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A mostrar mensagens de Novembro 11, 2012

O país prisão

Hoje acordei preso. sonhei-me algemado num calabouço qualquer, algures, no centro de Lisboa, sem explicações ou apoios. Senti medo genuíno, tanto que nem me apeteceu acordar de todo, na esperança de conseguir mudar o rumo da noite, na orgânica flexível do sonho.
Depois voltei a casa, e pressenti a minha casa como um refúgio. O corpo aqui recupera a segurança, como se a segurança fosse um combustível que é preciso, que é indispensável, como se a casa fosse um repouso absoluto onde nos atestamos de segurança. A casa é como aquele lugar de conforto em que não podíamos nunca ser apanhados quando brincávamos ao fica em miúdos. A rua já não o é. As ruas assustam, e as vozes inteiras das gentes calam-se inseguras, com o sangue a escorrer-lhes pela cabeça e o corpo marcado pela dor dos bastões, neste medo antigo que reemerge agora com dentes arreganhados e presas afiadas. Não podemos deixar que esse silêncio retorne, pois vivemos numa realidade muito crua. As pessoas são levadas a acreditar…

Ah, poder sonhar e não mais acordar!

Nunca sonho os sonhos completos. Isso é das maiores tolices consentidas. Acabar-se-iam e depois, a lucidez não me convém de todo. Ficaria cego, ainda que de olhos abertos, de órbitas vazias, perfeitamente claro, mas sem instinto criativo. Preso a instantes-sonhos horríveis e outros pertences menos humanos. Um dia hei-de ponderar sobre os sonâmbulos! Sim, esses heróis esquecidos da noite. Estar do outro lado é que é, mais do que um sonho, nesse lado tudo se arredonda de tão absorto que é, de tão pouco indigno que é. Ali é que há vida! Ali existe-se. E todo este irreal sorrateiro tornar-se-ia a única coisa real que valeria a pena.Nunca desta cabeça saiu uma imagem de desconfiança. Sempre ovelha de olhos abertos, nunca pastor incinerado lá no outro reino verdadeiro. Acordado tenhos facas e facas e facas e desfaleço de energias, sem poder sonhar. Por vezes até parece que a minha alma se antecipa ao momento do desfalecimento, sucumbindo ao sonho que estou a sonhar mesmo de olhos aber…