Apetece-me hoje ir atrás buscar novamente o Natal, porque recebi então um presente que saliento da noite do sapatinho e que julgo que só o recebe quem tem sorte, amor e gratidão. Chega a ser aviltante reclamarmos sempre do muito que temos face a quem nada possuí e ainda assim dá de coração aberto. Mas isso já é outra questão. O que queria partilhar refere-se à oferta que recebi da minha filha: um livro em branco. Quando enfim atingi o sentido biológico da minha existência, muito depois de ter aprendido as letras e os números, lembrei-me de ter filhos, sem esperar grandes retornos, porque um pai nunca haveria de deitar filhos ao mundo com outro intento que não seja o de os amar. A minha grande surpresa foi a de ter gerado uma filha que, apesar da alvura que me põe nos cabelos, conseguiu enumerar duas das minhas mais gratas paixões, como que em um dicionário e assim me presentear em um singelo objecto. "Este livro", depois me elucidou, "é para tu escreveres, à tu...