Da esplanada do velho café da minha janela saboreando um whisky aguado com direito a comiseração a vapor, vi do outro lado da praça uma mulher à janela, arejando um tapete ou um cobertor ruço ou o que fosse de pano, não importa realmente. O que me importou era o que tinha atrás de si embutido na parede. Era o Menino da Lágrima , na sua pose estática tão conhecida e familiar, como se estivesse, nesse preciso momento, a fazer de modelo para todos os infelizes do mundo que vertem amiúde, ou sempre? a desdita inconsolável que os assola. - Quem se terá lembrado de o pintar assim e porquê? - É uma questão pertinente, penso. A pergunta imediata que me assombrou foi: Afinal, quem é que ainda ostenta o Menino da Lágrima , sem ter um espírito irónico ou 'kitsch' ou ser mero amante da pop-art trash? No fundo, quem, em 2022, persistirá em manter este retalho de carnaval feirante pendurado em uma parede da sua casa, fazendo-o quase que por devoção a uma tristeza imaterial que requer rep...