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Altino cansado da Vida


- Não tenho nada a dizer da minha vida profissional, apenas que uma gravata é um nó corredio e, embora invertido como está, enforcará um homem se ele não tiver cuidado.
O médico observou-o, intrigado. Revelava uma extensa fieira de dentes brancos e sólidos e uma careca encrespada e suave como um pêssego. O Sol da manhã coagulava musgo nos rebordos da janela do consultório. Mais além, a estrada do Comendador perdia-se no túnel da sua visão. Quase no fundo, onde já quase bifurca com a Calçada da Cancela, um velho homem muito bem vestido vasculhava detritos com uma bengala, jogando-os para a berma.
- Senhor Neves? - Interpelou-o o médico.
- Das Neves. - Corrigiu este.
- Como?
- Que me chamo Altino das Neves e não "Neves", como o senhor doutor me chamou. É um erro muito comum. Vê, está aqui escrito o meu nome correctamente na sua ficha. - Soergueu-se sobre a secretária para lho apontar. - Está a ver?
- Sim, claro. Peço-lhe desculpa. - No fundo dos olhos do aleijado o médico adivinhava uma réstia de malícia. - De maneira que o melhor será prosseguirmos com o seu historial. Evidentemente, isto já é um grande progresso. - Assentiu o doutor Mascarenhas.
Altino tentou sorrir, mas a sensibilidade da perna impediu-o. Soltou um grito desgarrado que escorreu pelos corredores do centro de saúde. Tapou a boca logo a seguir.
- Que tem? - perguntou o médico.
- Pensei que seria o senhor doutor a dizer-mo.
O doutor Mascarenhas não dera o seu habitual passeio matinal, porque lhe morrera o cão na noite anterior e tinha-se posto rabugento ainda mal o dia raiara. Não estava de todo disposto a conversar, mas o seu paciente, sim.
- Evidentemente - respondeu o médico - e acredite que ninguém mais do que eu deseja poder diagnosticá-lo o mais rápido que possa, mas é difícil ler nas entrelinhas, logo, assim que me seja possível saber um pouco mais sobre o senhor Neves e os seus...
- Das Neves, senhor doutor. É como lhe disse, são coisas que as pessoas dizem sem pensar. Já levo uma vida inteira disto. - Desta vez sorri. - O senhor doutor parece incomodado, sente-se bem?
- Não se apoquente. De modo que se queixa da perna esquerda, alguma queda abrupta, talvez um esforço exagerado. Alguma fractura mal curada, quiçá? O melhor será observá-la. Levante a perneira da calça até onde conseguir.
- Tive um tio, coitado, que vivia em um lugar sem flores, sem luz, sem sol, que se cansou do escuro e já nem dormia nem nada. Tinha a mesma expressão na cara que o senhor doutor tem agora. Sofre de insónias doutor Mascarenhas?
- Já lhe disse para não se preocupar, a calça, por favor...
- Era assim estampado como o senhor doutor. Vivia ali exilado e fazia-lhe muita falta a minha mãe, sua irmã, que sempre cuidou dele. Já lhe tinha dito que era solteiro? Coitado, vivia ali para os lados de Altona, em uma casa antiga do senhor Barão Raposo D'Alvarenga. Conhece?
- Senhor Neves, por favor. 
- Das Neves, senhor doutor, Das Neves. É só uma questão de tempo, de hábito entende? O senhor doutor lá chegará. Tinha muitos livros o meu tio Artur, e lia-os por ordem cronológica e também alfabética. Lia-os todos, da primeira à última página, até os anúncios.
Doutor Mascarenhas desculpou-se e abandonou o consultório para ir urinar. Passara a noite quase toda no hospital veterinário a fazer afagos ao cão moribundo que respirava através de uma membrana externa que pulsava a espaços eléctricos e era a única coisa que ainda o mantinha vivo. Do dramático instante da decisão em desligá-la até ao Centro de Saúde para dar início ao seu dia de consultas, foi um salto, que não passou por nenhuma casa-de-banho.
- Estou muito preocupado consigo senhor doutor - continua Altino logo que este adentra o consultório - o meu tio Artur tinha esse mesmo olhar raiado de fios de sangue que o senhor tem, e dois dias depois, ao pôr do Sol, apareceu morto no beco por trás da casa do senhor Barão Raposo. Por acaso era muito boa pessoa o senhor Barão. Ora veja lá, deixar um estranho morar-lhe na casa só porque era irmão da sua amante. Muito boa pessoa mesmo e um homem cheio de vigor. Tinha cá uma voz! Já o senhor doutor, fala fraquinho e esses olhos não inspiram confiança nenhuma. O melhor é ir ver um médico. Tem piada! Um médico a ir ver outro médico. Suponho que se devam conhecer uns aos outros, certo? O meu tio Artur dava-se muito bem com o seu médico, o doutor Ivo Ramos, conhece? No fim, não lhe adiantou de nada. Alguém o atropelou e depois fugiu do local. Pior, atropelou-o, moveu o corpo para a cangosta por trás da casa do senhor Barão e depois é que fugiu. Já viu uma coisa assim? Ele há pessoas...
A paciência do médico fervilhava em um barril de bílis. Ergueu a vista para aquele homem sentado na sua frente e despejou-lhe um longo olhar severo de reprovação. Acto contínuo, vai à gaveta do seu lado direito buscar um martelinho de reflexo e antes que Altino continuasse a balbuciar mais qualquer coisa, levantou-se e aproximou-se deste.
- Esteja absolutamente quieto agora, este é um exame de grande precisão.
A intenção do doutor Mascarenhas era a de provocar um estímulo externo no tendão patelar de Altino das Neves, com vista a assertar, pela avaliação do reflexo rotular, possíveis problemas neurológicos no paciente.
- Vejo que o senhor doutor é canhoto. Tem piada que o meu tio Artur também o era. São tão parecidos.
- Por favor cale-se, não se mexa. Tenho de fazer isto com muito cuidado, no sítio exacto. - Afirma o médico.
Antes mesmo de levantar o martelinho, Altino deita outro grito a plenos pulmões. Tapa a boca de seguida, como o fizera da primeira vez.
- O senhor doutor desculpe-me, é que a dor a mim dói-me mesmo antes de a sentir. Tome estas muletas por exemplo, são muletas de antebraço como o senhor doutor bem deve de saber. Uso-as, não por serem mais modernas, mas por serem geralmente menos incómodas que aquelas que se usam nas axilas. Eram do meu tio Artur que mesmo antes de morrer atropelado já as tinha no barracão por baixo das escadas. O homem era bruxo, parece-me. Quem é que se lembraria de comprar umas muletas sem delas precisar, certo? No fundo, do seu mal veio a minha sorte. Calhava dele ter sobrevivido ao atropelamento e lá teria eu de comprar umas muletas para mim. Coitado do meu tio! A sua morte ainda me poupou uns tostões, que estas coisas não são nada baratas.
Ao doutor Mascarenhas só lhe ocorria coçar a careca em puro desespero.
- Não mexa um músculo - alertou-o - nem respire sequer, a sua reacção a este teste importantíssimo dir-me-á tudo o que preciso saber para o diagnosticar rapidamente.
No instante que termina de dizer aquilo toca o telefone. A sua determinação abalou-se um pouco, suava profusamente, e o interior, bem entendido era um turbilhão de diferentes emoções. Recuou um pouco encostando-se à sua secretária. 
- Agora não posso falar que estou a meio de um exame muito delicado. Tenho de despachar isto sem demora. - respondeu ao telefonema. Sentia palpitações no peito e o braço esquerdo pesava-lhe o mundo. Teve de se ir sentar de volta à sua cadeira, sem chegar a fazer o exame reflexo. 
- Precisa de ajuda senhor doutor? - questiona-o Altino - O médico entretanto principiou a sentir-lhe o fôlego a fugir. Desapertou a gravata à pressa e também os botões de cima da camisa. Uma dor irradiante irrompeu-lhe pelas costas e tentou justamente pedir ajuda àquele estranho homem. Todavia, só os seus olhos falavam por esta altura. 
- A mim quem me ajudou foi um taxista - insiste Altino, usando o dossier da sua ficha médica como abanico mesmo junto ao rosto do doutor Mascarenhas. - É que fui atropelado também, sabe senhor doutor? É já quase um mal que aflige muito as pessoas da minha família. Há o meu tio Artur, cuja história o senhor doutor já conhece. Mas, também a minha prima Sónia que faleceu arrebentada por um tractor, e o meu avô Malaquias. Esse miserável foi ali na Nacional, passado a ferro por um semi-reboque como se fosse um cão. O que é preciso é lembrarmo-nos desta gente, sempre. É que sem memória esvai-se o presente no passado já morto, não acha senhor doutor? Doutor Mascarenhas?
O médico jazia sem vida na sua poltrona alcochoada. A língua pendente da boca a expelir um rasto ténue de cuspe, os olhos, ainda muito raiados de sangue da noite por dormir, abertos como lanternas. Dera de entrar um Sol muito brilhante pela janela atascada de verde. A manhã iria a meio e lá fora acumulavam-se pacientes por atender.
- Francamente! - exclama Altino das Neves muito incomodado - ele há pessoas capazes de tudo para não nos ouvirem.


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