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Bukowski entenderia isto.

Noite novamente, nada para dizer, 
quiçá compre um planeta ou faça amizade com um diplomata.
Limparei o cinzeiro, no mínimo
para me lembrar do meu pai. 
Primeiro preciso limpar os óculos desta névoa de sempre
- já não me dou com as minhas alucinações.
Coçar o escroto, beber água para lavar a inutilidade.
Um leve toque na porta, entra a gata, 
atrás dela vem o resto da noite exigindo colo. 
Tempo para outro cigarro e depois deixo as cortinas subidas, 
reparo que o lixo faz um carreiro de formiga até ao caixote.
Haverá alguma coisa simples que eu possa fazer pelo meu sofá? 
Talvez pintá-lo de amarelo 
ou instalar-lhe um elevador do chão até ao meu divórcio
um bidé gigante para poder tomar banho a dormir.
Noite ainda,
de que me serve viver se não posso estar vivo no meu próprio inferno? 
Esta gota de tempo nos meus olhos
não é uma lágrima, mas cuspe
cuspo, cuspo e cuspo, continuo sem nada para dizer,
como a explosão de uma estrela vermelha na ponta de um cigarro.
Sei que se pudesse fazer a barba,
as pulgas em…
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A necessidade de consolo é impossível de satisfazer

Poema XXXII

A vida lá fora é um documentário.  Do segundo andar penso em palavras densas para mandar para a rua, atirá-las ao filme em constante rodagem. Daqui contemplo o ar das gaivotas e quero esse vento. Sou fraco. Lá fora há gente com preocupações.  Aqui vive-se um tédio burguês.  As janelas duplas encerradas  fecham a vida para dentro de um computador. Sou fraco. Não é por alguém que fraquejo só me diluo no ar ou escorrego como a chuva-lágrima a solidão alimenta-me na boca até um dia. Um dia meto-te a lua no ventre para que nasça o sol de manhã. Esta manhã nasceu do frio, suficiente. Sou fraco. De tronco nu, destapado, estendido, os ombros queixam-se os pés queixam-se do chão a cabeça queixa-se do céu. De não voar. Sou fraco! Se a alma fosse etérea já teria partido para longe  de todo este sangue inútil.

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Diz Simão.

Há, perto do pilar da ponte, claros sinais de vida. Uma pequena área antes das casas-de-banho públicas, completamente nas sombras. E, quando não há vento, quase sempre se vêem beatas de cigarro e um restolho amerdalhado inexplicável que aqui se acumula há longos anos. Nem as ocasionais cheias o eliminam. É só o processo natural de entropia da ponte. Um dia desabará, corroída pelo fel da passagem. O olhar de Cristóvão pousa no rio, mais escuro que aquela sombra perpétua. Os seus pensamentos e o asfalto lodoso debaixo dos pneus da bicicleta escorrem nesse sentido. Podiam-lhe ter dito o que quer que fosse, que ele ali estaria na mesma, àquela hora, neste lugar. De repente, um peixe: "Que gordo!" - Fala para dentro, como os peixes, se os peixes falassem. - Se os peixes falassem soariam mudos. Exactamente como um mudo quando tenta falar. Claro que tinha razão, percebia-se logo, era-lhe importante saber que havia vida na água, como ele a descer o selim da bicicleta no escuro e aq…

Censura!!

Pensamentos Avulsos XXII

Só muito tarde pela vida dentro é que me apercebi que não preciso ter o que dizer sobre as coisas todas que passam pela minha vida. 
Há uma espécie de desassombro na meia idade que talvez nos faça dizer assim: “Gostei muito, não foi a coisa de que mais gostei na vida mas gostei muito e não sei explicar porquê, ou talvez saiba mas não me apetece encontrar as palavras certas, nem as incertas, e tenho muito jeito para as erradas, então não quero dizer nada, embora gostasse que as pessoas percebessem como é sentir o que eu senti". - E pronto, era só isto. - Um desconserto.

E então?

Rostos de Pedra

Sabes Mãe - Paulo Praça

Música portuguesa inspirada, escrita, arranjada, cantada e amada por Vila-condenses, provando que é possível em uma música, falar-se sobre coisas e objetos quotidianos usando linguagem quotidiana mas precisa, dotando essas coisas, sejam uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher ou o amor incondicional por uma mãe, de ligeireza, mas também de grande doçura e encanto.



Bruno Ganz

Bruno Ganz assume uma longa e frutuosa lista de créditos cinematográficos da mais alta estirpe. Um actor suíço muito minimalista nas suas interpretações, extremamente contido, que trabalhou com os melhores e nos habituou ao melhor daquilo que um actor nos pode oferecer: a humanidade. Das suas últimas prestações recordo o perturbante filme de Lars von Trier "The House that Jack Built" (2018) onde interpreta Virgílio, entregando-nos a imagem da consciência omnipresente sobre a figura do mal puro, que derradeiramente conduz ao Inferno, justapondo-se ao próprio episódio deste, na "Divina Comédia" de Dante, onde ambos adentram e deambulam pelos círculos do Inferno. É um pequeno papel, que quase fecha o filme, mas que é fundamental para o mesmo. Aliás, Ganz sempre foi pródigo neste aspecto "No small parts" dir-se-ia, ou sobretudo, o seu ofício exposto na tela de uma forma tão cativante e exímia, que, por muito pequeno que fosse a sua parte, nunca passaria despe…