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Dia de Vila do Conde.

  1070 anos de um lugar onde o vento corre mais forte e o amor goteja de sítios insuspeitos. Vila do Conde nunca sucumbiu às ofertas tentadoras da fama e do sucesso. Manteve-se inabalável na sua maravilhosa insignificância e ainda hoje assim permanece. Adoro a minha cidade!

O (meu) mar.

 

O Neiva junto ao Ave

Recordo-me bem do Cine-Teatro Neiva por si mesmo, o velho cinema de alcatifa puída e manchas de esperma e cuspo ressequido nos cromados. Fui duas vezes ameaçado de morte ali dentro, por mor de ser um piçinhas de Azurara que lavava as mãos depois de urinar e pedia as coisas "por favor". O Papel de parede descascava aqui e ali, fruto da humidade e os lavatórios fediam a uma cinefilia sem paralelo por toda a Vila do Conde. Recordo-me da sua pureza simplista e utilitária, bem antes de cair em desuso, ser esquecido e abandonado à ruína e por fim renascido, como uma fénix ímpia, que serve alguns em vez de todos.  É quiçá contraditório isto, eu sei, mas hão-de perdoar-me o saudosismo 'porco' de amar um cinema mais comum, mais humano, mais feio, em detrimento de um "Teatro Municipal" que brilha mais nas lajes de mármore do que nos conteúdos programáticos. - E mesmo que assim fosse? - Muitos anos depois, já se havia constituído um bom caminho para os amantes do cin...

Rostos de Pedra

Quando os corpos passarem

(...) O homem ia bêbado no comboio enquanto o dia nascia por trás dos quintais as casas alegres dormiam tão tristes  na escuridão, e os gatos e os cães pelas vielas aos pares brincavam aos animais para louvar a deus ou aliviar o peito. Dentro de mim morria gente todos os dias, por noites florindo sem apoio debaixo de uma redoma assim eu não me ajeito somente rastos de pó e cicatrizes tão belas incrustadas de mãos caídas, baças pedrarias todas confidenciais. A luz filtra-se pelas pedras sem razão e a insónia do fim retirou-me a força das pálpebras indefesas para falar. Lá fora, no escuro nas ervas daninhas, nos ramos nus, no que está acabado pousam pássaros minúsculos que são apenas, nunca perguntam o que está agora ou o que foi ou se chegará algum messias. Não pedem de comer, nem cantam são o que são em qualquer hora. Quando me levantar o céu estará morto e saqueado. Por...

Esta é a minha Praia

A Capela de N. Srª. da Guia vista da Praia de Azurara - Foto de Pascoal Silva

Algum dia, Vila do Conde, algum dia...

... deixei de pedir meças a quem me parte as asas de cristal, tomado tão a medo neste bom jardim algum dia teria de deixar de voar antes mesmo de o começar. Só peço a quem seja, que atirará essa pedra fria e desigual que o faça já, rápido, ao contrário do longo fim que começou tão lento a me despedaçar...

Ramalho continua muito Nosso.

Toda a gente conhecia o Ramalho e essa foi a sua maior tragédia.  Muitos dias de volte-faces valeram-lhe demasiadas gargalhadas impróprias.  Perdeu os ouvidos a quem sussurrava: " Um Poema por um Café ".  Esqueceram-no demasiado depressa os mecenas de circunstância, pagadores de umas cervejas em troca de uns sonhos legítimos. Puseram-no de parte, a ele e às epifanias que o arrebatavam.  Ao Ramalho, ignorava-se como ao resto dos retratos dos tolinhos exóticos que habitam e constituem a alma das pequenas cidades, e quando não fosse possível ignorá-lo, evitava-se-o. Então, desaparecia por espaços compridos e ninguém fazia grande caso disso. Vez por outra lá era mencionado, mas já a título póstumo, só por alimento das dúvidas de que poderia até ter sido alguém a quem se erguem estátuas, se cortam fitas por rabiscos no chão público ou se dão nomes a escolas. Foi um pensador e um filósofo, um Poeta. O Ramalho sempre teve cabeça para as matemáticas, ...

Inúteis Falos

Foto: Jorge Machado Longamente, depois dos dias e das gentes e do trabalho acabado resta a armada de canhões silenciosos, o ar e o mundo deixados sem procura. E a luz voltou ao preto e branco convergindo para um céu farpado de vigílias tenebrosas, de desdém em paisagens de frágeis parapeitos esticados pela memória dura presa eternamente, em terra de ninguém.

Carta obsoleta a um filho vila-condense.

Transportamos connosco a infância até ao momento em que morremos. É um romance que nunca nos abandona. Tento ensinar isto ao meu filho, e não se apresenta tão fácil quanto parece. Quero acreditar que o que retive desses tempos terá feito de mim um homem melhor, de sentimentos mais presentes, e a mais valiosa lição que lhe quero deixar é esta. O meu pequeno tesouro interior. É bem verdade que tomo poucas coisas como certas, pois o progresso arrima-as constantemente, a grande maioria só medianamente me atinge, outras, destroçam-me em absoluto as lembranças de um menino que, ou não quis crescer, ou não quis que a terra girasse e fizesse mudar quase totalmente o mundo da sua infância. Felizmente que uma delas permaneceu perene e constante na passagem do meu tempo, a sempre contínua paixão por esta vila-cidade; Vila do Conde. Se me dou ao luxo de ter sentimentos contraditórios sobre o que vou vendo, faço girar os ponteiros do tempo para essa época em que andava à solta pelas ruas e trans...

As bacalhonas da Páscoa

O Mosteiro de Santa Clara

É preciso salvar este precioso marco que representa o cunho da memória deste povo valente, que habita indolente junto aos seus pés de pedra. É estranho, mas a verdade é que, mesmo depois de extinto, depois de ter morrido a última freira, a sua história não parou. O que não se reveste de estranheza, porém, é a forma como um edifício de pedra, metal, vidro e argamassa, também se torna feito de sangue, vidas e lembranças. Isto de falar do Mosteiro de Santa Clara, levar-nos-ia longe a todos, e já basta o muito que sobre ele já foi dito e escrito ao longo dos tempos. Mas é importante não apagar nunca a recordação do vandalismo impune aqui perpetrado, sem respeito pela dignidade do seu passado, ou préstimo pelos interesses de Vila do Conde. Foram-se os cálices, as custódias, cruzes, lampadários, tocheiros. Evaporaram-se em grande mistério, os relicários, as pinturas, os azulejos e toda a estatuária. Tudo isto se sumiu de entre portas, numa avidez de roubo e destrui...