Avançar para o conteúdo principal

Piquenas estórias de amore XI


Perdido em um mar cintilante de nevoeiro e solidão humana, encontra-se um pequeno lugar todo ele rarefeito e da cor do chumbo, que raramente recebe visitas de turismo.
Falecida a mulher, Mr. Olyphant, bom cidadão insuspeito, de cem quilos ou mais de carne conduzida só por vontade, realizou aí a viagem de comboio com que sempre sonhou.
Em proporção à cidade onde vive, este sítio pacífico de rocha imaculada sempre lhe soou como aquele singular brilhante de fancaria que atentamente observou excepcional, deitado à sorte de quem o perdeu, no piso armado a cimento bruto, que era o salão de baile onde a conheceu. Apreendeu-o como o extraordinário, em meio a uma desoladora circunstância de espaço reduzido, com tanta, tanta gente acotovelando-se na pretensão ou fingimento de que dançariam.
O facto de se terem descoberto aí, de se terem visto um ao outro aí, entre a turba barulhenta e suada, consumiu-o. Uma boa consumição, daquelas que nos alimenta a vida em vez de a diminuir em um desespero insuportável. O extraordinário instante em que realmente se aperceberam que nem todos os clichés são frutos demasiado maduros da cabeça pouco criativa de alguém, também não lhe escapou como metáfora maravilhosa do acaso. Ambos se riram, muito antes de se aproximarem um do outro e a milhas de imaginarem que a dança seguinte os uniria pela vida fora.
Célebre em quase todos os blogs, pacotes e agências de viagens do hemisfério norte, precisamente pela sua irreverência ao comum dos lugares que os turistas procuram, esse lugar quase Xanadu não tinha turistas que o procurassem, nenhuns, ninguém. O que levou Mr. Olyphant a pensar que os turistas, invariavelmente ou serão estúpidos na sua natureza, ou nem de casa haveriam de sair. Assim, aquele bilhete comprado em suores esmorecidos, trouxe-lhe a confirmação da sua excelência, por fim. Para ele, aquele lugar era um mundo completo, com montanhas, vales, mercados e igrejas, jardins e cemitérios e pequenas casas sem ninguém.
Paz.
Após pagar a promessa que fizera à defunta, ali, entre o nicho opaco da serra, deixou em uma gruta, que era pouco mais que um rasgo vaginal em um penedo virgem, duas notas; uma de duzentos para a santificar definitivamente perante a igreja que ela até ao fim acreditou precisar de dinheiro para a salvar, e outra, significativamente mais relevante, onde lhe contou toda a história comum, desde o instante em que se baixou sob a turba e apanhou aquele destemido brilhante, que agora ali depositava, incrustado em seu anel de noivado, até ao instante, meramente imaginado onde finalmente se reencontrariam combinados, para viverem eternamente naquele lugar só deles.


Mensagens populares deste blogue

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro.
Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio.
O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou-o de…

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Um filho que não se chama assim.

Tenho dois filhos, um tem vinte anos e a outra dezasseis. A explicação estereotipada das abelhas e dos pássaros, das florzinhas...não sei... não funcionou de todo. Talvez por minha inépcia, ou talvez que por enquanto, tenha funcionado melhor num que no outro, resta saber. Os dois juntos são o cão e o gato e ambos insistem que não fazem mal a uma mosca. É verdade. Sou eu quem mata todas as moscas, melgas e aranhas cá de casa, e ainda que em muitos momentos destes anos todos, aqui e ali me parecessem bicharocos terríveis, toda esta experiência vem sendo uma zoologia bonita de amor, repleta de macacadas e aves de voos tristes.
Ou isso, ou então aqui aplica-se aquela velha apologia de que tudo está destinado a encontrar o seu próprio caminho. Tentei ensinar-lhes isto de rosto sério mas eles olharam para mim e desdenharam tudo com um encolher de ombros. Não são parvos nenhuns os meus filhos, e nesta urgência de aprender a ser pai, ensinaram-me eles a constante lembrança de não falar coisa…