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Doze anos escravo!

  A vida, continua vertiginosa, como a montanha de onde desabei, e que jamais escalarei. Jamais! Estou certo disso, agora. Doze anos depois, continuo a querer ser escritor. - Mas que grande tolice! - E, dessa dúzia de vida, retiro a única lição possível: Apesar de todas as boas intenções das frases feitas, querer apenas não basta, nunca basta. É preciso sempre conhecer-se alguém que protagonize existência onde nós não conseguimos nem deitar um mero bafo de respiração à tona. E mais até, não basta apenas conhecê-lo, esse providencial mecenas inoportuno, necessitámos de alguma sinergia quase fantástica, de parte a parte, uma espécie de " quid pro quo " imperial, suficientemente sólido para nos conceder uma oportunidade de alcançar esse patamar místico onde, hoje em dia, um escritor, bom ou mau, existe de facto. Um bom editor, um excelente publicista, um magnífico gestor de carreira. Dois ou três autores já consagrados que nos dêem o seu aval, e escrevam qualquer treta sem grand...

Beber uma morte anunciada.

Cada dia bebo mais. "Dorme meu pequeno mundo." - É um percurso mortal de um covarde, que prefere a lentidão líquida da morte, invés do abrupto suicídio brutal e espalhafatoso. Cada dia bebo mais, bebo mais...É um intuito determinado. Perderei o emprego, a família, a vida...estou certo disso, acabarei como todos os bêbados que não desistem de o serem. Porquê? Porque não consegui. Aí está! Guardei um rancor no corpo, pela vida fora, até ao seu fim. Foi a rejeição daquilo que a me propus que me perdeu. Quis ser o que não me deixaram e jamais esqueci. Sou, portanto, um ' cliché '. Bebo para colmatar uma falha que não me coube por escolha. Morro para justificar uma rejeição que sinto não ter merecido. Acabo-me na pior regra do mundo artístico, não lhe ser merecedor! Andei anos e anos nisto. Nesta determinação de atingir. Mandei tanta coisa para fora, tanto texto, tanta criatividade olvidada. Nem uma correspondência. É isto ser-se escritor? Também. Não aguento. Há um climax...

As Crónicas do senhor Barbosa XVI

O Senhor Barbosa sabia agora que até os habitantes mais canhestros de Conde Santo podiam triunfar. Claro que era preciso amargar muito, a todo o custo, a todo o custo de qualquer prazer possível, para as coisas chegarem tão longe, mas sabia agora que era possível. Bastava fingir que era. E sabia também que, em Conde Santo, há um exército de fingidores a serem melhores do que ele. Não se demovia de tentar, contudo. Madalena engomava na cozinhava. O som do vapor do ferro acalmava-o. O aroma da limpeza e decoro da sua casa espraiava-se em seu redor. Ela cantarolava quase assertiva, quase triunfante após o esforço em o domar. Estava iluminada pelo sol radioso, quase, filtrado pela pequena janela da cozinha. Toda aquela luta desunhada porém, deixou marcas, em ambos. Ele voltava à janela quando ela não o via. Madalena emagrecera imenso. Descera de rubicunda a macérrima. Modesta e circunspecta, jamais. Ali estava ela, a imagem conseguida de um quadro Rockwell; um pé nu arqueado, sobreposto so...

Diz Simão.

Há, perto do pilar da ponte, claros sinais de vida. Uma pequena área antes das casas-de-banho públicas, completamente nas sombras. E, quando não há vento, quase sempre se vêem beatas de cigarro e um restolho amerdalhado inexplicável que aqui se acumula há longos anos. Nem as ocasionais cheias o eliminam. É só o processo natural de entropia da ponte. Um dia desabará, corroída pelo fel da passagem. O olhar de Cristóvão pousa no rio, mais escuro que aquela sombra perpétua. Os seus pensamentos e o asfalto lodoso debaixo dos pneus da bicicleta escorrem nesse sentido. Podiam-lhe ter dito o que quer que fosse, que ele ali estaria na mesma, àquela hora, neste lugar. De repente, um peixe: "Que gordo!" - Fala para dentro, como os peixes, se os peixes falassem. - Se os peixes falassem soariam mudos. Exactamente como um mudo quando tenta falar. Claro que tinha razão, percebia-se logo, era-lhe importante saber que havia vida na água, como ele a descer o selim da bicicleta no es...

O Incidente de Plutão (Parte III)

Continuação... No enjoativo largo pendente à entrada da antiga fábrica de sabão, entulhado de latas vazias e frascos empoleirados, dois cães disputavam ferozmente uma carcaça de pão seco. Xavier trocou de pé sem lhes tirar os olhos de cima e seguiu afoito na peugada de uma Doroteia de passo muito determinado. Até hoje, vivera de preencher requerimentos e carimbá-los, sem pressa de nada, neste momento sentia-se o protagonista de uma estranha história que pede adiantamentos à natureza para se manter viva. Neste mesmo dia, ao acordar, descompôs-se a si próprio em voz alta, como se fosse uma segunda pessoa ali no quarto: "Tu queres que a besta acorde ou não queres? Se queres, não há cá juízos nem dúvidas. Acorda-a."  - Vens ou quê? - incita-o Doroteia, quase adivinhando-lhe os pensamentos. - Pareces parvo! Apesar de tudo ele fazia grandes esforços para não desistir da sua missão daquela manhã. Porém, o dente estragado a pulsar-lhe uma dor fina na boca, punha-o a mil...

O Incidente de Plutão (Parte II)

Continuação... Xavier sonhara o corpo de uma loura por semanas, nos intervalos em que se convencia a si mesmo que a amava porque sim. Mas que desacato. Não tinha heroísmos em part-time para dar a ninguém e por isso se pusera a fazer teatro no fim do trabalho como forma de não se maçar a si mesmo. Era um salto à vara espantoso, se de tantos lados que procurou socorro, este lhe chegasse através desta mulher. Doroteia, vista pelos seus olhos era a mulher mais bonita da cidade, e ai de quem o  contradissesse. Não era que o dissesse a ninguém, de todos os modos só se queria deitar com ela e deixar-se adormecer ao seu lado como uma fera amansada. Era tudo matéria de sonhos. - E o que foi que tiveste de fazer pelo teu pai? - Arriscou a pergunta. Não foi pronta a sua resposta, apesar de se perceber na comissura dos seus lábios os indícios de um longo diálogo consigo mesma - precisamos de falar sem rodeios - ouviu depois o rapaz dizer. - Isto é, se queres que fique e te escute. ...

A rubrica da Madalena Patusca V

- Já terminaste - diz-me ele, visivelmente amedrontado. - Podes responder-me agora? Ainda ontem pensei há quanto tempo não vou ao Mosteiro, há quanto tempo não subo a pé até ao ponto mais alto da vila, onde sopra o vento na razão de quase voarmos e queima o sol sem que nos possamos dele proteger. Lá em cima só se deveria querer alegrias, êxtases profundos dentro dos carros embaciados, com aplausos e festança e orgasmos. Casamentos e baptizados. Comunhões evito, que me lembram funerais com crianças mal-vestidas. Também se morre de desespero lá em cima, esperanças mal dirigidas que falham o alvo e caem, lá de cima. Tantos enterros segui desde lá de cima. Poderá este ser mais um? Aprovei com um movimento. Arrumei a louça para o lado e levantei a cabeça ante o seu olhar fixo. - Isto é sério demais - respondi-lhe. - Esta nossa vida é como um livro apenas começado e com um "R" gigante, a vermelho, a cortar tudo de cima a baixo. Ontem pensei em ...

O Incidente de Plutão (Parte I)

Sentia-se ainda o inexorável fedor a ossos moídos pelo ar, da antiga fábrica de sabão do fim da avenida, que fizera a última barra em Outubro de 1971. A grade era muito velha e estava quase toda coberta de glicínias. A porta, enferrujada, mexia-se à justa com a idade, rangendo. Na escuridão, brilhavam as poças da chuva recente. Via-se um quarto iluminado, mas o silêncio mais correspondia a uma casa sem quartos. Contornaram um jardim abandonado, coberto de mato, por uma viela que ladeava o terreiro lateral, semi-fechado e sustentado por colunas de ferro. Entrariam por aí. A casa era velhíssima, suas janelas davam para o quintal e ainda conservavam as grades coloniais; os grandes ladrilhos do piso eram certamente daquele tempo, pois sentia-se que estavam rachados, gastos ou partidos. Ouviu-se um clarinete: uma frase sem estrutura musical, lânguida, desarticulada e obsessiva. - Bem - disse Xavier -, pelo menos aqui está uma lâmpada. Julguei que nesta casa só haveria iluminação a velas....

Textos Devolvidos VIII

(...) Remédios cultiva um jardim suspenso em casa. Através de um sistema que envolve muitas cordas, muitos pregos e muitos vasos, debruçam-se gerânios, begónias e bromélias do seu tecto. A cozinha era o último bastião de vida na casa ancestral dos Bruno, e fazia questão de a manter assim. Um raminho de salsa espreita por cima do armário do pão e dos pratos. Um pessegueiro anão frutifica entre a pia e o fogão. As folhas concorrem com o detergente da louça e com o bico do gás. - Aquilo nunca uso, - explica com desdém. – O Luís não me deixa. É o seu pessegueiro de estimação. – Nos anos mais férteis, os frutos escorrem pelas portas dos armários e no centro da cozinha, e Remédios está bem ciente que o pessegueiro padece de uma doença terminal, que já não lhe permite ser um pessegueiro orgulhoso, por isso, só lhe apara as folhas mortas e recolhe a podridão dos frutos deixados ao abandono. - Não tenho esperança nesta árvore caduca. Nasceu frágil, morrerá frágil. E se morrer, morreu. Nã...

O nosso Natal no Futuro

Apetece-me hoje ir atrás buscar novamente o Natal, porque recebi então um presente que saliento da noite do sapatinho e que julgo que só o recebe quem tem sorte, amor e gratidão. Chega a ser aviltante reclamarmos sempre do muito que temos face a quem nada possuí e ainda assim dá de coração aberto. Mas isso já é outra questão. O que queria partilhar refere-se à oferta que recebi da minha filha: um livro em branco.  Quando enfim atingi o sentido biológico da minha existência, muito depois de ter aprendido as letras e os números, lembrei-me de ter filhos, sem esperar grandes retornos, porque um pai nunca haveria de deitar filhos ao mundo com outro intento que não seja o de os amar. A minha grande surpresa foi a de ter gerado uma filha que, apesar da alvura que me põe nos cabelos, conseguiu enumerar duas das minhas mais gratas paixões, como que em um dicionário e assim me presentear em um singelo objecto. "Este livro", depois me elucidou, "é para tu escreveres, à tu...

Altino cansado da Vida

- Não tenho nada a dizer da minha vida profissional, apenas que uma gravata é um nó corredio e, embora invertido como está, enforcará um homem se ele não tiver cuidado. O médico observou-o, intrigado. Revelava uma extensa fieira de dentes brancos e sólidos e uma careca encrespada e suave como um pêssego. O Sol da manhã coagulava musgo nos rebordos da janela do consultório. Mais além, a estrada do Comendador perdia-se no túnel da sua visão. Quase no fundo, onde já quase bifurca com a Calçada da Cancela, um velho homem muito bem vestido vasculhava detritos com uma bengala, jogando-os para a berma. - Senhor Neves? - Interpelou-o o médico. - Das Neves. - Corrigiu este. - Como? - Que me chamo Altino das Neves e não "Neves", como o senhor doutor me chamou. É um erro muito comum. Vê, está aqui escrito o meu nome correctamente na sua ficha. - Soergueu-se sobre a secretária para lho apontar. - Está a ver? - Sim, claro. Peço-lhe desculpa. - No fundo dos olhos do aleijado...

As Crónicas do senhor Barbosa XVI

Há pouco, de manhã, deparou-se-me a senhora Norberta, a vizinha do 1º esquerdo, e saudou-me levando os olhos ao céu. Tossi de imediato. O raio da gripe! - Que Inverno! - Disse-me ela após a pausa do cumprimento de cabeça. Fiz o mesmo, para não me estranhar mais do que o costume; "Sim, que Inverno!" - Exclamei elevando um pouco o saco do pão até à tosse, e só depois é que levantei também desajeitadamente os olhos. Aquilo pareceu agradar-lhe, pois sorriu pelo seu caminho descambado adiante. Era hóspede da irmã mais nova, com rótulo de pensionista, cujo marido se encontrava em situação particularmente vantajosa. A senhora Norberta partira a bacia dois meses depois de perder o marido, três anos após ter perdido o emprego na fábrica das calças. E a frase " parente pobre " que soa tão mal a uma irmã como a qualquer um, nunca a ouvi vir pronunciada desde o andar de baixo. Só que o chibo do marido da irmã, o grandessíssimo senhor engenheiro, conta tudo à vizinhança c...

Textos Devolvidos VII

(...) O Septo de colunatas assim formado, é guarnecido por estátuas, sendo que a mais imponente de todas encima um lindo relógio, e em segundo plano, vêm-se os maiores tubos de todos, assim mesmo, mascarados à boca de cena. E por fim a frisa decorada por uma corrente de pequenas colunas majestosas, e de uma cornija ornada por dentículos, por medalhões e por rosáceas de um trabalho delicado, que completam a beleza celestial deste extraordinário instrumento. De tal forma o impressionou com a sua exuberância que o conseguia sempre descrever, assim, com todos os detalhes, mesmo após muitos anos. Que vergonha  Dan Brown,  - Disse Adães muito baixinho. - Não te teres debruçado sobre a beleza deste instrumento de Deus. Não acredito, que não te tenha tocado tanto quanto o fez a mim? Terás entrado sequer cá dentro? Terás feito algum esforço por esse monumental êxito de literatura? Literatura, Ah! - Largou alto a interjeição sem querer. E precisamente sob o mesmo, uma figura ...

A Falsa Ilha

Quem se dirige, rumo a nordeste, do extenso lavradio alagadiço para o interior da ilha falsa do Marques Trancão, nota logo a rápida elevação do terreno, oculta de outros pontos de vista, pelo espesso arvoredo e que faz de ponte com o resto do país. Após vinte minutos bem contados de marcha ao longo de tortuosos caminhos obstruídos por pedras enormes ou escavados em ladeiras escorregadias, com casas de paredões de barro largadas aqui e ali, ao abandono, chega-se à pátria do Trancão, e de quem quer que esteja em dificuldades com a lei. Gilberto Sidónio, "o pelintra", homem monumental, de espáduas quadradas e sólidas, com passadas elásticas, fez todo o percurso em doze minutos, e ademais carregava em cima da sua bárbara saúde, uma sacola impermeável de lona que quase parecia sua gémea em peso e volume. O interior sacrossanto da ilha é um baluarte que nasceu do peito de um bastião encaniçado, rodeado por pequenos fossos de água salobra e cães semi-selvagens que vagueiam...

Ano novo, mesmas queixas.

Como sempre imaginei que assim fosse, tudo se resume a mãos dadas, a entregas desprendidas. A um amor primordial, pois. De outro modo como poderei racionalizar que um texto "x" valha mais que outro "y"? - Venham os teóricos patrões desta razão toda e discutam isto. - Não virá ninguém, eu sei. Escrever é uma bestialidade tremenda que só serve as aflições mais primitivas do ser humano. Em boa verdade, desde a véspera de seja o que for que escreva penso em publicá-lo, e aqui é quando me sinto agitado, mergulhado numa excitação quase juvenil. No dia seguinte, visto-me quase sempre de fraque melodramático. Todos os dias seguintes, são a mais triste festa de passagem de ano que alguma vez passei (e já passei por algumas bem taciturnas). O pior, é que todos os anos são piores que os anteriores. Tomara que o tempo tivesse parado algures cerca de dois mil e treze. Aí tudo ainda me parecia possível e vivia uma ingenuidade libertadora, propensa ao desejo férreo de jamais ...

Textos Devolvidos VI

O Orgulho é uma Nuvem Um dia acordarei longe do teu abraço.  Porque existir é outra coisa diferente disto que me exiges: é a surpresa da vida,  o encontro da emergência de aqui estar, o princípio bondoso do amor próprio  e também o seu maravilhoso fim.  Um dia não precisarei mais de pedir a tua mão acumulada sobre o meu destino.  Um dia serei o meu mundo próprio.  Serei assim, 
 E poderei ser livre finalmente, como as orgulhosas nuvens de outrora.  Vagueando pelo céu eterno, sem pedir permissão a ninguém. 
 Um dia serei alguém sem arrogâncias, alguém liberto de todos os cinismos,  de todos os azuis anti-naturais, tingidos. 
 Um dia serei melhor, alguém melhor! 
 Um dia acordarei longe e certo, e nesse dia serei somente a minha própria luz.  
 Que o fogo dos outros em nada me ilumina, 
  em nada me seduz. 
 Porque os dias só feitos de mãos atiradas ao vazio são a morte mais lenta de todas.  
 A m...