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As Lágrimas de Portugal

  Da esplanada do velho café da minha janela saboreando um whisky aguado com direito a comiseração a vapor, vi do outro lado da praça uma mulher à janela, arejando um tapete ou um cobertor ruço ou o que fosse de pano, não importa realmente. O que me importou era o que tinha atrás de si embutido na parede. Era o Menino da Lágrima , na sua pose estática tão conhecida e familiar, como se estivesse, nesse preciso momento, a fazer de modelo para todos os infelizes do mundo que vertem amiúde, ou sempre? a desdita inconsolável que os assola. - Quem se terá lembrado de o pintar assim e porquê? - É uma questão pertinente, penso. A pergunta imediata que me assombrou foi: Afinal, quem é que ainda ostenta o Menino da Lágrima , sem ter um espírito irónico ou 'kitsch' ou ser mero amante da pop-art trash?  No fundo, quem, em 2022, persistirá em manter este retalho de carnaval feirante pendurado em uma parede da sua casa, fazendo-o quase que por devoção a uma tristeza imaterial que requer rep...

Tributo a René Magritte

Ao triste Café perdido no tempo.

O silêncio sem moscas.  O vidro sem pó. O frio do vermelho,  faz medíocre onde se senta, só. Edward Hopper - "Nighthawks" - 1942

Um artista com uma câmera

ARTUR PASTOR [1922-1999]

A "Helena" não tem Culpa

Ler, contra a tempestade. Ler a meu favor. Ler porque os livros não precisam de mim para nada, mas desejo-os tanto. Ler é felicidade interna bruta, conceito maravilhoso em qualquer lugar, tempo ou clima. Vivem lá umas pessoas, imaginem. Malucos, que nunca se cansam. Porque são malucos? Claro. Como é que um maluco se podia cansar? - A "Helena" não tem culpa, tenho eu. Georges Seurat "Man Reading" 1884

Mais brutalidades a caminho

O Tumblr , que para quem não sabe ainda, também é uma espécie de rede social, em rigor mais estrito; é uma plataforma ' blogger ', dedicada quase, mas não exclusivamente, a albergar entradas de imagens (fotos, gif's, meme's, pequenos vídeos etc..), de uma forma ou de outra veio a acolher predominantemente, com o passar do tempo, uma imensidão de conteúdos variáveis desde o puro nu artístico (erótico?) à esclarecida pornografia multiversada na panóplia quase interminável de temas, fetiches e propensões que se consiga imaginar.  Gosto do bom erotismo, é como a satisfação que uma lauta refeição me traz à cabeça, acama-se fugaz na alma e delícia-nos tudo por ali abaixo, aos arrepios, faz bem, porque admite algum cuidado artístico, íntimo e pessoal, um cunho. É arte! Não é verborreia pseudo-intelectual nenhuma, quando em uma acepção mais abrangente de trabalhada manifestação artística de um autor, consegue ser exactamente isso: arte. (Ver imagens mais em baixo) ...

Esta é a minha Praia

A Capela de N. Srª. da Guia vista da Praia de Azurara - Foto de Pascoal Silva

O Arquipélago Precioso

No próximo Sábado, dia 8, pela 16h00, em Vila do Conde. Com a auréola que lhe outorga a habitual inquietude, o Helder carregado de pruridos põe-se constantemente a descobrir e a inovar. Ouso quase afirmar que possui um daqueles espíritos indomáveis que só se saciam a experimentar as barreiras. Barreiras essas, que cedo entendeu que nunca poderão ser bem definidas, no que à arte diz respeito. Por norma remete-nos ao incompreensível em um tempo onde só queremos compreender tudo à pressa. Isto diz que, a melhor percepção da obra de um artista é descoberta quase sempre naquilo que não entendemos. E quiçá nunca tenha sido esse o seu grande objectivo, dar-nos lições sobre a sua arte, porém, não restam dúvidas que a sua atitude quase ‘camaleónica’ na relação com a sua arte sempre em modo de descoberta, acaba por nos ensinar muito acerca da própria história da arte em si. Desta feita, o mote do seu mais recente movimento de artífice encaminhou-o para uma área de arquipélagos...

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro. Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio. O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou...

Bernardo Bertolucci

A minha última recordação do trabalho deste grande mestre, foi a de uma noite de grandes chuvas em que fui exorcizado pelo filme "The Dreamers" (2003). Esta foi a altura em que senti que o realizador me examinou nu, com uma caixa de ferramentas para reparar males da alma. Veio a ser o penúltimo filme que dirigiu, e indiscutivelmente um dos seus melhores, espantou-me os mau humores todos como que com um ramo de urtigas. Bertolucci tinha uma forma muito diversificada de trabalhar, e contudo, é possível seguir-lhe os traços estilísticos em qualquer um dos seus filmes. Visceral mas encantador. Epopeico mas extremamente intimista em simultâneo. Foi sem sombra de dúvidas um dos derradeiros mestres desta arte que tanto amo, o que agora nos deixou. Qualquer um dos seus filmes acendia-nos uma fogueira em pontos distintos da alma, e tinha este extraordinário toque de midas, para decifrar identidades secretas nos seus personagens, partilhando-as connosco. O volume do seu trabalho t...

iluminado

"le principe du plaisir" - René Magritte Consta que esta pintura “ Le principe du plaisir ” de René Magritte terá sido vendida ontem mesmo por uns ridículos  26,8 milhões de dólares (23,8 milhões de euros), num leilão da  Sotheby's   em Nova Iorque, tornando-se assim na obra mais cara do pintor belga. É caso para se dizer que hoje em dia o princípio do prazer se paga absurdamente caro.

Stan Lee

É bem possível acreditar-se em heróis, talvez muito mais do que em super-heróis, neste caso porém, torna-se absolutamente provável conseguir-se acreditar em ambos. Stan Lee  foi, ele mesmo, um herói poderoso de uma mão cheia de gerações. O seu super-poder foi o de criar personagens que, apesar de habitarem um espaço de fantasia e misticismo, eram, cada um deles à sua particular maneira, tão humanos e relacionáveis como qualquer um dos seus fãs. Stan Lee e um dos seus personagens icónicos, Spiderman. A sua deslumbrante genialidade foi a de nunca permitir que na equação de um personagem seu, o processo criativo pendesse demasiado para o absurdo, sem alguma âncora narrativa que o agarrasse para sempre ao imaginário realista do mais comum dos mortais. Assim se explica o sucesso desta lenda e das suas criações, que o acompanharam ao longo dos 95 anos da sua vida e que indubitavelmente lhe prestarão o bom serviço de perpetuar o seu legado. Stan Lee (1922 - 2018)

Dia dos Finados

Dos melhores dias de um ano qualquer...

Icónico

David Bowie por Terry O'Neill (1974) Bem tarde a descobri,  Exposicao Iconic Bowie , mas, ainda fui a tempo e muitos de vós também poderão ir. Apanhem esta fantástica exposição fotográfica no Arrábida Shopping (Gaia), pois dizerem que o Bowie morreu será sempre 'fake news' no coração de quem o amou.

Fútil, fútil...

Os perdidos abraçam a esperança no Brasil. (...) Quero morrer do meu próprio veneno, (...) Cale-se!

Praia dos Banhos

Todas as estátuas de sal vão desaparecendo perante o rumor do mar. Até me lembro do exacto instante diferido da sua queda. A manhã estava pronta. O Sol na extensa espera da aurora, que não era feia nem bonita. Havia tantos suicidas na família que cheguei a duvidar que fossem todos aparentados. Pequenas borboletas insónias trazendo às costas as consciências e afogando-as no escuro. Todos eles estátuas seguindo viagem na desenvoltura do salitre. Quando mergulhei a cabeça, pareceram-me todos mortos, mas eram só tios e primos afastados por muralhas em meu redor. Acabaram todos em tempestades e fúrias e tristezas e vergonhas heróicas, com as cabeças entre as mãos e o sal a fecha-los nas suas cavernas para sempre. Venho sorver ar às nuvens da madrugada e trago ainda um rasto de vozes agarrado ao cabelo como algas desencantadas. Vozes rasteiras que rompem por momentos o ataúde do mar. O tempo e a areia salgada esqueceu-os. Mesmo eu só me recordo de uma bruma envidraçada de braços cúmplices...

Passar o ar a 4 rodas

Renault 4L BIC ballpoint pen drawing, A3 size Luis Silva www.luissilvacars.com

Saudades de ver bons filmes (XVII)

. .. surpreendentemente góticos e grotescos. O filme de Robert Aldrich " What Ever Happened to Baby Jane " (1962) vem quebrar muitos 'telhados de vidro' à época.  O mais patente de todos refere-se ao 'hollywoodismo em queda', em efeito, a drástica mudança do, até então firmemente estabelecido, sistema de estúdio, vigente e perpassante em todos os seus aspectos inerentes, para um cinema libertado, produzido independentemente, e assim, desimpedido do jugo omnipresente da 'fábrica de cinema' dos estúdios que prevaleceu em indiscutível hegemonia até princípios dos anos 60. - Predominantemente durante os anos 30 e 40 do século passado, a vida de um qualquer actor, realizador, ou variedade de artista ligado a esta maravilhosa indústria, nascia, vivia e morria sob a mão controladora destes dirigentes tirânicos. Neste filme em particular assistimos à história opressora de duas irmãs. Uma, Baby Jane Hudson (interpretada por uma irrepreens...

Tiros certeiros na Censura

Robert Mapplethrope "Man in a Polyester Suit" (1980)

Saudades de ver bons Filmes (XIV)

...absolutamente ternos e belos. Maravilhosos. Extraordinariamente perfeita a utilização do " Adagietto" (da Sinfonia N°5) do Mahler neste filme. É como se a música, sem recurso a mais artifícios, nos colocasse na frustração, na pele inquieta, na paixão incompleta do compositor  Gustav von Aschenbach , personagem exemplarmente interpretado pelo Dirk Bogarde, e nos fizesse também sofrer ao assistirmos o desenrolar da sua obsessão. Brilhante.