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Textos Devolvidos VIII

(...) Remédios cultiva um jardim suspenso em casa. Através de um sistema que envolve muitas cordas, muitos pregos e muitos vasos, debruçam-se gerânios, begónias e bromélias do seu tecto. A cozinha era o último bastião de vida na casa ancestral dos Bruno, e fazia questão de a manter assim. Um raminho de salsa espreita por cima do armário do pão e dos pratos. Um pessegueiro anão frutifica entre a pia e o fogão. As folhas concorrem com o detergente da louça e com o bico do gás. - Aquilo nunca uso, - explica com desdém. – O Luís não me deixa. É o seu pessegueiro de estimação. – Nos anos mais férteis, os frutos escorrem pelas portas dos armários e no centro da cozinha, e Remédios está bem ciente que o pessegueiro padece de uma doença terminal, que já não lhe permite ser um pessegueiro orgulhoso, por isso, só lhe apara as folhas mortas e recolhe a podridão dos frutos deixados ao abandono. - Não tenho esperança nesta árvore caduca. Nasceu frágil, morrerá frágil. E se morrer, morreu. Nã...

Textos Devolvidos VII

(...) O Septo de colunatas assim formado, é guarnecido por estátuas, sendo que a mais imponente de todas encima um lindo relógio, e em segundo plano, vêm-se os maiores tubos de todos, assim mesmo, mascarados à boca de cena. E por fim a frisa decorada por uma corrente de pequenas colunas majestosas, e de uma cornija ornada por dentículos, por medalhões e por rosáceas de um trabalho delicado, que completam a beleza celestial deste extraordinário instrumento. De tal forma o impressionou com a sua exuberância que o conseguia sempre descrever, assim, com todos os detalhes, mesmo após muitos anos. Que vergonha  Dan Brown,  - Disse Adães muito baixinho. - Não te teres debruçado sobre a beleza deste instrumento de Deus. Não acredito, que não te tenha tocado tanto quanto o fez a mim? Terás entrado sequer cá dentro? Terás feito algum esforço por esse monumental êxito de literatura? Literatura, Ah! - Largou alto a interjeição sem querer. E precisamente sob o mesmo, uma figura ...

Perguntar não ofende.

Pergunto-me se ainda existirão editores valentes, impregnados daquela invulgar audácia que só cabe aos verdadeiros iconoclastas. Editores atirados a fugirem dos mercados e da necessidade de se sistematizar tudo ao ínfimo tostão da mais valia. Pergunto-me se ainda existirão pessoas assim, que liderem uma editora, ou que trabalhem numa. Pessoas assim que ainda se atrevam a ler blogs com trinta e cinco seguidores, que se deparam com um excerto como este que aqui apresento e que sintam curiosidade em vez de lástima. Pergunto tanta coisa em uma só frase que se calhar já os  afugentei... (...) O vento baixava dos telhados nas manhãs de Abril. E as nuvens ficavam lá no alto à espera de que o bom tempo as fizesse descer para o pátio. Enquanto isso ficava vazio o céu azul, deixava que a luz caísse toda no jogo do vento removendo a poeira e batendo nos postigos como o  assobio dos amoladores de facas. - Estás na mesma, que bom, fica assim. Nunca mudes meu filho, nunca. – Di...

Textos Devolvidos II

(...) Gabriel era um palerma, sim, um débil pamonha cheio de fraquezas emotivas. O pai dele era o seu inverso, o Hermenegildo acredito que fosse selvagem, sem dúvida. Os gonzos descambados da porta assim o provavam. Como é que alguém  não selvagem conseguiria vergar aquelas dobradiças num empeno, com a simples força do seu corpo? - Além disso, havia também a história, sim, aquela misteriosa história que o Gabriel, a muito custo nos contou certa vez, sobre ele.  Não era uma história sobre o senhor Almeida entendam, mas tão-somente a história do bravo Hermenegildo Almeida. – Há aqui uma notória diferença. - Onde este, dotado de um sangue mais vermelho que a maioria, e com dezassete anos apenas, fugira de casa sem qualquer aviso, rumando a Espanha, para se juntar aos retalhos das brigadas internacionais, os soberanos republicanos que lutavam contra o fascismo do General Francisco Franco. Gabriel não era exactamente um bom contador de histórias, de modo que tivemos de fazer...

...É preciso não esquecer que ainda se escrevem Romances

(...) "A noite está tomada por estranhas sombras, compridas e escuras.   Chegou a ser cruel a minha observação, no rigor com que deixou a nu as minhas deficiências mais visíveis. Levantei-me do chão quente e fui para casa, para comprar tempo, antes que alguém me visse ali e me deitasse desaforos por mim abaixo. Fiquei a olhar o quadro anterior que ainda tinha fresco na memória, até me ocorrer um pensamento obsceno, o mais belo de todos: E se tivesse sido León Xótsia o assassino da gata? Se tivesse sido ele também o precursor daquele incêndio? E se fosse efectivamente, aquele meu único amigo, a mais deliciosa e perversa criatura deste prédio? – Passou-me um arrepio eléctrico pelo corpo todo. – Como seria bom se isto fosse mesmo verdade, i maginar-nos realmente deuses, ou um deus a fazer por mim, para variar, em vez de contra mim, como se a maravilha da última decisão fosse só a consequência da sua vontade. Imagino que tudo seria perfeito, mesmo que, tão precipitadamente, ent...

Desculpa F. Scott...

(...) Germina precisou de horas até chegar a um estado desempenado de repouso. Quando a apanhei, flutuava de costas com os olhos abertos, e as mãos agarradas ao peito, coberta por um manto branco de veludo, gorduroso. Tinha o corpo húmido, e parecia cinquenta anos mais fresca. É o que dá querer agradar às pessoas, em muito boa dicção, pela majestade da grande literatura . – Pensei. – Fiz um estudado juízo, como sempre o fazia em diferentes leituras pelos diferentes ‘clientes’, e por saber-lhe o marido, corajoso – penso eu - bacalhoeiro embarcado na longínqua Terra Nova, julguei inspirada a minha selecção, tentando assim muito impressiona-la de surpresa. Bacalhaus, baleias...fazia tudo parte do mesmo intrépido sangue nacional, mas não foi assim com a Germina. Acabou por ser um retumbante desastre, para ela sobretudo. Em vez de se encantar com a história-maravilha, desmanchou-se toda, ali na minha frente e tê-la-ei enviado mais cedo para o lado dos mistérios. No fundo até lhe ter...