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A mostrar mensagens com a etiqueta Poemas de outros

Medo? Não! Descanso.

  não chamem logo as funerárias, cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto, medo? só que o sangue vibre ainda na garganta e qualquer mão e meia me encha de terra a boca, sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira, saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra, ornatos, espadanas, lágrimas, últimas musicas, não é como no escuro o trigo que ressuscita, sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o sangue alvoraçado nos braços e nas têmporas, que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis, cortem-me cerce o sangue fresco, que a terra me não côma vivo, [excerto] Herberto Helder, in “Ofício cantante – poesia completa” assírio & alvim, 2009

Sorri (mesmo assim)

  “Sorri quando a dor te torturar E a saudade atormentar Os teus dias tristonhos vazios Sorri quando tudo terminar Quando nada mais restar Do teu sonho encantador Sorri quando o sol perder a luz E sentires uma cruz Nos teus ombros cansados doridos Sorri vai mentindo a sua dor E ao notar que tu sorris Todo mundo irá supor Que és feliz” João de Barros

Fechar gavetas.

  Estar vivo é abrir uma gaveta na cozinha, tirar uma faca de cabo preto, descascar uma laranja. Viver é outra coisa: deixas a gaveta fechada e arrancas tudo com unhas e dentes, o sabor amargo da casca, de tão doce, não o esqueces. Luis Filipe Parrado

Depois do Jantar, deserto.

Joan Margarit, in "Misteriosamente Feliz"  

Sentidos Parabéns...

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,  Eu era feliz e ninguém estava morto ." Aniversário (1929) - Álvaro de Campos

Restauração

"Risquei o último fósforo e estou agora vazia, não esperando sequer o deserto. Posso de novo sublinhar os livros sem pensar noutros olhos, numa vontade que não coincida; como quem se despe de portas abertas, luzes acesas, buracos na roupa, indiferente ao desejo de vizinhos e espelhos. Sou finalmente o único fantasma da minha vida inteira." Inês Dias,  in "Um raio ardende e paredes frias"  averno, 2013

A Morte Saiu à Rua

Rui Caeiro. 1943-2019.

O Sangue dos Géneros

Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar. Os homens vertem sangue por doença sangria ou por punhal cravado, rubra urgência a estancar trancar no escuro emaranhado das artérias. Em nós o sangue aflora como fonte no côncavo do corpo olho-d'água escarlate encharcado cetim que escorre em fio. Nosso sangue se dá de mão beijada se entrega ao tempo como chuva ou vento. O sangue masculino tinge as armas e o mar empapa o chão dos campos de batalha respinga nas bandeiras mancha a história. O nosso vai colhido em brancos panos escorre sobre as coxas benze o leito manso sangrar sem grito que anuncia a ciranda da fêmea. Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar. Pois há um sangue que corre para a Morte. E o nosso que se entrega para a Lua. Marina Colasanti Edições Rocco, 1993.

Queixa das Almas Jovens Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola mais um letreiro que promete raízes, hastes e corola. Dão-nos um mapa imaginário que tem a forma de uma cidade mais um relógio e um calendário onde não vem a nossa idade. Dão-nos a honra de manequim para dar corda à nossa ausência. Dão-nos um prémio de ser assim sem pecado e sem inocência. Dão-nos um barco e um chapéu para tirarmos o retrato. Dão-nos bilhetes para o céu levado à cena num teatro. Penteiam-nos os crânios ermos com as cabeleiras das avós para jamais nos parecermos connosco quando estamos sós. Dão-nos um bolo que é a história da nossa história sem enredo e não nos soa na memória outra palavra que o medo. Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro somos vazios despovoados de personagens de assombro. Dão-nos a capa do evangelho e um pacote de tabaco. Dão-nos um pente e um espelho pra pentearmos um macaco. Dão-nos um cravo preso à cabeça e uma cabeça presa à cintura para que o corpo ...

Madeira-de-Sonho

Na madeira velha, baratucha, riscada, da mesinha da máquina de escrever há uma paisagem, feita de veios, que só uma criança pode ver ou o eu mais velho da criança, uma mulher sonhando quando devia estar a bater à máquina o último relatório do dia. Se isto fosse um mapa, pensa ela, um mapa decretado para memorizar podendo ela talvez percorrê-lo, ele mostra cordilheira atrás de cordilheira esbatendo-se no deserto nebulento, aqui e além um sinal de aquíferos e um possível bebedouro. Se isto fosse um mapa seria o mapa da última idade da sua vida, não um mapa de escolhas mas um mapa de variações sobre a escolha maior. Seria o mapa pelo qual ela poderia ver o fim das escolhas turísticas, de distâncias azuladas e arroxeadas de romantismo, pelo qual ela reconheceria que a poesia não é revolução mas uma forma de saber por que tem de vir a revolução. Se esta mesinha de madeira baratucha, produzida em massa, vinda da Companhia de Gás de Brooklyn, produzida em massa porém duradoura, presente ago...

Fútil, fútil...

Os perdidos abraçam a esperança no Brasil. (...) Quero morrer do meu próprio veneno, (...) Cale-se!

(Meditação debaixo da tília do Jardim.)

Recordar torna o mundo mais exacto com réguas de fumo, ângulos perfeitos de olhos nos astros  -- e a inocência daquele céu pardo das manhãs inconcretas que todos se lembram de ser azul e não verde para lhe chamarmos oceano ou folha de árvore. A realidade é mais confusão, máquina-doida-de-repetir sombras inconcluídas, bocas dependuradas nos ramos e nas corolas, destinos de morder o vento, narinas nas flores, conluio de pássaros com o sol, as plantas enganaram-se e deram rosas em vez de incêndios, construção da Cidade da Morte com pele e cal, ervas pisadas por espectros  -- e este cheiro tão bom a sonho que torna o mundo mais efémero e real. As aves nos fios telefónicos alimentam-se de palavras. José Gomes Ferreira Poesia .IV Portugália Editora 1970

..."Espaços cheios de gente de costas"...

...O que eu gostava era de me afeiçoar a um motor, ligar a cabeça aflita à ignição, arrancar o corpo erguido, fugir do fim. O que eu queria era escrever, escrever flores impossíveis, peculiares como as palavras de Elsinore. E, em meu redor, alevantada já de toda esta minha perdição, a natureza armar-se-ía de mim, à porta das cabeças de todos os irredutíveis. O maravilhoso Cesariny a dizer o que jamais consigo...

Chão

Não sei se te lembras de que dia foi hoje Dos sonhos alcoólicos de grandes e-feitos Das cirroses de nuvens de gomas Se morreste também algures de ressaca Tu que sorrias sempre com o fígado Não sei Se quando caminhas te lembras De andarmos descalços sobre os mesmos vidros As mãos umbilicais e os copos envaidecidos Se quando caminhas Nas ruas que hoje foram nossas E hoje são de ninguém Ainda saltas ou se te sangram os pés Se pavimentaste o chão Como fizeste com o mundo Se já não vês o quadro E não te lembras do Zeppelin de chumbo Que atirámos ajoelhados ao espaço Algo em mim não quis saber Que quando florimos no deserto já éramos História Que da dinamite que dizimou a paixão Nasceria um peixe-lápis (Quanto não pode um sinónimo contra um canhão) E com ele desenharia esta salva de tiros em verso Para que o teu chão e o teu mundo nunca esqueçam O que teimas em esconder debaixo da pele Mas a pele teimará para sempre em te lembrar Rita Pinho Matos in FLANZINE ...

É tanto isto tudo

19. Cá em casa tudo bem: o sofá quieto a olhar a televisão desligada; os livros cansados de existir na estante; o candeeiro apagado pela teimosia do dia; os pratos escorrem o sangue da fome imaginada; os lençóis esticados pela morte aguardam-me; eu à frente do computador tento escapar-lhe, inventando outro de mim; a música parou; ouvem-se pássaros e outras vidas próximas; parece verão mas é apenas ficção; é tanto isto tudo e eu sou tão pouco; vou comer o último pedaço de chocolate; sei que não te importas depois de fumar e antes de fodermos. F.S.Hill "Gesso" DSO Novembro 2017

Porque hoje é seu aniversário

 - Adeus - Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,  e o que nos ficou não chega  para afastar o frio de quatro paredes.  Gastámos tudo menos o silêncio.  Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,  gastámos as mãos à força de as apertarmos,  gastámos o relógio e as pedras das esquinas  em esperas inúteis.  Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.  Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;  era como se todas as coisas fossem minhas:  quanto mais te dava mais tinha para te dar.  Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.  E eu acreditava.  Acreditava,  porque ao teu lado  todas as coisas eram possíveis.  Mas isso era no tempo dos segredos,  era no tempo em que o teu corpo era um aquário,  era no tempo em que os meus olhos  eram realmente peixes verdes.  Hoje são apenas os meus olhos.  É pouco, mas é verdade,  uns olhos como todos os o...

Ramalho continua muito Nosso.

Toda a gente conhecia o Ramalho e essa foi a sua maior tragédia.  Muitos dias de volte-faces valeram-lhe demasiadas gargalhadas impróprias.  Perdeu os ouvidos a quem sussurrava: " Um Poema por um Café ".  Esqueceram-no demasiado depressa os mecenas de circunstância, pagadores de umas cervejas em troca de uns sonhos legítimos. Puseram-no de parte, a ele e às epifanias que o arrebatavam.  Ao Ramalho, ignorava-se como ao resto dos retratos dos tolinhos exóticos que habitam e constituem a alma das pequenas cidades, e quando não fosse possível ignorá-lo, evitava-se-o. Então, desaparecia por espaços compridos e ninguém fazia grande caso disso. Vez por outra lá era mencionado, mas já a título póstumo, só por alimento das dúvidas de que poderia até ter sido alguém a quem se erguem estátuas, se cortam fitas por rabiscos no chão público ou se dão nomes a escolas. Foi um pensador e um filósofo, um Poeta. O Ramalho sempre teve cabeça para as matemáticas, ...

Corpo visível

a esta hora entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha diurna dos calceteiros na praça e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos braços da sua estrela à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro uma carta uma letra muito fina extremamente caligráfica onde a aventura do homem que devolve as palavras que lhe são remetidas deixou a sua marca e o duque da terceira levanta o braço comentando seguido pelas aves que acordam a duzentos e mais metros de altura o que não é ainda a grande altura sim sim não são quem sabe dentro do grande túnel digo-te a vida esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e rosada como a proa de um barco bateira que me trás os dados e a roleta onde no branco ou no preto devo jogar jogando-me contigo malmequer bem-me-quer ou muito ou pouco ou nada o que só com as mãos pode ser soletrado só nos teus olhos nos teus olhos escrito dentro do grande túnel digo-te a vida o moço que há uma hora não fazia senão fumar cigarros o mesmo que julgou...