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Publicação em destaque

As Crónicas do Senhor Barbosa XV

Exibia-se um filme do Harold Lloyd, o terceiro génio, na sala quase vazia do cineclube. Na primeira fila da plateia, o Senhor Barbosa sentia-se convalescente das suas emoções. Ao seu lado, mão direita pousada sobre a sua esquerda, Madalena ria sem remorso. Ao senti-lo naquele estado de quase descrença, ela desvia a atenção do ecrã por instantes e ao seu ouvido explica-lhe a palavra feliz. O Senhor Barbosa quer acreditar que existe no indivíduo um lugar reservado a isso. Podia entrevê-lo além das imagens saltimbancas do preto-e-branco. Ele também acabou por se rir, e enquanto lhe apertou a mão o coração pareceu todo soltar-se.  - O Harold Lloyd era um génio de facto. Conseguir desapertar-me o coração às escuras não é tarefa de somenos importância.  Ela fechou os olhos em honesta satisfação e apertou-lhe também a mão. De repente, um pequeno burburinho na parte de trás da sala: "Ladrão, ladrão!" - alguém gritava. Logo quase a seguir as imagens da tela empalideceram, e na repen…
Mensagens recentes

Pompa e circunstância.

Gosto de livros que contenham narradores. Gosto em especial daqueles que invadem os livros a falarem sobre o alfabeto das suas paixões. Afianço: o narrador (Homem) é o centro das coisas. Nas narrativas que lhe estão subordinadas, é ele quem conhece a razão de tudo, mas, o Homem (narrador) nunca se deixa conhecer na totalidade, e, de modo algum, conhece tudo o que há para se conhecer. Tudo isto me veio à memória enquanto ouvia Miles Davis. Residente génio da minha pobre aparelhagem micro, que andou sempre escondido às autoridades, aturdido pelas drogas em excesso e pelas paranóias razoáveis e mesmo assim nunca deixou de ser um génio. Quase um anarquista, que consistentemente escapou à vingança da polícia afascizada. Alimenta-me ainda. Na verdade, tudo isto me veio à memória enquanto ouvia o Miles e me decidi a continuar a escrita do meu último romance impossível de ser publicado por vias normais. (Poderia dizer aqui que é tudo um complot, mas não é, é somente um facto triste dos tempo…

Dia sim, dia não uma beleza antiga

A Criança que se Acabou

Tantos anos depois ainda choro demasiado sempre que ouço esta música.



"I've watched the children come and go A late, long march into spring I sit and watch those children Jump in the tall grass Leap the sprinkler Walk in the ground Bicycle clothespin spokes The sound, the smell of swingset hands I will try to sing a happy song I'll try and make a happy game to play "Come play with me" I whispered to my newfound friend Tell me what it's like to go outside I've never been Tell me what it's like to just go outside I've never been And I never will I'm not supposed to be like this I'm not supposed to be like this, but it's okay Hey, hey, hey, those kids are looking at me I told my friend myself, those kids are looking at me They're laughing and they're running over here They're laughing and they're running over here What do I do, what should I do? What do I say? What can I say? I said I'm not supposed to be like thi…

A rubrica da Madalena Patusca II

- Isto o quê? - Ficou sem resposta. - Isto é isto e que mais haveria de ser? - Disse-me à saída. - E aquilo não era coisa alguma. Nem dito nem feito. Pareceu-me uma interjeição cheia de palavras. Em outra ocasião fomos jantar fora: "Ao Veneno da Madrugada", um restaurante cheio de más pretensões mas boas recomendações aqui e ali. Todos os pratos diziam-se com nomes esquisitos, muito embora a comida me parecesse exactamente igual à de outros lados. E todos os empregados arrastavam consigo uma frescura suja deliberada, nas roupas e nos cabelos e barbas. Nos olhos e até no discurso. Como se quisessem parecer ainda mais estranhos que os nomes da comida. Foi ele quem o escolheu. Talvez pensasse que deveria aparentar outra idade e disposição, diferentes daquelas pelas quais me apaixonei. Para me impressionar, de algum modo. Encontrámo-nos ao pé da entrada e tentei abraça-lo, mas já vinha a mexer na memória e só dizia: "Merda, merda...merda", entrámos directos ao pequeno…

Música para escrever livre.

Até a Confiança nos Roubam

É a época de Natal, e neste período, espalha-se uma espécie de vírus que infecta todos com a vontade da dádiva e do proverbial amor ao próximo. Há uma certeza de que as pessoas gostam de dar. 
Melhor começar isto de novo...As pessoas de bem, gostam de dar, mas a solidariedade institucionalizada, como a conhecemos hoje, deverá mais ser um valor a subtrair do que a somar às nossas boas intenções. Sabe-se que as mais divertidas histórias sobre altruístas, sobre generosos ou sobre corações moles, são as contadas pelos próprios. A correcção critica sobre esta gente toda anda a exterminar toda uma imaginação potente acerca de um país que é realmente mais bondoso do que parece. Só que, a saúde desta generosidade está de facto nas pessoas comuns, autênticos cavalos de tiro, que só param de dar, um pouco antes de chegarem ao esgotamento. Estes, e jamais os intermediários lambões que duvido quase que passem por ser humanos sequer. Alguns não são mais que cartilagens que se encontram junto aos pân…

Pensamentos Avulsos XVII

Queixa das Almas Jovens Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola. Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade. Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência. Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro. Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós. Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo. Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro. Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco. Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura. Dão-nos um e…

Esta é a minha Praia

Até a Morte tem os seus Dias contados