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O Homem-Espelho no 13 de Maio

 "OLHA O PORCO, O PORCO NO ESPELHO!" Por favor não me negues mais, estou cansado de não existir, de não importar. Ontem mesmo nem quis saber de me limpar por trás. Dir-se-ia que é por estar tão gordo que a minha mão que limpa a merda já não consegue atingir o esfíncter de onde esta surge. (baseado em uma história real) Fui existir outro dia com uma crusta de merda nas culotes intoleráveis. Uma fila castanha de aeroporto onde só as moscas aterram. Esfrego e esfrego e é só papel atrás de papel poluído por esta inabalável frustração. O cheiro da nulidade tornou-se tão insuportável pelas três da tarde que me abriu as narinas à epistemologia desta acção. Daí em diante evitei tomar banho, apenas para que o meu próprio odor pudesse emergir do fedor desta ciência inabalável. Por favor voltem, por favor todos vós retornem...Eu limpo-me! - Sou negacionista, sou hipócrita, sou carente....sou tão carente! Guincho a todos os vidros que encontro na esperança que me reflitam, nenhum devolve...

O dilema daquele talento que nos faz.

  Tenho algum azedume em mim, tenho. Sou um corpo só feito de cogumelos a fruirem a podridão de imensas frustrações irresolvidas, ainda que encimado por um cérebro intacto, quase bonito, quase genial, mas, além disso, " Eu não sei se algum dia eu vou mudar ", mas sei que a nova geração de cantores/músicos/cantautores tugas, arranjou a perfeita fórmula para levantar vôo deste marasmo asfixiante que o panorama artístico português nos tolhe à nascença. Eu não quis nascer nesta sobra de mim. Porém, muitos quiseram e fizeram-no. Há uma geração inteira de músicos, músicos digo com saliva colada ao céu da boca, porque isto está mais gritantemente exposto nesta álea criativa, todavia não lhe seja exclusiva, e explora um filão que me engasga a boca de vómito pelos ouvidos. Estes artistas , ou alguém por eles, descobriram que se convidassem outrém de bom talento, ou melhor, de talento apenas, para cantarem ao seu lado, poderiam aspirar a algum sucesso. Deu, dá resultado! Assim que assi...

Doze anos escravo!

  A vida, continua vertiginosa, como a montanha de onde desabei, e que jamais escalarei. Jamais! Estou certo disso, agora. Doze anos depois, continuo a querer ser escritor. - Mas que grande tolice! - E, dessa dúzia de vida, retiro a única lição possível: Apesar de todas as boas intenções das frases feitas, querer apenas não basta, nunca basta. É preciso sempre conhecer-se alguém que protagonize existência onde nós não conseguimos nem deitar um mero bafo de respiração à tona. E mais até, não basta apenas conhecê-lo, esse providencial mecenas inoportuno, necessitámos de alguma sinergia quase fantástica, de parte a parte, uma espécie de " quid pro quo " imperial, suficientemente sólido para nos conceder uma oportunidade de alcançar esse patamar místico onde, hoje em dia, um escritor, bom ou mau, existe de facto. Um bom editor, um excelente publicista, um magnífico gestor de carreira. Dois ou três autores já consagrados que nos dêem o seu aval, e escrevam qualquer treta sem grand...

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  Os que trabalharam no dia a seguir à revolução também foram patriotas. Há demasiados feriados neste país. Demasiadas 'pontes', dias santos, concedidos e afins. O excesso de nada se fazer cria cidadãos que exigem ainda mais displicência, mais opacidade de visão face ao avanço necessário da edificação desta nação tão maltratada pela perspectiva externa. Pois o desinteresse só produz mais insipidez. Não são os dias de ócio pré-estabelecidos que nos fazem melhores, são as conquistas que se fazem, trabalhando, para conseguirmos um horário laboral que nos permita, consequentemente, usufruir desse tempo livre que todos merecemos e necessitamos, de uma forma que mantenha o país são, funcional e competitivo.  Portugal, durante o período negro da 'crise' financeira 2008/11, chegou a ocupar o 9º lugar no ranking de países com menos feriados no mundo. Na parte superior desta lista, estava o México, com apenas sete feriados. Hungria, Reino Unido e a Holanda com menos dias de folga...

Batalha das Putas 'Boys Band'?

  Neste frívolo confronto, que basicamente só opõe os 'NSYNC' aos 'BACKSTREET BOYS'. Sou todo Boys! - Peço-vos que não me acusem de nada. Não me coloquem em 'caixinhas ' acostumadas aos estilos próprios dos iconoclastas. Sou o que sou. É verdade que este confronto não passa de uma frivolidade, um conteúdo ôco, uma putaria sem sentido, mas há tanta gente atrás deste confronto que se torna digno de uma referência. "NSYNC' ou "BACKSTREET BOYS'? - Qual deste estrume cheirarará melhor? Não tenho resposta, pois este género nunca me acamou realmente. Aliás sou-lhe tão adverso, que quase me impossibilita a própria gestão da escolha. Contudo, e como me requisitaram essa opção, entrego-me e escolho. - Sou "BACKSTREET" dos três costados. Porquê? Porque nenhuma canção dos acólitos do Sr. Timberlake me põe o motor em rotações devidas em altas engrenagens. Ou seja, nenhum dos seus temas me arrasta a ser bimbo pela duração da canção. Contudo, dois o...

A ilusão de morrer.

Aqui estou no pouco esplendor que expresso. A tornar-me mais e mais fraco à medida que envelheço e perco a parca noção de humanidade que um dia posso ter tido. Só antecipo resultados finais de má sorte. Dor, doenças malignas de inescrutáveis resultados, possibilidades de incontáveis suicídios sem paixão, paragens cardíacas no galgar das escadarias de S. Francisco. Atropelamentos fatais nas intersecções de estradas mal frequentadas. Facadas insuspeitas pelas noites simples de uma pacata Vila do Conde. Ontem quis ir à médica de família, talvez me pudesse passar algum veredicto. Não fui capaz. Não admito os médicos e as suas tretas 'new age'. Há menos de meio-século atrás, esta mesma inteira profissão fumava nos consultórios e pouco ou nada dizia sobre pulmões moribundos. A casa na praia valia mais que o prognóstico verdadeiro impedido. Aqui estou, contudo. Ainda aqui estou. Trapos e lixo vivem melhor as suas existências que eu. Escrevo isto, bebo, escrevo, mais três cigarros. Que...

A Humidade no Yoga

Sejamos realistas, qualquer homem que decida integrar um 'estúdio' de Yoga, que maioritariamente é atendido por mulheres (é verdade, fui ver as estatísticas.) , mulheres dedicadas a melhorarem-se, é certo, mas mesmo assim, vendidas ao apelo daquelas indumentárias que envergam, porque são as roupas a isso destinadas, e portanto têm de as usar... porque..porque sim. Isto é demasiado errado! Eu sei. As mulheres devem (não) TÊM de ser livres para fazerem, serem e usarem o que desejarem. Porra! Se acharem o Yoga ridículo (como eu acho que é), afastem-se disso, não o façam. Se, por outro lado até quiserem fazer Yoga nuas, façam-na. É uma coisa que existe.(outra pesquisa que fiz.) - Nunca me excitarei mais com a nudez do que com o seu mistério. - A questão aqui prende-se com a natureza mais básica do ser humano. - Tanto homens como mulheres, vagueiam em um lodo primordial de excitações constantes. Estamos armadilhados para fodermos! - Somos assim, não há como contorná-lo. Assim que, a...

O (estranho) dilema do Évora.

Toda a gente gosta de futebol e touradas. Poucos admitem gostarem de touradas, mas gostam, muitos. Isso é lá com eles, não venham é depois chorar baba e ranho sobre aquele cão agastado de pústulas e solidão que viram abandonado ao pé da A2 quando se dirigiam até ao Algarve para tostar os pouco miolos que possuem. Como em tudo nesta vida, dois pesos e duas medidas, nunca resultam,  Já sobre o futebol, o fartote de gente que vive aqueles pontapés, cabeçadas e peitaças, é de um ridículo estudo que fiz em conversas pelas diversas empresas onde trabalhei, amizades que travei, conversas ébrias que escutei e literalmente quase toda a gente que conheci em 51 anos de vida, confirmando-me a estupidez do mundo. Não só o meu, o português, o europeu...o mundo inteiro. O mundo inteiro é absurdo nas suas paixões por bolas! Agora, quando saímos destas áreas e nos dirigimos a outras modalidades, assistimos a mais dramas. Há drama em todo o lado. Tomemos em conta o mundo do atletismo. E, não somente...

O estigma da inclusão

  Poderão os ventos da liberdade varrer os próprios muros que por vezes erguem? Todo o progresso requer rupturas, avanços, alavancas que rebentem os tampões demasiado bolorentos, e fracos, e ainda assim continuamente estabelecidos como regra ' ad eternum '. É uma boa coisa isto de se rebentarem os moldes que sempre nos pareceram indestrutíveis: sejam estes, do racismo, do machismo, da xenofobia e das liberdades mais fundamentais, a religiosa, a sexual, a ideológica, a artística, etc etc.. É uma revolução abrangente do espírito humano votado a romper com um passado bafiento, ansioso por explorar todos os caminhos que sempre lhes ficaram bloqueados por esses 'poderes' de pedra-atlas, que jamais se deixaram erodir ou finar. Entretanto, muita coisa mudou na última década, muitas vozes sempre mudas ganharam palcos relevantes, e foram necessários ajustes. As mudanças surgiram, em grande parte por concessões de poderosos interesses financeiros que não as compreendem de todo, m...

Os novos 'Apóstolos'.

  Apostolar é a tendência. Pouco importa sobre o quê ou se, de facto existe uma emergência racional a escalar o raciocínio que lemos ou escutamos daquilo que lemos ou que nos dizem. A acção é inerte e reflecte apenas uma necessidade egocêntrica; a de conseguir 'hits', 'likes', 'seguidores' ou, de algum modo preservar a intenção desnorteada de cavalgadura do interlocutor que a expressa. A plêidade de impropérios expostos nestes dislates, jamais rivalizaria com a ordem segura de uma própria noção de realidade. São pressupostos não atendidos. Hoje em dia, nem tampouco necessitam de o ser. A desrazão evoluiu tal, que as oportunidades apetitosas de auto-promoção simplificam-se pela variedade de plataformas sociais onde poderão ser veiculadas. Assim que, qualquer hominídeo com dois terços de um cérebro funcional, poderá, se assim o decidir, regurgitar seja o que for, sobre quem for, sobre toda a salubridade da razão e da sua proporcional harmonia com um arrazoado rumo...

Por fora do mundo.

  Se não apresentarmos presença regular em nenhuma rede social, o que somos? Alguém me disse que eu era um 'aborto', só por não estar. Outro, afirmou-me ser eu um ' dejecto ' do mundo contemporâneo. Lixo, basicamente. Há mais. Um amigo delineou melhor esta minha ausência deliberada: postulou-a assim: ' És fruto de uma minoria que ainda tem esperança...?' Quem, eu? Gostei tanto dessa frase que decidi vir aqui, ao 'meu mundo', expressar a minha secessão do mundo real, que é tudo menos isso. O mundo real de hoje, existe nas redes e quem lá não estiver, não existe. Logo, EU. não existo. Aos amigos que ainda se preocupam: estou vivo, meramente. Existo, por birra, mas, não farei mais parte de nenhum mundo que me obrigue a ser contribuinte para uma existência subjugada. Ando por aqui. Quem me quiser, encontra-me. Fácil!

Confundir os sentidos

O grosso destas nossas vidas são canções.  Pensem bem; onde melhor se ajustam aqueles momentos mais perfeitos ou terríveis? Na música. Admito aqui e ali algum poema, algum trecho sublime 'daquele' livro que me engendrou formas de me sentir justificado por existir, admito-o, sim, porém, foram sempre as canções da altura que me avançaram, detiveram, que me significaram.  Provavelmente vivi, ou vivo confuso com tanta coisa (não vivemos todos?), certamente que opto por uma postura que não é social, não é 'amiga' de ninguém. Escolhi a caverna em vez do prado. O buraco em vez do céu. A prisão liberta, em vez da liberdade agrilhoada. Se houve instantes de abertura, esses revestiram-se sempre de sons. Onde melhor me encaixaria, nisso, nessas músicas. Como se houvessem outros que me sentissem igual e que, só por isso, me fizessem parte. Me entregassem a justificação necessária para poder fazer parte. Para mim, foi sempre como se ouvir determinada música me dissesse que era exact...

Hare Krishna

  E, depois de tudo isto, após todos estes anos de textos publicados em blogs, no facebook, em editoras vampiras, no raio que os parta...depois desta aventura castradora pelo mundo da literatura...literatura, hã? No decurso e também no resultado posterior sinto-me encastrado naquela música do George Harrison - " My Sweet Lord ". Há algo para se procurar, todavia nunca bem sabemos aquilo que buscamos e acabamos às voltas na rotunda da ansiedade. O sentido esfuma-se e resta-nos somente a procura. Buscar é bom, não encontrar frusta. - Há que continuar, dizem! Também a vida toda assim o é, o George percebeu-o, eu, nem por isso, fui ingénuo por demasiado tempo, começo a entendê-lo agora.. Quero que a busca se fornique em fanicos de carne e ossos. Necessito já de respostas. Sou mais Jm Morrison que George Harrison. Encontrar o meu caminho bate à porta da ansiedade com punhos furiosos. Essa noção de paz oriental bovina não me satisfaz. Karma? Isso é para meninos. Eu preciso de saber...

O Último Poema

Soa-me tão estranho ter tantos poemas espalhados por tantos livros não publicados. A dada altura, já nem bem sei de que livro é este, ou para que livro escrevi aquele...Escreve-se e depois encaixa-se onde nos apetecer. Há, talvez, uma clara liberdade na obscuridade! Um dia, todos estes poemas estarão ocultos em um disco duro, com proteção de 'password', e dificilmente alguém conseguirá re-purga-los para o mundo. Nesse dia estarei já morto e tudo isto não passará de um fútil exercício de egocentrismo. A questão fundamental é: para quê? Faz tempo que deixei de acreditar no 'pai natal' e na noção de que se escreve por que tem de ser, é um imperativo fisiológico que escapa à razão. Ontem mesmo, tossi tanto que me pareceu sentir um dos pulmões a fugir-me pela boca. Para quê tudo isto então? - A eternidade? O legado? - Tretas! Todos estes poemas, contos, novelas, romances acabarão em um imenso descampado de lixo. Serão lixo, nada. Até estes pensamentos o serão. Ninguém, jamai...

O Café dos Felizes

  Entrei naquele café fugido do frio lá de fora.  Foi ocasional, condicional quiçá, não fui para ali atirado, mas entrei ao resguardo, sobretudo. Pareceu-me tão acolhedor; duas ou três pessoas, cada uma sem telemóveis nas mãos, sem Tv, música ambiente mansa e fluída, sorrisos e aromas que nos sentam gratos.  O dono acercou-se e transportou-me para casa, sem imposições de falas comerciais. Pedi um chá e ele acenou com a cabeça. Quem é que ainda faz isto? Ao meu lado uma rapariga da minha idade olhava o horizonte e começava a mexer o seu café com leite com a colherzinha alongada. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio. Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. O café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um redemoinho. Eu encontrava-me sentado mesmo ali. O café tinha quatro pessoas, cinco com o dono. A rapariga continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima.  F...

Tolerância à lactose lida.

  Quando era novo, a minha mãe comprava meio queijo limiano todas as sextas, que, em princípio, seria para todos lá de casa, mas eu gostava muito de ler: "As Crónicas Marcianas", "Viagem ao Centro da Terra" e todas as revistas de Super-heróis que comprava no quiosque do Altino com uma mão, enquanto comia queijo, desbragadamente, com a outra. Assim, o queijo acabava-se em um instante. Muito, por que lia tanto quando era novo, até mais do que agora, apesar de continuar ainda a comer imenso queijo.  O Freud talvez fosse capaz de explicar isto, mas o Freud serve para tudo. Face a qualquer tribulação, vem o Freud em auxílio, explicar tudo. O Freud e o Fernando Pessoa, que tinha tantas sombras diferentes, que qualquer inexplicável ele me resolvia.  Fui adolescente desde muito cedo. Não tive período de infância, comecei a trabalhar para ser homem, novo, e a estudar todas as leituras possíveis com uma curiosidade infinita. Mas tive uma sorte espantosa, porque tive amigos - ...

Saudades de ver bons filmes (XIX)

Selvagens. Livres. Experimentalistas como a própria Vida... Por vezes, a vida mostra-se mais dura do que parece ser possível aguentar, e começa-se a fingir que já  nem notámos a passagem dos dias. Tampouco já nem reparámos nos disfarces daqueles que nos rodeiam e o que nos apetece mesmo é mandar tudo às favas e partir. Despedirmo-nos de tudo um pouco e sair à aventura antes que passe a nossa vez. Metermo-nos à estrada, desfrutando deste mundo maravilhoso por todo. Contudo, epifanias desta natureza são coisas que requerem o seu quê de esforço. Não é coisa de somenos deixar-se uma vida inteira para trás das costas. Assim que encolhe-se os ombros e retorna-se ao facebook ou ao sofá. Mas os heróis insuspeitos existem, e foi o caso de Chris McCandless (interpretado no filme por Emile Hirsch). - Certo dia simplesmente decidiu tomar fôlego e colocar em prática o que muitos apenas sonham às escondidas. Foi. Tanto se dedicou à gloriosa tarefa de ser um puro espírito-liv...

A rubrica da Madalena Patusca IV

Puxou a colcha mais os lençóis para a frente, levantou-se e acendeu a luz pálida do candeeiro da mesinha. Três palmos ao seu lado, o Senhor Barbosa sonhava com galáxias. Havia-as visto no Sábado no cinema. A temperatura caíra lesta durante a noite e ele apertava-se na colcha almofadada como um filho no colo de uma mãe. O filme continuava-lhe no sonho. - Tenho de ir trabalhar - murmurou Madalena, e ele retomou a posição inicial de barriga para cima. Mas logo acordou. O dia chegara com as suas vozes de mistério, embrulhadas no mesmo silêncio de sempre, mas agora havia algo diferente a secar-lhe o bafo do sonho. A janela que se abria para a praça saltava divisões, e no quarto havia uma dupla cortina a bloquear a entrada da luz da manhã. Na mesa-de-cabeceira do seu lado havia um rádio-despertador cujo chinfrim incomodativo só seria devido daí a mais uns quinze minutos. Ulisses Barbosa carregou em um botão, detendo-o e sentou-se na cama a dar pancadinhas no queixo, como se tentasse d...

Pensamentos Avulsos XVIII

Saiu de casa pela hora da ceia. Voltou de manhã um homem pior. Entrou em casa, apagou a luz do corredor e só guardou os risos das crianças mais pequenas. Ainda trazia a cicatriz da navalhada traiçoeira, caída das portas que foi observando de um lado e do outro do corredor da vida injusta.  Eram só portas fechadas. E nenhum Natal as abriria jamais. Andou assim um bocado no corredor escuro, ante o riso dos infantes, trocistas. Acabou caído na lingueta do rio, adestra à estátua da rendilheira. Pôs-se em pé, sujo daquela gosma nauseabunda conhecida e voltou. Hoje espera pelo novo ano. Ingrato por estar ainda vivo.

A rubrica da Madalena Patusca III

Eram duas e um quarto quando lhe bati à porta. Recebera a carta nem há vinte minutos e puseram-se-me logo insustentáveis tanto as pernas como o coração. Procurei anos e anos agarrar-me a todas as horas tépidas. Inutilmente. Cada fim do dia era um fim. E nem me esforçava muito por tentar reter o Sol no céu, até o conhecer. Hoje de tarde, pôs-se tudo em um emaranhado de nevoeiro sujo, de rugidos industriais assustadores e de frio. Sobretudo frio. Um frio pior do que o de antes. Hoje de tarde pôs-se tudo Inverno. Mas já nem apetece acobertar-me mais como outrora. Vou desembestada pelas ruas da cidade e sou toda a cidade, como ele é da cidade e eu sou dele. - Como assim, não me procures mais? - Estava deitada na cama em roupa interior, vesti o roupão e desci os três lanços de escadas até à caixa do correio. Quando a abri com aquela chave pequenina e vi a sua letra fiquei eu desse tamanho. - O que quereria ele dizer com não me escrevas mais? - Esperava-o nessa tarde e até lhe preparei um...