Eu era novo e só pensava nas coisas como um velho. Olhava pela janela e atirava migalhas imaginárias aos pombos com os olhos. A Praça da Cidade antiga movia-se com a precisão de um relógio. Uma quantidade astronómica de pessoas desfilava lá em baixo, em círculos aparentemente aleatórios, debicando com os pés, cada paralelo, cada laje de granito da beirada da rua que guardei de memória, marcando a cada passada silenciosa e a cada encontrão respeitoso um compasso raivoso, competitivo. Defronte, os arcos de pedra, indolentes, choravam desgaste por cada nova foto que lhes roubavam. Era inescapável. Mesmo fechada, estores corridos, olhos tapados, cortinas encerradas, a janela da frente queria-me mostrar tudo, e eu queria ver também. Tudo. Tinha o meu mundo inteiro na cabeça, dois ou três pontos de terra que conhecia bem de alguns livros que ensimesmei, tudo antes do medo, um troço de relva cagada pelos cães dos vizinhos, sete lojas abertas e sem ninguém, quatro pesso...