(...) Remédios cultiva um jardim suspenso em casa. Através de um sistema que envolve muitas cordas, muitos pregos e muitos vasos, debruçam-se gerânios, begónias e bromélias do seu tecto. A cozinha era o último bastião de vida na casa ancestral dos Bruno, e fazia questão de a manter assim. Um raminho de salsa espreita por cima do armário do pão e dos pratos. Um pessegueiro anão frutifica entre a pia e o fogão. As folhas concorrem com o detergente da louça e com o bico do gás. - Aquilo nunca uso, - explica com desdém. – O Luís não me deixa. É o seu pessegueiro de estimação. – Nos anos mais férteis, os frutos escorrem pelas portas dos armários e no centro da cozinha, e Remédios está bem ciente que o pessegueiro padece de uma doença terminal, que já não lhe permite ser um pessegueiro orgulhoso, por isso, só lhe apara as folhas mortas e recolhe a podridão dos frutos deixados ao abandono. - Não tenho esperança nesta árvore caduca. Nasceu frágil, morrerá frágil. E se morrer, morreu. Nã...