar muito acerca da própria história da arte em si. Desta feita, o mote do seu mais recente movimento de artífice encaminhou-o para uma área de arquipélagos...

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro. Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio. O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou...

Black Friday?

Começar um novo Livro por Acabar Poema 5 Depois do primeiro olhar apanhado de surpresa fora das margens, ficaste sentada num nicho de pedra azul naquele novo absoluto pasmo que se sente face ao branco de um começo. Aí escreveste o nosso romance inteiro.  Um breviário. O ponto final foi a mais perfeita sentença que sempre imaginei para uma tarde só feita de olhos postos. Deslizaste-os lassos pelo meu peito assolado pela fome  de meses inteiros de iliteracia e aí deixaste a frase a começar um resto de dia para sempre. Logo despi todos os medos no calmo rio, defronte. Misteriosamente, libertou-se uma mecha do teu cabelo pelo vento do entardecer e os teus lábios nem se mexiam eram só o teu sorriso parecido a um fogo-de-artifício em câmera lenta, luzes lentas num fim de tarde quente de Verão, abrindo a minha frágil trincheira.. Falhar-te-á um dia a minha memória, e o que fomos ruirá, no primeiro vento que o ...

Perguntar não ofende.

Pergunto-me se ainda existirão editores valentes, impregnados daquela invulgar audácia que só cabe aos verdadeiros iconoclastas. Editores atirados a fugirem dos mercados e da necessidade de se sistematizar tudo ao ínfimo tostão da mais valia. Pergunto-me se ainda existirão pessoas assim, que liderem uma editora, ou que trabalhem numa. Pessoas assim que ainda se atrevam a ler blogs com trinta e cinco seguidores, que se deparam com um excerto como este que aqui apresento e que sintam curiosidade em vez de lástima. Pergunto tanta coisa em uma só frase que se calhar já os  afugentei... (...) O vento baixava dos telhados nas manhãs de Abril. E as nuvens ficavam lá no alto à espera de que o bom tempo as fizesse descer para o pátio. Enquanto isso ficava vazio o céu azul, deixava que a luz caísse toda no jogo do vento removendo a poeira e batendo nos postigos como o  assobio dos amoladores de facas. - Estás na mesma, que bom, fica assim. Nunca mudes meu filho, nunca. – Di...

iluminado

"le principe du plaisir" - René Magritte Consta que esta pintura “ Le principe du plaisir ” de René Magritte terá sido vendida ontem mesmo por uns ridículos  26,8 milhões de dólares (23,8 milhões de euros), num leilão da  Sotheby's   em Nova Iorque, tornando-se assim na obra mais cara do pintor belga. É caso para se dizer que hoje em dia o princípio do prazer se paga absurdamente caro.

Vila do Conde

para Rui Pedro Tendinha Dormi pouco. Fiz trezentos quilómetros. Julguei ver-te várias vezes no caminho. Encontrei os teus cabelos soltos numa estação de serviço. Ao abrir sem querer o guarda-luvas redescobrirem o teu cheiro. Por duas vezes pensei na tua boca em estado de pura provocação. Eras quase tu e nunca me dizias nada. O cansaço deixa-nos tão vulneráveis. Um bom amigo levou-me para o Norte. Achou por bem que mudasse de paisagem, de companhias. Na noite em que chegámos bebemos tanto, ele ainda mais do que eu. De manhã não se recordava do fim da noite. Perguntou-me várias vezes se não tinha feito nenhuma asneira e não se mostrava tranquilo quando lhe dizia que não. Como se eu não fosse de confiança no que respeita a recordações. Havia um rio, havia rosas. Eu acho que tivemos sorte. O meu amigo só me pedia que não o deixasse sozinho, que tinha medo de não voltar a encontrar o caminho do hotel e no hotel a porta do quarto. Dormi sozinho. Antes ainda li alto uma tradução de ...

Que Alguém Saiba que ando Seco.

Vendo o que me resta desta poesia como parte de um crowdfunding   que se destina a angariar fundos para a compra de uísque suficiente para conseguir escrever mais livros de poesia (ou qualquer outro género.)  que por sua vez acabarei por tentar vender, desesperadamente, para conseguir comprar mais uísque e assim prosseguir a escrever. e a beber e a escrever e a vender e a beber e a escrever...  E por aí fora... É uma espécie de boa causa!  - Mandem mensagem para Casimiroteixeiraescritor@gmail.com - (Nota: o ' c ' no inicio do endereço é mesmo maiúsculo ) (Nota 2: Podem sempre chegarem-se à frente e mandaram-me foder. Eu entenderei mal, mas é normal isto, pois sóbrio, entendo muito pouco do mundo de hoje. Prefiro escrever e beber até rebentar de infâmia.)

Icónico

David Bowie por Terry O'Neill (1974) Bem tarde a descobri,  Exposicao Iconic Bowie , mas, ainda fui a tempo e muitos de vós também poderão ir. Apanhem esta fantástica exposição fotográfica no Arrábida Shopping (Gaia), pois dizerem que o Bowie morreu será sempre 'fake news' no coração de quem o amou.

Saudades de ver bons filmes (XVIII)

Ao contrário do que muitas imaginações menos tolerantes acreditam, este blogue não se chama da forma como se chama, por ser eu um 'arrogantezinho de merda' ( ipsis litteris ) que só quer ver o mundo partido em bocados e reorganizado à sua maneira. É verdade que sou amiúde tomado por certas e determinadas arrogâncias, e é uma merda que o seja por vezes, pois só me lixa a vida. Porém, "O Mundo de Acordo com Miro" não é mais nem menos que uma homenagem, um singelo tributo a um pequeno grande filme que sempre adorei: " The World According to Garp ". Esta inteligentíssima produção de 1982, realizada por George Roy Hill, onde o malogrado Robin Williams interpreta o papel principal, - uma das grandes prestações da sua carreira, por sinal, - em um registo dramático, e porém sempre imerso naquela sua muito própria inocência cómica, que transparecia sem esforço quando o permitia, sempre me tocou em nervos e delírios muito particulares. Creio até, que o facto de a...

Rui Rock's

Hoje é o aniversário do meu amigo Rui Terroso. Quarenta e três anos de vida, mais de vinte de música incansável. Um homem diferente neste tempo de arraso total da individualidade, assustado ou não, tenaz, jamais desiste. A certeza na frente e sempre seguindo a canção. Um grande ser humano que não espera acontecer, faz. Merece-me tudo e assumo-lhe a dedicatória. Falei está falado. A amizade não vê nem ouve, só sente. Parabéns Rui.

Praia dos Banhos

Todas as estátuas de sal vão desaparecendo perante o rumor do mar. Até me lembro do exacto instante diferido da sua queda. A manhã estava pronta. O Sol na extensa espera da aurora, que não era feia nem bonita. Havia tantos suicidas na família que cheguei a duvidar que fossem todos aparentados. Pequenas borboletas insónias trazendo às costas as consciências e afogando-as no escuro. Todos eles estátuas seguindo viagem na desenvoltura do salitre. Quando mergulhei a cabeça, pareceram-me todos mortos, mas eram só tios e primos afastados por muralhas em meu redor. Acabaram todos em tempestades e fúrias e tristezas e vergonhas heróicas, com as cabeças entre as mãos e o sal a fecha-los nas suas cavernas para sempre. Venho sorver ar às nuvens da madrugada e trago ainda um rasto de vozes agarrado ao cabelo como algas desencantadas. Vozes rasteiras que rompem por momentos o ataúde do mar. O tempo e a areia salgada esqueceu-os. Mesmo eu só me recordo de uma bruma envidraçada de braços cúmplices...

Cruz

Dia 6 de Novembro chega às livrarias o novo livro do meu autor português contemporâneo favorito.  Ora, da forma como encaro as coisas, gastar-se dinheiro em livros é uma poupança sem contraponto. Uma anestesia permanente na ignorância. É como abrir uma conta na caixa de depósitos de um melhor futuro. - Enfim, melhor é deixar-me de lirismos - gosto mesmo muito do Afonso Cruz e não me enguiço nada em partilhar isto convosco.

Saudades de ver boas Séries... II

No próximo dia 11 de Novembro, o mundo irá certamente promover a celebração do centésimo aniversário do último dia desta guerra. A décima primeira hora, do décimo primeiro dia do décimo primeiro mês em que a humanidade finalmente gritou basta!  Contudo, tão insensata guerra (Não serão todas assim? São pois!) foi onde o Homem se apercebeu de que as guerras já não eram aquela coisa galante e nobre de outrora, que nos impulsionavam a elas com um sorriso garboso nos lábios e uma atitude desprendida de medos no espírito. Esta guerra mostrou-nos a nossa bestialidade oculta, o nosso grotesco lado mais cruel e então terá sido dito: "Ser esta a guerra para terminar todas as guerras.." - Sabemos bem que não o foi, e sabemos também, que todos nós, como membros da raça humana, não nos permitimos a libertação deste desolador móbil de 'se fazer a guerra', de nos atirarmos à nossa própria destruição e desgraça, porque, a guerra, move-nos e ganha-nos e perde-nos muito mais em si...

Textos Devolvidos II

(...) Gabriel era um palerma, sim, um débil pamonha cheio de fraquezas emotivas. O pai dele era o seu inverso, o Hermenegildo acredito que fosse selvagem, sem dúvida. Os gonzos descambados da porta assim o provavam. Como é que alguém  não selvagem conseguiria vergar aquelas dobradiças num empeno, com a simples força do seu corpo? - Além disso, havia também a história, sim, aquela misteriosa história que o Gabriel, a muito custo nos contou certa vez, sobre ele.  Não era uma história sobre o senhor Almeida entendam, mas tão-somente a história do bravo Hermenegildo Almeida. – Há aqui uma notória diferença. - Onde este, dotado de um sangue mais vermelho que a maioria, e com dezassete anos apenas, fugira de casa sem qualquer aviso, rumando a Espanha, para se juntar aos retalhos das brigadas internacionais, os soberanos republicanos que lutavam contra o fascismo do General Francisco Franco. Gabriel não era exactamente um bom contador de histórias, de modo que tivemos de fazer...

Passar o ar a 4 rodas

Renault 4L BIC ballpoint pen drawing, A3 size Luis Silva www.luissilvacars.com