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Bukowski entenderia isto.


Noite novamente, nada para dizer, 
quiçá compre um planeta ou faça amizade com um diplomata.
Limparei o cinzeiro, no mínimo

para me lembrar do meu pai. 
Primeiro preciso limpar os óculos desta névoa de sempre

- já não me dou com as minhas alucinações.
Coçar o escroto, beber água para lavar a inutilidade.
Um leve toque na porta, entra a gata, 

atrás dela vem o resto da noite exigindo colo. 
Tempo para outro cigarro e depois deixo as cortinas subidas, 

reparo que o lixo faz um carreiro de formiga até ao caixote.
Haverá alguma coisa simples que eu possa fazer pelo meu sofá? 

Talvez pintá-lo de amarelo 
ou instalar-lhe um elevador do chão até ao meu divórcio
um bidé gigante para poder tomar banho a dormir.
Noite ainda,
de que me serve viver se não posso estar vivo no meu próprio inferno? 
Esta gota de tempo nos meus olhos

não é uma lágrima, mas cuspe
cuspo, cuspo e cuspo, continuo sem nada para dizer,
como a explosão de uma estrela vermelha na ponta de um cigarro.
Sei que se pudesse fazer a barba,

as pulgas em redor do meu desgosto desapareceriam.
Os buracos dos meus olhos são só temporários, eu sei.
Todos temos um momento na vida em que mijámos no lavatório 

Preciso instalar um lavatório na ponta do sofá
entre a almofada crepom e a minha insuficiência
renal.
Atirei um prato à noite e parti-o por maldade 
que dirá disto a gata? - Nem se mexeu, só um olho.

Tenho de lavar a minha roupa. Está suja de inveja e orgulho.
Mas, 

como posso eu lavar a minha roupa quanto ainda não construí o lavatório-sofá?
Preciso urgentemente de um amigo diplomata. 
Conheço um que trabalha em uma loja de ferragens
quererá ele ser meu amigo?
Maldita noite que dura uma vida!
No chão sou mais criativo. 
Vou deitar-me no chão e escolher o meu próprio planeta, azul.
Hei de pintá-lo de amarelo, ou castanho, da cor da merda,
que é mais fácil do que limpá-lo dos meus medos.
Pode ser que arranje um emprego num restaurante,

a lavar os restos dos outros.
A minha vida e a minha sala e o meu sofá

são como um circo de pulgas amestradas enormes, 
perseguindo-me à volta da minha existência inconveniente.
Continua noite lá fora.
Graças a deus tenho uma maneira inocente de olhar para a natureza.

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