Meu amor, Só me explicaram a palavra amarrar, porque desamarrar levava tempo a mais a existir até se tornar numa palavra que pudesse eu escrever. E eu quis escrevê-las ambas num caderninho azul que tinha rosas anãs brancas na capa, aquele mesmo que me ofereceste no mais estranho natal de todos, até descobrir que sozinho, nunca o conseguirei fazer. Há tanto silêncio nas minhas mãos quando as tento escrever. É como se duas crianças tivessem morrido ali, esparramadas de tédio, naquelas pálidas linhas azuis por as merecer. No fim do quarto ergue-se uma montanha de roupa por lavar, cem livros, um lápis, quinze molduras vazias, um quadro de lousa, mil poemas enguiçados, três trapos ranhosos, uma carta, a tua carta, esta carta, dez garrafas variadas, vazias, um canivete, um coração partido, um copo meio-vazio, setecentas beatas de cigarro, o periquito prestes a falecer, duas maças e um caroço. Mais além está o gato, que brinca com as fronhas da cama as t...