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Publicação em destaque

Piquenas estórias de amore XII

Por volta dos meus vinte, vinte e pico anos perdi um amigo à loucura.  Estava só. Atirou-se para baixo de um comboio porque lhe aparecia a N. Senhora na frente dos olhos em todo o lado. Aquilo punha-lhe o mundo todo em desacordo. Em uma caixa perfeita ia-lhe a cabeça metida no espaço desigual dos comuns, noutra, surgiam-lhe lamparinas, astros ilustrados, putas maravilhosas, crenças de infância queimadas a ferrete directamente no cerebelo, frustrações em cavalgadura, e acabou só alucinado, o meu pobre genial amigo. Só alucinado pela maldita doença. Ouvia música aleatória do John Cage e fazia abluções com drogas banais para parecer igual a toda a gente. Nunca resultava com toda a gente, só com aqueles que lhe sabiam a razão da loucura. Ele, por vezes, nem fazia caso à própria loucura ou àqueles que a maltratavam com palavras e desdém. Ele, louco, era mais puro que qualquer impostor que se fizesse de 'artista' ou de 'amigo'. ELE era muito melhor. Melhor, porque a capa da…
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Saudades de ver boas Séries... II

No próximo dia 11 de Novembro, o mundo irá certamente promover a celebração do centésimo aniversário do último dia desta guerra. A décima primeira hora, do décimo primeiro dia do décimo primeiro mês em que a humanidade finalmente gritou basta!  Contudo, tão insensata guerra (Não serão todas assim? São pois!) foi onde o Homem se apercebeu de que as guerras já não eram aquela coisa galante e nobre de outrora, que nos impulsionavam a elas com um sorriso garboso nos lábios e uma atitude desprendida de medos no espírito. Esta guerra mostrou-nos a nossa bestialidade oculta, o nosso grotesco lado mais cruel e então terá sido dito: "Ser esta a guerra para terminar todas as guerras.." - Sabemos bem que não o foi, e sabemos também, que todos nós, como membros da raça humana, não nos permitimos a libertação deste desolador móbil de 'se fazer a guerra', de nos atirarmos à nossa própria destruição e desgraça, porque, a guerra, move-nos e ganha-nos e perde-nos muito mais em simul…

Cancioneiro da antiga Puta

A violência sem limites contra mim,
contra a minha inocente boa-fé,
impiedosa ante a limpidez do meu olhar
é tão brutal, injusta e sem razão.
Que de rodilhas me ponho, me baixo sobre o  teu pé, e me alimento de migalhas
a implorar, implorar, ó poderoso, não pelo teu pão, não
nunca, que este corpo não se alimenta assim,
da pressa imunda de quem só sabe recusar.
Oscilo pelo acaso desunhado de importância.
Logo eu, tão cheio de mãos desfeitas de outros partilhar,
a ti faço clamor pela luz que usas para ver
alimenta-me, desses teus olhos vadios que de mim se evadem
sem vergonha ou receio faço desta, minha demência.
Cortejo os gigantes por restos de coisas de sonhar e me alimento de migalhas
a ver quem para e me vê inteiro, sem ser a correr
a pedir esmolas de tempos antes que estes que vos acabem.
Tomara que houvessem outras Estações em todos os anos que desperdicei Vi Invernos e Invernos de constantes perdições e em nenhuma Primavera me concretizei.
"Cancioneiro da Antiga Puta"
Miro Teixeira
2017

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Garrett a dar hóstias na boquinha dos desgraçados

Quando Garrett pouco antes de morrer, acabou de corrigir as provas de "Folhas Caídas" com a sua habitual caneta de porco-espinho tão mordida de tanto procurar a simplicidade, afirmou com autêntica singeleza: "os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções." Não tinham mesmo, daí, esta sua última publicação ter sido encapotada sob o anonimato derivado dos seus cuidados pelo escândalo da sua relação com a Viscondessa da Luz, a quem a maioria dos poemas eram dedicados. - E contudo, desde os dez anos que versejava altivo, coisa de vocação pura e mais do que só isso, cresceu tanto levado por aquele talento ímpar que foi lançando um pouco de tudo ao prelo: romances, novelas, teatro, ensaios..enfim, um exibicionista descarado, pois havia em si um par de tomates a pingarem respeito, responsáveis pela maioria das suas virtudes e defeitos que pareciam ser capazes de tudo. E eram. …

Textos Devolvidos II

(...)

Gabriel era um palerma, sim, um débil pamonha cheio de fraquezas emotivas. O pai dele era o seu inverso, o Hermenegildo acredito que fosse selvagem, sem dúvida. Os gonzos descambados da porta assim o provavam. Como é que alguém nãoselvagem conseguiria vergar aquelas dobradiças num empeno, com a simples força do seu corpo? - Além disso, havia também a história, sim, aquela misteriosa história que o Gabriel, a muito custo nos contou certa vez, sobre ele.  Não era uma história sobre o senhor Almeida entendam, mas tão-somente a história do bravo Hermenegildo Almeida. – Há aqui uma notória diferença. - Onde este, dotado de um sangue mais vermelho que a maioria, e com dezassete anos apenas, fugira de casa sem qualquer aviso, rumando a Espanha, para se juntar aos retalhos das brigadas internacionais, os soberanos republicanos que lutavam contra o fascismo do General Francisco Franco. Gabriel não era exactamente um bom contador de histórias, de modo que tivemos de fazer as contas e imagi…

Passar o ar a 4 rodas

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Luis Silva www.luissilvacars.com

Pensamentos Avulsos XIII

"Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade", parece ter dito Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. "Uma verdade repetida mil vezes torna-se tão exausta no seu sentido que parece mentira", digo eu, embora realmente ninguém me ouça.
A diferença encontra-se em um lugar muito distante de mim.
A eficácia da minha afirmação está vencida à partida pela falta de propaganda real.

Saudades de ver bons filmes (XXI)

... surpreendentemente góticos e grotescos.



O filme de Robert Aldrich "What Ever Happened to Baby Jane" (1962) vem quebrar muitos 'telhados de vidro' à época.  O mais patente de todos refere-se ao 'hollywoodismo em queda', em efeito, a drástica mudança do, até então firmemente estabelecido, sistema de estúdio, vigente e perpassante em todos os seus aspectos inerentes, para um cinema libertado, produzido independentemente, e assim, desimpedido do jugo omnipresente da 'fábrica de cinema' dos estúdios que prevaleceu em indiscutível hegemonia até princípios dos anos 60. - Predominantemente durante os anos 30 e 40 do século passado, a vida de um qualquer actor, realizador, ou variedade de artista ligado a esta maravilhosa indústria, nascia, vivia e morria sob a mão controladora destes dirigentes tirânicos. Neste filme em particular assistimos à história opressora de duas irmãs. Uma, Baby Jane Hudson (interpretada por uma irrepreensível Bette Davis), forma…

Tudo isto é Exacto.

A chuva lava todos por tudo abaixo. É um singular milagre da natureza, que banal pareça, é transformativo e carregado da acuidade necessariamente exacta.  Em tempos disseram-me que utilizo demasiado esta palavra: "exacto", em muitas, todas as suas formas lexicais possíveis. Que a levo à minúcia, que abuso dela, como se a violasse de algum modo intra-lexical, um toque pérfido de escritor menor que larga líquido e mediocridade por onde a escreve. Uma perversa disparidade de uso, mesmo de significado ou falso 'páthos'. - Eu não sei. Adoro apenas o seu sentido. - Ou quiçá simplesmente me quedasse aquém do excelso talento de escrever e só fizesse recurso a truques exactos. - Uma destas afirmações estará exacta - Não estou bem certo sobre a incidência exagerada do termo, mas tenho grande certeza da sua utilização debalde. Sobre a chuva, por exemplo, é mais do que óbvia a metáfora e por isso, exacta, além de mais questões monótonas. A chuva enerva as pessoas, mesmo aquelas…

Que Alguém Saiba que Passaram Cinco Anos...

"ESTE SILÊNCIO É SÓ MEU"

Nunca quiseste o meu silêncio,  e eu mantive-me afastado sem nada para te dizer, e gritei para dentro sem ter nosso, um ponto interior de dor. Nunca quiseste saber-me sem voz, mas sabes, o que instantaneamente me dói, não são essas distâncias, que ficaram nestes anos todos a crescer, arrumadas entre os medos que não gritamos juntos, e os sonhos que nem transpirei na tua pele. O que verdadeiramente me dói são os bons silêncios, que nunca habitamos lado a lado. Porque o silêncio só pode ser bem partilhado, com os que amamos até à loucura. Só ele é dádiva perfeita que não pede nada. Nada pediste. Sim, tu não pediste este silêncio, e mesmo assim, nada fizeste para te defenderes. E depois que ficar calado seja loucura? Maior loucura é deixar fugir o lugar onde deitar a cabeça, e esperar que a madrugada lentamente desfaça, todos os segredos altos e todos os barulhos, que como homem ansiei fazer saltar desse teu corpo. Quando entrei nessa noite a casa inteira calou-se num repen…

As Crónicas do Senhor Barbosa X

Depois de morrer é tudo igual ou um mistério ou uma grande falsidade. Na verdade, pouco se sabe sobre o depois, ou se este aconteceu de facto. Falou-se em muito sangue e numa banheira impossível de se limpar em modos. Todavia, como sempre fazem, as pessoas deitam bufas ao desbarato e quase nada acrescentam de verdade ao que já sabem. A grande tristeza aqui, é que não veio uma alma sequer verificar os factos, fossem estes comprováveis ou não. Muitos casos grotescos desta natureza desumana têm vindo a lume ultimamente. As pessoas andam transtornadas e sucumbem mais à raiva do que era costume. Explodem, explodem..as pessoas saturadas perderam por fim a paciência. O caso mais imperioso que me recorda é o deste exacto indivíduo que só sabia ser gente ao longe e em segredo.  Disseram-no morto.  Mas é tudo falso. Queriam-no assim, porque incomodava muito. Não preenchia as caixinhas, nunca alinhava, e a proximidade das pessoas constrangia-o por demais. Não abria a porta, não atendia o telefo…

Onde houver um blog...

Sou um tipo efémero e mediocremente satisfeito com a insignificância, supostamente moderna, dos dias que ainda vivo. Sou-o porque todo o gosto antigo vai-me sendo apagado pelo mobiliário e fachadas das construções imparáveis do agora.
Vá, não penseis mal de mim por mais isto. Não exerço qualquer movimento de superstição, não sou nenhum markl, perdão, marco da contra-cultura. Só escrevo umas merdas em um blog.
Esta forma de vida, deve de ser várias vezes menos interessante do que qualquer outra, ou assim apontam as mais loucas estatísticas.
Ter um blog ainda, e querer alimentá-lo regularmente com novos conteúdos, textos e matérias interessantes, cativantes, fotos, vídeos, pensamentos originais que surpreendam os leitores e os façam voltar, e quiçá, talvez seguir, é, certamente, um acto de grande coragem em finais de 2018.
Porra! Atribuo-me esta medalha. Que se lixe. Se mais não for, este pensamento peregrino faz-me acreditar que ainda vale a pena.
É assim que, da minha janela, vou ven…

Aves do Paraíso

(...)

Mais de cem aves do paraíso voaram mesmo agora do céu dos teus olhos.  Nada de especial,  não precisas de te alarmar. A lareira ainda crepita por igual círculos de música fria libertada. ........................................ Apeteceu-me só uma pausa para contar estes sonhos de pelúcia.  Que o meu paraíso, sozinho não poderá jamais voar  sem haver presentes olhos assim, como os teus. ......................................... No decurso da noite, o peso do ar apanhou-nos na cama sombreada riamos em intervalos separados pelo calor em lençóis povoados de nuvens dois barcos acabados de chegar acolhedores, sem juízo de pedir à noite algum chamamento triste. .......................................... De olhos abertos, por favor. não tardes mais a cruzares esses olhos que tanto preciso com o rascunho do meu paraíso. Que os amantes nem veem só querem sempre ser dois pontos presentes de nenhum lugar. ...................................... Ao acabar a noite tenho medo que não voltes tenho medo que não voltes tanto medo q…