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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta escritores

Doze anos escravo!

  A vida, continua vertiginosa, como a montanha de onde desabei, e que jamais escalarei. Jamais! Estou certo disso, agora. Doze anos depois, continuo a querer ser escritor. - Mas que grande tolice! - E, dessa dúzia de vida, retiro a única lição possível: Apesar de todas as boas intenções das frases feitas, querer apenas não basta, nunca basta. É preciso sempre conhecer-se alguém que protagonize existência onde nós não conseguimos nem deitar um mero bafo de respiração à tona. E mais até, não basta apenas conhecê-lo, esse providencial mecenas inoportuno, necessitámos de alguma sinergia quase fantástica, de parte a parte, uma espécie de " quid pro quo " imperial, suficientemente sólido para nos conceder uma oportunidade de alcançar esse patamar místico onde, hoje em dia, um escritor, bom ou mau, existe de facto. Um bom editor, um excelente publicista, um magnífico gestor de carreira. Dois ou três autores já consagrados que nos dêem o seu aval, e escrevam qualquer treta sem grand...

Ano novo, mesmas queixas.

Como sempre imaginei que assim fosse, tudo se resume a mãos dadas, a entregas desprendidas. A um amor primordial, pois. De outro modo como poderei racionalizar que um texto "x" valha mais que outro "y"? - Venham os teóricos patrões desta razão toda e discutam isto. - Não virá ninguém, eu sei. Escrever é uma bestialidade tremenda que só serve as aflições mais primitivas do ser humano. Em boa verdade, desde a véspera de seja o que for que escreva penso em publicá-lo, e aqui é quando me sinto agitado, mergulhado numa excitação quase juvenil. No dia seguinte, visto-me quase sempre de fraque melodramático. Todos os dias seguintes, são a mais triste festa de passagem de ano que alguma vez passei (e já passei por algumas bem taciturnas). O pior, é que todos os anos são piores que os anteriores. Tomara que o tempo tivesse parado algures cerca de dois mil e treze. Aí tudo ainda me parecia possível e vivia uma ingenuidade libertadora, propensa ao desejo férreo de jamais ...

Fim?

Lançamentos do último número (#18) da Revista Flanzine - "FIM" Sábado, 8 de Dezembro, 17h30 - Porto, Gato Vadio Sábado, 15 de Dezembro, 17h00 - Lisboa, Livraria Cotovia É aparecer, que isto é um doce de Natal à vossa espera.

Garrett a dar hóstias na boquinha dos desgraçados

Quando Garrett pouco antes de morrer, acabou de corrigir as provas de " Folhas Caídas " com a sua habitual caneta de porco-espinho tão mordida de tanto procurar a simplicidade, afirmou com autêntica singeleza: " os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções ." Não tinham mesmo, daí, esta sua última publicação ter sido encapotada sob o anonimato derivado dos seus cuidados pelo escândalo da sua relação com a Viscondessa da Luz, a quem a maioria dos poemas eram dedicados. - E contudo, desde os dez anos que versejava altivo, coisa de vocação pura e mais do que só isso, cresceu tanto levado por aquele talento ímpar que foi lançando um pouco de tudo ao prelo: romances, novelas, teatro, ensaios..enfim, um exibicionista descarado, pois havia em si um par de tomates a pingarem respeito, responsáveis pela maioria das suas virtudes e defeitos que pareciam ser capazes de tudo. E e...

O Público de Turbante

Como haveremos de ser felizes entre uma tranquilidade que nunca nos parece normal? - Sentimos uma espécie de inquietação alienante, de pressentimento permanente, de suspeita sobre a realidade material do que nos vai acontecendo e desagradando. E nunca dormimos em sossego e não deixamos jamais a jornada do negrume. O silêncio é a nossa única arma. Não vale a pena a revolta armada, o grito público. Não existimos. Reclinámo-nos na cama e somos prisioneiros das nossas frustrações. Deitámo-nos e só caímos, só nos afundámos mais. Pedimos em voz clara, muito natural, que nos sejam atendidos os pedidos mais desafogados de todos. Um enxovalzinho estendido em nossos braços que entregamos constantemente. Rejeitado, rejeitado, para sempre recusado não obstante o potencial (aparente) interesse. E temos dias de procrastinação absoluta por medo de sermos inconvenientes e outros maiores, longuíssimos, onde as lágrimas nos sulcam os rostos que são tão humanos como os de qualquer um. Temos até ...

Correntes D'Escritas 2018

“As palavras envergonhar-se-iam do corpo que as escreve. Seria, provavelmente a maior ironia do mundo dos homens. Um ser nunca é digno de ser maior do que as suas palavras. O que escrevemos é sempre maior do que nós. O que tendemos a ser é o que a realidade nos pede. Ser é apenas uma prerrogativa dos deuses e alguns homens são geralmente incompreendidos. Somos tão pequenos ante o que escrevemos e só por isso o que se escreve nos atormenta porque, por vezes, se escreve mesmo”. Hélder Simbad - Escritor Angolano - Mesa 5 nas Correntes do dia 23-02-18

Charles in Charge

Charles Bukowski “We’re all going to die, all of us, what a circus! That alone should make us love each other but it doesn’t. We are terrorized and flattened by trivialities, we are eaten up by nothing.”  - Charles Bukowski -

Davam grandes passeios Existenciais aos Domingos

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre

Estender a Pele pela Boca

A Não Perder!

Sobre a profunda idiocracia de se 'fazerem' escritores

Curso prático 'Publicar o meu livro' | 17 e 24 de fevereiro Livraria Bertrand Shopping Cidade do Porto Formadora:  Rita Canas Mendes . Não acredito em currículos ou diplomas ignóbeis, impressos em massa numa " Staples " mais próxima. Acredito apenas no 'bom dinheiro' que muitos irão dispensar a este curso, cegamente imersos naquela esperança inflexível de que isto os fará 'escritores' e daqueles eternos.  De que isto lhes abrirá portas, lhes criará oportunidades. É tão obsceno este 'isto' que me faltam os adjectivos mais superlativos para o qualificar. E foco-me neste projecto da Bertrand apenas porque me apareceu debaixo dos olhos. Não estou a singularizar a Bertrand. Muitos outros, consideravelmente mais 'insignificantes' que a Bertrand têm-no feito. É quase tão desprezível condenar alguns, como a Chiado Editora, por estabelecerem um modelo de negócio tão letal para as aspirações de um jovem escritor como equipará-lo a...

O Natal do Saramago

Esquecermo-nos de ser quem somos.

Comecei ontem a leitura do livro  "Oblívio"  de Daniel Jonas. A intensidade de certos poemas é enorme. Jonas tem a capacidade de nos transportar para o centro do seu assombro (lucidez, dirão alguns; loucura, dirão outros). Será um livro que irei ler e reler. Tenho a certeza. "Assim no meu soneto aqui gravei quem não sou nem fui e menos serei"

A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais

Começa:      Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace Hotel. O chofer não estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a “seu” José para vir buscá-la às cinco, não calculando que não faria as unhas dos pés e das mãos, só a massagem. Que devia fazer? Tomar um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera que nunca se deve andar sem nenhum dinheiro. Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro. Mas - mas era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela - com outros, e nesses outros ela se refletia e os outros refletiam-se nela. Nada era – era puro, pensou sem se ent...

Quando as capas dos livros nos põem as polémicas em perspectiva

Andreia C. Faria Tão bela como qualquer rapaz Língua Morta 2017

O Vasco da Gama a estragar-nos a imagem.

" O vodka usbeque é uma zurrapa do pior mas, caramba, é difícil encontrar melhor desbloqueador de conversas em todo o território da antiga república soviética. Sobretudo por isto: o Usbequistão é um país islâmico. O que quer dizer que quase toda a gente bebe a sua bebida, mas fá-lo mais ou menos às escondidas. Em boa verdade, quando se juntam vários desconhecidos em torno de um copo, é como se estabelecessem logo ali uma cumplicidade de anos. Tornam-se companheiros de disfarce, cooperantes de uma infração irresistível. A primeira pessoa que conheci na Ásia Central foi precisamente um passageiro que cumpria comigo a viagem de Samarcanda para Tashkent. Entre as duas maiores cidades do país – dois oásis no meio do deserto do Karakum, no antigo caminho das caravanas da Rota da Seda – preferimos ambos abandonar o desconforto dos bancos de madeira e rumar à carruagem-bar. Pedimos um vodka cada um. Ele era um tipo alto quando comparado com os seus compatriotas, devia ter um valente ...

Hemingway, o gato e o caminho

O gato ao fundo do sofá e eu a ler. Hemingway está cansado e escreve sobre o cansaço. Entendo-o como se estivesse ao meu lado a falar-me. Parece que teve uma infância feliz. Tenho pena que a felicidade nem sempre nos acompanhe os anos. Envelhecemos e tanta coisa nos fica pelo caminho. A felicidade nunca haveria de ser uma dessas coisas. A felicidade ou a inocência ou os amigos verdadeiros. Ou as auroras. Tudo o resto, que for de poeiras e insónias não carece de envelhecer connosco. Agora, veio o meu filho cravar-me um cigarro e o gato alarmou-se ao tempo curto de um bocejo. O que me entusiasma é saber-me pertença e ainda ter caminhos possíveis, abertos, que me fazem muito sentido. Vou escrevendo estas coisas porque ainda procuro muito ou porque me irrita aguentar a ideia de que todos os dias tem de valer a pena. Alguns são tão pequenos que desaparecem antes de os vivermos, outros arrastam-se e outros ainda ficam para sempre. Envelheci e certas coisas enraizaram-se-me no hábito de ma...