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A mostrar mensagens com a etiqueta Filipe Laranjeira

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro. Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio. O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou...

Praia dos Banhos

Todas as estátuas de sal vão desaparecendo perante o rumor do mar. Até me lembro do exacto instante diferido da sua queda. A manhã estava pronta. O Sol na extensa espera da aurora, que não era feia nem bonita. Havia tantos suicidas na família que cheguei a duvidar que fossem todos aparentados. Pequenas borboletas insónias trazendo às costas as consciências e afogando-as no escuro. Todos eles estátuas seguindo viagem na desenvoltura do salitre. Quando mergulhei a cabeça, pareceram-me todos mortos, mas eram só tios e primos afastados por muralhas em meu redor. Acabaram todos em tempestades e fúrias e tristezas e vergonhas heróicas, com as cabeças entre as mãos e o sal a fecha-los nas suas cavernas para sempre. Venho sorver ar às nuvens da madrugada e trago ainda um rasto de vozes agarrado ao cabelo como algas desencantadas. Vozes rasteiras que rompem por momentos o ataúde do mar. O tempo e a areia salgada esqueceu-os. Mesmo eu só me recordo de uma bruma envidraçada de braços cúmplices...