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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Cartas

Fazer excertos é mais fácil que morrer.

(...)  Assim te vi no princ ípio, onde nada nunca est á onde é suposto. Eras uma casa feita em segredo. Todas as casas têm baús misteriosos cheios de cartas de amor em porões de saudade,  escondidos nos escaninhos mais profundos, entre as peças inacabadas de dominós de alabastro,  as colchas garridas da tia louca,  os acessórios do sexo esquecido,  a parafernália do animal morto,  os vídeos descartados ao inferno do digital,  as decorações de natais estéreis,  os livros por publicar... Tantos livros por publicar. Mas, só as cartas de amor, meu amor, nossas cartas,  tantas cartas de Amor desperdiçadas, nesse poço desigual, sobrevivem. Sabes... Em cartas de amor esquecidas nem os bichos vermes ou as coisas encravadas, ou a mais ténue esperança conseguem sobreviver de todas as possíveis maneiras que a literatura lhes reserva. As cartas de amor são a mais nua e democrática escrita inútil já inventada...

As Crónicas do Senhor Barbosa IX

Depois de morrer, o interior do Senhor Barbosa nem apodreceu por dias e dias, como sempre acontece com todas as outras criaturas deste Reino natural de homens, bichos e flora tão despudorada, inseridos em algum ímpio crescimento desordenado. Depois de morrer, ainda pareceu viver mais alguns anos e todos quanto o observaram assim o consideraram, pois, por conseguinte, era vivo que o sabiam, nunca morto, e aos vivos ninguém parece muito particularmente interessado em passar certidões de óbito precipitadas. Depois de morrer, o Senhor Barbosa, ainda escreveu a sua própria elegia. - Esta! - Pôs-se à janela e começou a ditar palavras muito baixinho, e estas iam-se escrevendo por si até ficarem completas. Nela, descrevia o seu fim prematuro, e quanto tempo precisaria para convencer os outros de que realmente falecera em virtude de tanto desprezo, tanto desrespeito pela sua simples condição eremita de Homem só! - Quando acabou apercebeu-se da inutilidade do que tinha escrito, mas, nã...

Seis anos depois...

Custa-me a crer que depois de mais de seis anos volvidos, um livro meu ainda esbraceje por aí nas mãos de alguém, que esse mesmo alguém o venha a ler e, que por algum milagre, se decida a enviar-me mensagem por e-mail dando-me conta daquilo que achou sobre o mesmo. Bem, aconteceu mesmo. E deixo-vos aqui a mensagem na íntegra (com a sua autorização devidamente) para que saibam o que pensou o Sr. Laranjeira, após o ter lido. Muito obrigado. "Teria muito a dizer-lhe sobre este seu livro ( Governo Sombra ), mas p oupo-o maiores deambulações: acho que é um livro acima do mediano, que justifica encómios e leitura. Tem a densidade dos grandes romances que desbravam as entranhas do que é ser humano. Faz a digressão pela escuridão construindo uma ideia em que os caminhos se bifurcam e alongam obrigando o leitor a olhar o mesmo cruzamento várias vezes, sempre chegando por um caminho distinto. Abre portas inusitadas. Usa imagens tão evocadoras quanto domesticadas são as palavras que a...

O leitor impaciente é lindo

Coisas muito bonitas em mensagens que recebo  (muito amiúde, muito, mas muito amiúde...) " Haverá certamente algum nome para a abstinência de um autor. Aquela morrinha lenta que custa a identificar, parece uma nostalgia que os afunda num êxtase. Parece que andam à descoberta da palavra justa.  Só que, sabe, alguns leitores também andam à procura do mesmo, e somos mais ávidos, queremos mais e queremo-las mais vezes. É mais do que a vontade de rever uma obra em particular, é, acho, ter saudades de um novo objecto, reconhecível até certo ponto, e que preserva a mesma capacidade de deslumbramento de anteriores. Enfim, quando é que o Casimiro nos entrega um novo livro? " ...mas, de vez em quando sabe ainda melhor.

O Leitor "Sombra"

Alguns simpáticos desconhecidos, quiçá leitores? espero que sim, gostava de acreditar que o sejam, alguns deles parecem mesmo, mas realmente não faço a mais pálida ideia, tudo isto me parece tão fabricado, tão obscurecido pelo anonimato férreo que até chega a assustar-me. O certo é que alguns desses indivíduos, por vezes atiram-me para cima do colo virtual sugestões, que ainda que me surjam sobre a forma de questões incómodas, acabam por ser sobranceiramente irresolutas, dispersas, quase um comentário, ou um desabafo, em vez de uma pergunta. Não posso assim, na minha boa fé, mais fazer que evitar enfrenta-las. Porque, para nos concretizarmos como pessoas, não podemos mais do que o fazer isoladamente e a espaços abertos, onde todos se exponham de igual modo. Por exemplo: - " Escreveu um livro sobre política mas raramente venho a ler outras coisas suas que o definam politicamente ." ou " Estive presente numa das apresentações do Governo Sombra e fiquei tão entusia...

E Deus (des)Criou a Mulher!

Caro Senhor Meu Deus, Ouvi recentemente um muito alarmante rumor, que me transtornou o espírito. Constou-me que Pensas descontinuar a produção da Mulher, retirando do mercado todo o stock existente. Ora, bem Te sei Todo-Poderoso e Omnisciente, mas Hás de convir que essa Tua decisão, de todas as que já Tomaste desde o Alfa e do Ómega, é a coisa mais digna de apontamento. Sempre fui Teu fiel devoto, e longe de mim, Ó Criador, vir-Te agora questionar por tudo e por nada, mas, logo a mulher Senhor? Quando o padre Gusmão me disse: Torna essa mulher honrada meu filho! Deus assim o quer. – Assim o fiz, pela Tua graça e obra, e de então até agora, já conto 27 anos de felicidade incomparável ao lado da minha Guilhermina. Então e agora? Que será de mim? Quem irá engomar-me as peúgas e os boxers? Quem conseguirá ter o desinteresse de olfato para aguentar a minha flatulência crónica? Bondoso Ser Supremo faz com que eu não termine os meus dias como o Júlio da mercearia, que por t...

Cartas do Além

 Querido amigo, Ontem li algo que me pôs a pensar em ti. Suponho que terá sido dito pelo Papa Francisco, estava pendurado no mural de alguém, como mais uma daquelas inalienáveis verdades que nos deixam todos molhadinhos de inveja, por nem nos termos lembrado de escrever aquelas palavras tão redondas de verdades imediatas. E digo suponho, porque hoje em dia é tão difícil determinar seja o que for do que vai sendo dito por tanta gente. É tudo tão confuso. Diz-se, diz-se, diz-se e não há sumo algum em tanta palavra escrita por medo. A expansão dos absolutos avançou ao contrário: Primeiro foram os povos, depois os lugares e agora são as palavras que se tornaram tão globais, tão comuns, que já nada parece fazer grande sentido aqui mesmo ao lado. Está tudo entregue a um imenso esbulho de total ridículo. Queremos todos chegar além do nosso espaço pessoal, e esquecemo-nos de o tratar convenientemente. Os nossos amigos de perto, os nossos cafés de esquina, as nossas festas e tertúlia...