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Bukowski entenderia isto.

Noite novamente, nada para dizer, 
quiçá compre um planeta ou faça amizade com um diplomata.
Limparei o cinzeiro, no mínimo
para me lembrar do meu pai. 
Primeiro preciso limpar os óculos desta névoa de sempre
- já não me dou com as minhas alucinações.
Coçar o escroto, beber água para lavar a inutilidade.
Um leve toque na porta, entra a gata, 
atrás dela vem o resto da noite exigindo colo. 
Tempo para outro cigarro e depois deixo as cortinas subidas, 
reparo que o lixo faz um carreiro de formiga até ao caixote.
Haverá alguma coisa simples que eu possa fazer pelo meu sofá? 
Talvez pintá-lo de amarelo 
ou instalar-lhe um elevador do chão até ao meu divórcio
um bidé gigante para poder tomar banho a dormir.
Noite ainda,
de que me serve viver se não posso estar vivo no meu próprio inferno? 
Esta gota de tempo nos meus olhos
não é uma lágrima, mas cuspe
cuspo, cuspo e cuspo, continuo sem nada para dizer,
como a explosão de uma estrela vermelha na ponta de um cigarro.
Sei que se pudesse fazer a barba,
as pulgas em…
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Rostos de Pedra

Sabes Mãe - Paulo Praça

Música portuguesa inspirada, escrita, arranjada, cantada e amada por Vila-condenses, provando que é possível em uma música, falar-se sobre coisas e objetos quotidianos usando linguagem quotidiana mas precisa, dotando essas coisas, sejam uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher ou o amor incondicional por uma mãe, de ligeireza, mas também de grande doçura e encanto.



Bruno Ganz

Bruno Ganz assume uma longa e frutuosa lista de créditos cinematográficos da mais alta estirpe. Um actor alemão muito minimalista nas suas interpretações, extremamente contido, que trabalhou com os melhores e nos habituou ao melhor daquilo que um actor nos pode oferecer: a humanidade. Das suas últimas prestações recordo o perturbante filme de Lars von Trier "The House that Jack Built" (2018) onde interpreta Virgílio, entregando-nos a imagem da consciência omnipresente sobre a figura do mal puro, que derradeiramente conduz ao Inferno, justapondo-se ao próprio episódio deste, na "Divina Comédia" de Dante, onde ambos adentram e deambulam pelos círculos do Inferno. É um pequeno papel, que quase fecha o filme, mas que é fundamental para o mesmo. Aliás, Ganz sempre foi pródigo neste aspecto "No small parts" dir-se-ia, ou sobretudo, o seu ofício exposto na tela de uma forma tão cativante e exímia, que, por muito pequeno que fosse a sua parte, nunca passaria desp…

Mãos ao alto...

Tempo Vencido

Vila do Conde em Primavera antecipada é um chamamento com uma persistência vegetal, secreta. Vencido o manto húmido que pesava sobre a cidade nas últimas semanas, o ar pôs-se ligeiro, aliviado e chama-nos para as suas ruas. Primavera, finalmente a Primavera, tal como ela costuma chegar aqui depois de muitas hesitações e de muito trabalho para vencer as nuvens da costa. As pessoas bem dão por isso. Sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul e um azul fino, alegre, e dizem baixinho: "era mesmo isto." Depois descobrem as pedras louças das ruas ancestrais, o voo luminoso dos pássaros e a colina milenar a debruçar a cidade, diante do rio e dos campanários, cobertos de uma luz macia, feminina e descobrem um novo andar neste espaço todo. É isso a Primavera em Vila do Conde; um novo sentido no olhar, uma nova velocidade: "era mesmo isto", dizem as pessoas. Uma romagem feita com a aparência do acaso vê-se na multidão atarefada com estes dias de Primavera. Circulam todo…

Medos apocalípticos

O Walking Dead retornou ontem para terminar a segunda metade da 9ª temporada. Já sem o combativo Rick Grimes (pena) e aparentemente, até lhes deu para matarem o Jesus pelo meio (também pena), assim como assim, este novo enredo não desilude, e os caminhos possíveis para o curso da narrativa são muitos e todos cativantes. É claro que estou feliz, porque adoro esta série como os por-do-sóis sanguíneos, porém...

Há sempre qualquer coisa a estragar...


...

“Every something is an echo of nothing” 
― John Cage

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Queimar nuvens no pátio

Eis-me ao lado do centro do assombro. Aqui não se distingue o calor de ser queimado ou de se ser fogo é um outro nome mero rumor. Por fora, na rua, só rumoreja um estranho canto de acendalha que incendeia o poema verdadeiro. Que assim seja uma torre sem paredes que se levanta. Sem paredes nem tecto nem chão... um agulheiro só de marcas de carmim e sangue onde calha. Sangue vulnerável aos desejos mais profundos da noite. Porque o fogo não se dá ao trabalho de não o ser é crepuscular, assim. E, cá dentro fujo para que finja que não sou mais feito de cinza. Deixa os sorrisos, as promessas e os beijos, traz-me antes o líquido da primeira nuvem que passar pelos teus olhos. Suspeito da leveza que atinja estas minhas asas de suspensão. Esta noite queimou-se lá fora o meu fim para não ser mais o que não posso.
Sempre me ensinaram que o sangue
nunca será mais do que é.
É o que sou,
o que  jamais serei será fogo
escrevendo com o corpo jamais. não!








Tributo a René Magritte

O Incidente de Plutão (Parte III)

Continuação...
No enjoativo largo pendente à entrada da antiga fábrica de sabão, entulhado de latas vazias e frascos empoleirados, dois cães disputavam ferozmente uma carcaça de pão seco. Xavier trocou de pé sem lhes tirar os olhos de cima e seguiu afoito na peugada de uma Doroteia de passo muito determinado. Até hoje, vivera de preencher requerimentos e carimbá-los, sem pressa de nada, neste momento sentia-se o protagonista de uma estranha história que pede adiantamentos à natureza para se manter viva. Neste mesmo dia, ao acordar, descompôs-se a si próprio em voz alta, como se fosse uma segunda pessoa ali no quarto: "Tu queres que a besta acorde ou não queres? Se queres, não há cá juízos nem dúvidas. Acorda-a."  - Vens ou quê? - incita-o Doroteia, quase adivinhando-lhe os pensamentos. - Pareces parvo! Apesar de tudo ele fazia grandes esforços para não desistir da sua missão daquela manhã. Porém, o dente estragado a pulsar-lhe uma dor fina na boca, punha-o a milhas dali, em todo…

Sentidos Parabéns...

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto ."
Aniversário (1929) - Álvaro de Campos