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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro 7, 2014

O som da solidão

No princípio ninguém aparece,  nenhuma visita, nenhum som, nem um rumor.  Lá fora, o amarelo dos candeeiros, esquece-me lentamente,  numa dança sem brilho, de profunda ironia. Ainda vou mantendo os verbos no presente, agarrado às consequências.  Pode ser que só me desprezem num pretérito...imperfeito, talvez... Por hora, só quero que passe a noite, que chegue depressa o dia, agrada-me pensar em luzes todas iguais,  a virem e virem num provisório padrão. Tudo isto é um jogo de dedos amarrados à cabeça, pequenas brincadeiras desiguais, ter uma mente à escala é coisa-nada que me mereça. Já só quero olhar para a luz de frente, para que os dias não me pesem como cangotes que são, sobram-me tantos dias nesta conta que a vida tem, um exército de segundos formado de propósito para me acabar. A amizade foi a única cidade perfeita, que nunca desistiu de me tentar conquistar. Mas agora, já ninguém está e já ninguém vem, a este lugar defronte, a este sorriso de boca desfeita. Em Setembro, cheg…

A loucura para os loucos (e mais nada)

Vê-se tudo do exterior, sabe-se tudo. Quando se está de fora, tudo pode ser visto ou ouvido, e as conclusões inevitáveis seguem-se, sem grandes demoras. Ninguém crê realmente naquilo que ocorre lá dentro. Riem, sentem pena, desdém, esquecem-se. Buscam por algo que os coloque à maior distância possível do toque de quem não se enquadra com a sua própria esfera. Nada mais importa. Espera-se apenas que mude, deixe de ser quem é e, se ajuste ao padrão do normal.  Só que o normal, é o tédio dos dias sem graça, é a loucura, sem haver força externa que a segure, ajude ou combata. Quem está por dentro é estranho aos de fora, que só querem acreditar que, a loucura nem existe.

Como ser simples e vencer

Tarde com sol

"As coisas simples dizem-se depressa; tão depressa
que nem conseguimos que as ouçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.
As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm.
São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras."

Nuno Júdice

Os humanos, esses filhos da puta catitas!

Ai estas pessoas que vêem tudo com maus olhos! - Que ensinam diariamente a paixão a chorar e a vida a definhar num poço sem fundo. 
Há nestas frases algo de estranho, algo de lágrimas e perdição. - Estas pessoas! Estas estranhas pessoas que sem terem quem lhes puxe nem se mexem. Que coisa! - É como se comprassem um bilhete só de ida, para os territórios neutros. - Hummm...estas pessoas! Corpos mortos, com o sangue ainda a fluir-lhes nas veias. - Nem imaginam que, o truque chama-se baixar todas as fasquias, acreditar na sorte e nas aventuras. o truque é pensar-se sempre por baixo, ser pequeno e humilde. Ser mais humano ao espelho. 
Não fomos colocados aqui para termos tudo direitinho, como queremos. Não! - Temos defeitos, somos ingénuos e estúpidos até. - Por exemplo: Só hoje é que descobri que se pode escrever aqui o que se quiser, que ninguém liga na mesma. É assim mesmo, costumava valer alguma coisa ser diferente, agora já não. Na adversidade, toda a bravura é escassa para se d…

De dar voltas na cama

Emily Browning - Sleeping Beauty (2011)

Fé de supermercado

Num supermercado, não muito longe daqui, uma mulher segura um livro. Está sentada no chão mal higienizado do supermercado, lê-o muito concentrada, completamente alheia aos olhares dos estranhos que passam por si indiscriminadamente. E foram tantos. Não contando com o meu, escondido atrás do topo das canetas de feltro, dos lápis e dos cadernos do regresso às aulas, contei mais de cinquenta, quase um tempo à justa para se ler um capítulo em paz. Ali permaneceu, muito quieta, em postura de meditação. À sua volta um torvelinho frenético, porém, nada a atingia. A funcionária do balcão de informações relanceia-lhe os olhos, quer expulsá-la daquela calma, para que o frenesim prossiga a sua rotina normal, mas não consegue, ficou presa no mesmo fascínio que me prendeu a mim. De repente, uma massa conflui nos portões electrónicos. Fura-bandulhos todos eles, aos empurrões e cotoveladas, a revezarem o turno dos que saíam carregados de sacos de plástico. Haviam bons descontos naquele dia, demasia…