Eram doze horas. A pequena cidade acabava de se deitar, muda e negra, debaixo de uma chuva gélida de Dezembro. Na rua da fraga, uma das mais estreitas e mais desertas, desta cidade que lançou tantos barcos ao mar, uma janela continuava iluminada, no segundo andar de uma velha casa, cuja caleira rota largava torrentes de água no empedrado milenar. Era a senhora Mascarenhas que velava diante de um fraco fogo de uma luz mortiça e empoeirada, enquanto que o marido desfalecia, à claridade pálida de um candeeiro. A habitação, alugada por cento e poucos euros por mês, compunha-se de quatro enormes divisões, que se não conseguia aquecer no Inverno. A senhora Mascarenhas, dormia na maior; o marido, o Coronel Mascarenhas, outro único ocupante daquele mausoléu, ficara com o quarto que dava para rua, junto à sala de jantar, no seu leito de ferro, para que pudesse ver o céu, antes do último estertor. Os poucos móveis dos Mascarenhas, uma mobília Império de mogno maciço, que as contínuas mud...