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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro 30, 2011

A sorte posta a nu.

O seu grito estridente de vitória foi inoportuno. Parecia despropositado, embora totalmente justificado. Terá sido somente a constante falta de oportunidades que nos assolava a todos, que o fez destoar, ou talvez o simples facto de Josefina não envergar naquela tarde, a modéstia da roupa de baixo, expondo sem compromissos o seu corpo ainda rijo de mulher madura, perante o aglomerar da multidão de vizinhos que se reunia todas as semanas em sua casa por esta hora. Mas, confesso que o solavanco da sua felicidade absoluta, no exacto instante em que viu o alinhamento perfeito daqueles números no ecrã iluminado da televisão, terá sido em parte, também uma imensa alegria para mim, e para todos os outros infelizes, que sem poderem gozar do luxo de possuírem uma televisão em casa, acabaram por presenciar  ao custo do mesmo valor, o desaire de mais semana de miséria e um espectáculo completo de variedades, composto por um número de magia extraordinário, (a sorte grande de Josefina) e de um bai…

Refúgio dos Livros

Passatempo a decorrer no blogue de divulgação literária Refúgio dos Livros. Não percam a oportunidade de ganharem um exemplar do meu livro com uma dedicatória especial. Participem!
Eu via dormir aquela desconhecida que entrara na minha vida por arrombamento. Não era bela quando fechava os olhos. Toda a sua sedução se concentrava na voz e naquele olhar castanho tímido. Mas reencontrava no sono uma espécie de infância que me enterneceu, o que provocou em mim uma imediata reacção de censura. Qualquer coisa me dizia que, com ela, o enternecimento seria servidão. Que idade teria? Vinte e nove, trinta e três.. Apaguei o candeeiro da mesinha de cabeceira. A luz de um céu demasiado cheio pela lua, impossível de ser verdadeiro, filtrava-se pelos cortinados, banhando o quarto numa penumbra de açafrão. deslizei para fora da cama para desligar o leitor de CD que continuava a debitar a banda sonora do nosso momento clandestino, demasiado fugaz, demasiado errado. Quando abandonei o quarto, e aquele corpo quente desfalecido pelo fragor da paixão, só trouxe na memória aquela música que me acompanhou até ao fim: O que seria?

Feliz dia dos mortos!

Desce por fim sobre o meu coração,
o olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.