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A mostrar mensagens com a etiqueta Poemas

A minha droga é líquida, apalavrada e jamais a combato...

  Lembro-me de caminhar até à praia deserta movendo-me lento até à areia infinita que brilha. Um dia desses tive também um sonho esganiçado, sofri suores, convulsões, fogos de malsão alerta. Urinei incontinente na graça do inocente que pilha, que pilha, que rouba, que só quer enterrar o desgraçado humor dedicado ao fim que jamais se acerta.

Poema em 3

  Novas entrevistas ao fim do mundo, tentei andar na corda-bamba, só vi pulhas de circunstância, caí, ou empurraram-me até ao fio perdida da meda. Nenhum Bruto ou Cássio me enfiou um ferro tão fundo, como a adaga feroz da alcoolizada demência. A História fez de conta que nem me viu no largo literário da alameda, caducas entrevistas de um velho mundo. Prostitutas, ratos gordos, cús de sem-abrigo. Lembro-me de quando havia distância, sem GPS. Era livre e bom, e cheirava bem. Também nos perdíamos, mas era uma merda! A música soava baça, a carne apodrecia no sexo e nenhum sabor sabia ser assim tão profundo. Sonhei que fodi a rainha celta Bodacia, à revelia da vossa ignorância. Novas viagens ao fim de onde sou oriundo. Que merda de poema este, parece uma ambulância... circula rápido sem levar vida ao quase morto que hospeda. Ontem acordei de pau feito, mas furibundo, o céu clareava no horizonte na antecedência, de mais um dia que me degreda. O que se passa, estou vivo, morto ou moribund...

Três salvas para a canalha

  Oxalá um dia, desabem todos dos seus pedestais. Não lhes desejo a queda livre, não! Só lhes quero sentir o medo nos olhos sombrios, caindo desamparados daquele topo, morto de rebeldia, atravessando telhados desavisados, até aos quintais, onde os esperarei, inchado de gratidão. (...) in: "Uma Velha de Amarelo a empurrar um carrinho de compras"                                                                 2022

Algós B. Tristão, o poeta cagão.

  O meu sonho atirou-se da janela, lá para baixo, tão frágil, doente, tão débil, precisou de atenção. Morreu assim. Coisa ruim da gosma de um mau rapaz. A sua verdade encontrava-se por debaixo, de um ataque, ou é uma estrela cardíaca em explosão, Ninguém a viu, ali, tão desunida com aquilo de que se julgou capaz. Enquanto a maioria esgalha e esgalha, e só se anima, com raízes de vãs alegrias pelos vãos de escadas, sémen em pó, de um pobre, triste optimismo, eu definho e faço do corpo papel daquele que só lastima, não ter conseguido chegar às tetas mais anafadas. Morrinho uma brutalidade de fingido potente antagonismo. Como as unhas que deixo crescer, como os assustadores pelos laxantes, dos meus imaginários cascos, grito a justa luta, bebo, e depois enterro-a toda na minha lama. Jamais serei melhor do que sou hoje, não por vossos modelos. O fim é um pote cheio de palavras e de entrelaçados laços, apropriados poemas escritos na ponta da cama. Jamais! Quando me dedicarei por fim aos ...

O Barbosa, o Barbosa...morto de paz.

A vontade de estar tudo bem com todos, carrega uma lâmina no bolso de trás, entende os tolos sorridentes e só mata aqueles que ignora. E a solidão que está tão mal comigo, tão mal comigo... preciso da chuva para acabar com esta má sorte, que me acaba mais por si só, que a promessa de boa vida, o faz, com melhores modos. Estas palavras vão aquele que essa morte me traz, sei o que faz, o que diz, come, sei até onde mora. Traz fungos no fígado, e do sol é inimigo, precisa da chuva para se fingir de forte, da tristeza sem fim, para se enfiar nesta luta aguerrida. Enverga uma lâmina de fazer inveja aos Ostrogodos, e três medidas extremas no coração, todas exactas e más. Uma fugiu-lhe do sangue, saiu e foi-se embora, foi vista a percorrer as ruas de Vigo. Outra, manteve-se colada à mão, a servir-lhe de passaporte, amiúde viajava-lhe a vontade, assim mesmo, consentida, ...em paz! In: "Uma velha de amarelo a empurrar um carrinho de compras" ...

A montante dos dias.

  (...) Ando nisto em um tempo algoz... Isto é, quando me entrego à labuta da escuridão, sempre naquele campo infecundo que só (me) acontece e por demais me enterra. Talvez esteja só plantado no meu próprio chão, em noites assim, onde a chuva me salva a voz, me salva o futuro insistente, me salv'a'terra, onde me semeia e por fim me floresce! in: "Forte Agitação Marítima."

Textos Devolvidos IX

(...) Fica então marcado o encontro naquele lugar só nosso, onde beberemos perdidos a espuma do mar e devoraremos as nuvens armados em bocas de ventos fortes. Ali habitaríamos sempre um constante estado de alvoroço, e o mundo fugia-nos dos sentidos, sempre tão rápido a escapar sob a sombra imperfeita da areia inútil das nossas má sortes. Agora, livrou-se o tempo completamente dessa memória, como uma pele de cobra, soltou-se de nós, tal como previste ou quase...já não sei nem posso, saber que ficou ainda por ser escrita, a memória rigorosa desses dias. Os anos mal têm força para abafarem um vislumbre desse paraíso. Eu tentei. Ainda assim colapsou, contra a vontade que insistias. Tornou-se só ímpeto o relato desta mesma história. Abriram-se pelas ruas todos os passos, e todas as bocas sem pudor, falaram de nós, dos nossos beijos, corpos, dos nossos sexos expostos nos abraços, de toda a poesia que disseste pelo embaraço da minha voz. E eu só ouvia o vento a dizer-me que falhei! 2002

A Revolta que me Encontrou.

  O meu desalento não cabe num só poema nem nas farpas ferrugentas do esquecimento que todos os dias me ferem os pulsos. Lentamente, deixei fugir palavras entre o sangue dos meus dias, e deixei a boca rasgar-se também, cortada em dois pelo medo puro do fracasso, cerzida na carne pelo fio aguçado do mau momento. E também deixei fugir o gosto do prazer e do assombro, e do desejo por infinito. Não me venham pois falar, de profetas, de heróis ou de sábios, ou dos vendilhões que me agoniam em cada palavra escrita não me queiram roubar o fogo às palavras, que é meu, tão meu, só meu, e não está à venda. Certamente, que deixei fugir palavras soltas pelas vielas da noite encontradas depois no brilho lúcido das manhãs, e já nada mais me aterroriza, o medo saiu inteiro deste corpo, e criou raízes na distância, onde o desdenho. Não, caros senhores nem se atrevam a pedirem-me que lute mais, em silêncio. Senhores eternos das verdade absolutas, A poesia não morreu! e de memória em memória De bo...

A Quebra dura do Vaso

  (...) Agora, mais pujante e amanhecido novamente, abro-me para ti, flor húmida que és, suave cálice de prazer elegante, em busca de um Sol errante. De um nosso jorro de luz ardente. E, neste calor, podendo, seremos todo e só um imenso rio abundante. (...) in: "O Dia em que o Outono ficou Quieto" 2014

Longe dos sonhos dos Anjos

  (...) tempo demais andei espantado por nada, caído em um chão sem bons meninos. Fugi do normal recreio do grato porto, como no escuro fogem da luz os animais. Acordei, e juro que não o merecia. Pois, nessa mesma noite já deitada por detrás dos olhos bovinos, vi sonhos prostituíndo-se à revelia das suas zonas de conforto. (...) in: "Aquelas Vistas de Pedra" 2021

O Bosque

  (...) O bosque, a ideia da floresta indecifrável    que por si dentro caminha. O chão arenoso onde já não existe medo e toda a solidão aberta, toda, só minha. Deito-me na terra sem soalho, profundíssima como o mar distante. O que poderá aquilo ser? Uma obscura vida interna de navegante. (...) In: "Forte Agitação Marítima" - Excerto

Poema XXXII

A vida lá fora é um documentário.  Do segundo andar penso em palavras densas para mandar para a rua, atirá-las  ao filme em constante rodagem. Daqui contemplo o ar das gaivotas e quero esse vento. Sou fraco. Lá fora há gente com preocupações.  Aqui vive-se um tédio burguês.  As janelas duplas encerradas  fecham a vida para dentro de um computador.  Sou fraco. Não é por alguém que fraquejo só me diluo no ar ou escorrego como a chuva-lágrima a solidão alimenta-me na boca até um dia. Um dia meto-te a lua no ventre para que nasça o sol de manhã. Esta manhã nasceu do frio, suficiente. Sou fraco. De tronco nu, destapado, estendido, os ombros queixam-se os pés queixam-se do chão a cabeça queixa-se do céu. De não voar. Sou fraco! Se a alma fosse etérea já teria partido para longe  de todo este sangue inútil.

Bukowski entenderia isto.

Noite novamente, nada para dizer,  quiçá compre um planeta ou faça amizade com um diplomata. Limparei o cinzeiro, no mínimo para me lembrar do meu pai.  Primeiro preciso limpar os óculos desta névoa de sempre - já não me dou com as minhas alucinações. Coçar o escroto, beber água para lavar a inutilidade. Um leve toque na porta, entra a gata,  atrás dela vem o resto da noite exigindo colo.  Tempo para outro cigarro e depois deixo as cortinas subidas,  reparo que o lixo faz um carreiro de formiga até ao caixote. Haverá alguma coisa simples que eu possa fazer pelo meu sofá?  Talvez pintá-lo de amarelo  ou instalar-lhe um elevador do chão até ao meu divórcio um bidé gigante para poder tomar banho a dormir. Noite ainda, de que me serve viver se não posso estar vivo no meu próprio inferno?  Esta gota de tempo nos meus olhos não é uma lágrima, mas cuspe cuspo, cuspo e cuspo, continuo sem nada para dizer, como a explosão de uma estrela verme...

Queimar nuvens no pátio

Eis-me ao lado do centro do assombro. Aqui não se distingue o calor de ser queimado ou de se ser fogo é um outro nome mero rumor. Por fora, na rua, só rumoreja um estranho canto de acendalha que incendeia o poema verdadeiro. Que assim seja uma torre sem paredes que se levanta. Sem paredes nem tecto nem chão... um agulheiro só de marcas de carmim e sangue onde calha. Sangue vulnerável aos desejos mais profundos da noite. Porque o fogo não se dá ao trabalho de não o ser é crepuscular, assim. E, cá dentro fujo para que finja que não sou mais feito de cinza. Deixa os sorrisos, as promessas e os beijos, traz-me antes o líquido da primeira nuvem que passar pelos teus olhos. Suspeito da leveza que atinja estas minhas asas de suspensão. Esta noite queimou-se lá fora o meu fim para não ser mais o que não posso. Sempre me ensinaram que o sangue nunca será mais do que é. É o que sou, o que  jamais serei será fogo escrevend...

Ao triste Café perdido no tempo.

O silêncio sem moscas.  O vidro sem pó. O frio do vermelho,  faz medíocre onde se senta, só. Edward Hopper - "Nighthawks" - 1942

Cortar em Seis o Pão

Versos heróico-familiares .III Houve um tempo  em que o meu pai trabalhava por turnos na fazenda na tesoura, giz e no cigarro campeão como um herói de acrobacia. Coração de aço, entretela feito asa vestida em madeira ancestral. O dinheiro era um osso que mal chegava para encher a concha de uma mão. Dormia com a minha mãe e a direito fazia a emenda dos dias de cristal. Há noite, chegava a casa e antes de se sentar à mesa sorria, como ninguém. .. A minha mãe esfregava do pescoço o torcicolo respiração e canto, o cheiro a frio de varrer a casa da rádio a água da cor da ferrugem e das camas, o vil cotão. Mulher indómita de perfume perfeito dir-se-ia uma planície formosa não inventada por flores. duas mãos papoilas, vermelho sangue e uns olhos de abismo aberto. Havia também, por perto, um gato  amarelo esgalgado pelo meu colo fogo de calor, amor, risos e pão. .. Sei de toda esta matéria de  embaraços mesmo no fim de quatro, fui eu quem ...

Quando os corpos passarem

(...) O homem ia bêbado no comboio enquanto o dia nascia por trás dos quintais as casas alegres dormiam tão tristes  na escuridão, e os gatos e os cães pelas vielas aos pares brincavam aos animais para louvar a deus ou aliviar o peito. Dentro de mim morria gente todos os dias, por noites florindo sem apoio debaixo de uma redoma assim eu não me ajeito somente rastos de pó e cicatrizes tão belas incrustadas de mãos caídas, baças pedrarias todas confidenciais. A luz filtra-se pelas pedras sem razão e a insónia do fim retirou-me a força das pálpebras indefesas para falar. Lá fora, no escuro nas ervas daninhas, nos ramos nus, no que está acabado pousam pássaros minúsculos que são apenas, nunca perguntam o que está agora ou o que foi ou se chegará algum messias. Não pedem de comer, nem cantam são o que são em qualquer hora. Quando me levantar o céu estará morto e saqueado. Por...

Textos Devolvidos VI

O Orgulho é uma Nuvem Um dia acordarei longe do teu abraço.  Porque existir é outra coisa diferente disto que me exiges: é a surpresa da vida,  o encontro da emergência de aqui estar, o princípio bondoso do amor próprio  e também o seu maravilhoso fim.  Um dia não precisarei mais de pedir a tua mão acumulada sobre o meu destino.  Um dia serei o meu mundo próprio.  Serei assim, 
 E poderei ser livre finalmente, como as orgulhosas nuvens de outrora.  Vagueando pelo céu eterno, sem pedir permissão a ninguém. 
 Um dia serei alguém sem arrogâncias, alguém liberto de todos os cinismos,  de todos os azuis anti-naturais, tingidos. 
 Um dia serei melhor, alguém melhor! 
 Um dia acordarei longe e certo, e nesse dia serei somente a minha própria luz.  
 Que o fogo dos outros em nada me ilumina, 
  em nada me seduz. 
 Porque os dias só feitos de mãos atiradas ao vazio são a morte mais lenta de todas.  
 A m...

Se eu tocasse no Mundo...

O tornar do passado é sempre um resto, sem história sem letras escritas só ramos nus expostos à luz de dias cinzentos, sem ventos de dança. Contei todas as tuas pestanas coladas à minha memória e deito-me só a chorar sem qualquer pujança. Observo a geografia do corpo do nosso futuro e só vejo vidros partidos ao cair da noite de todos os tormentos. Chorei a noite passada e nem sei porquê. As lágrimas que ontem chorei tornaram-se hoje na chuva da minha história acabada. Quando chegará a palavra da abundância meu amor? Quando ficará por fim ajustada esta ténue lei? Nem sei se escreva mais uns poemas que ninguém lê ou caminhe longe de cabeça alta cheia de dor e com os pés abaixo do sítio onde fiquei a chorar ao mundo por clemência. O fim é tão estranho. Para sempre um nome preso à inconstância do amor. Contei todos os teus olhares bordados em carne e planícies de flores. Depois...por fim chega o abismo sem tamanho e d...

Até a Morte tem os seus Dias contados