É tão estranho como o Sol de uma qualquer Primavera impulsiona os corpos à rua. Está frio, aquele tipo de frio que iguala o desespero da perda humana, ponto por ponto. Aquele frio exacto do calendário. Não é um frio setentrional, nem podia, vive-se em Portugal. Contudo, o frio que faz, ajusta-se ao nosso normal clima e corta, incomoda, dói, recolhe-nos, faz-nos povo mais caseiro, ou, assim se adivinharia. Não é o caso. Pois a tundra gelada do país tem horário: entre as 03h00 e as 07h00 da manhã, e depois, no segundo período avassalador, por volta das 19h00 até ao raiar do novo dia seguinte. Nesse interstício aquece-nos um Sol revoltante, que, de algum modo misterioso purga toda a geada interior das gentes cautelosas e, pior, faz-las saírem em catadupas de répteis abjectos a absorverem-no como podem. Vejo as criaturas do ginásio defronte, na praça, a cumprirem as regras que o dinheiro pagou e o remorso comandou. Frágeis fac-símiles de seres humanos desesperados por melhores figura...