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A mostrar mensagens de Outubro 14, 2012

Dia do Poeta

A morte é a melhor saída, quando não há futuro nem fé nem salvação; quando a vida, a nossa vida, se tornou —desde o útero— uma amálgama de utopias, de sonhos e imagens sem corpo; de montanhas que inventamos e escalamos. Sós, tão sós como a companhia que a nós se junta.
Certas almas não têm par, já nascem ímpares, desgraçadamente ímpares, mas não imunes... nem inocentes, porque não há inocentes —todos temos alguma culpa, mesmo da culpa que não temos...
Não choro mais os mortos, invejo-os, se a morte os veio buscar devagarinho; se os abraçou suave, docemente, como que libertando-os do terrível pecado de estarem vivos nestes tempos de agora; como que tirando-lhes todas as dúvidas, neste flagelo de falta de certezas, só os posso invejar.
Morre-se devagar às mãos de inimigos que nunca vemos, que se escondem nos rostos que conhecemos, mas que não nos enfrentam, sorriem apenas, sob máscaras de desculpas.


Diz-se que qualquer um pode fazer um poema, mas não pode. 




Feliz

"Estou feliz!" - Proclamei para o ar vazio, para ninguém em particular, só para experimentar ao que soaria.

Agora que morri...

O pior é que andamos todos ao mesmo.

Não receio grande coisa nesta vida. Nem tigres, nem bancos, nem doenças venéreas. O que realmente me suja as cuecas são as pessoas.
Casos concretos: Aquela pessoa que nunca deixa passar ninguém à sua frente na fila do supermercado, que bufa, urra e esperneia na ocupação esclarecida do seu lugar, ainda que, a outra, directamente atrás de si, traga somente um sorriso e uma embalagem pré-congelada de comida. Quiçá o jantar daquela noite, e a primeira, transborde o espaço recto da mesma linha com a obesidade do seu carrinho de compras. Sim, isso é o que mais me assusta. Tremo todo sem parar. A debilidade do gesto humano, a fatalidade fúnebre do mero gesto cortês.
Por exemplo, quando nada nos impede de deixar entrar mais um carro na fila de trânsito, até estamos a relaxar com aquela musiquinha na rádio, mas não o fazemos, pela mera impunidade de sabermos que podemos. Ou, quando vemos um velho, demasiado cansado destes dias, a tremer, agarrado a um varão, numa carruagem do metro, e não nos…

Regresso onde nunca estive.