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Poema XXXII


A vida lá fora é um documentário. 
Do segundo andar penso em palavras densas para mandar para a rua,
atirá-las ao filme em constante rodagem.
Daqui contemplo o ar das gaivotas e quero esse vento. Sou fraco.
Lá fora há gente com preocupações. 
Aqui vive-se um tédio burguês. 
As janelas duplas encerradas 
fecham a vida para dentro de um computador. Sou fraco.
Não é por alguém que fraquejo
só me diluo no ar ou escorrego como a chuva-lágrima
a solidão alimenta-me na boca
até um dia.
Um dia meto-te a lua no ventre
para que nasça o sol de manhã.
Esta manhã nasceu do frio, suficiente. Sou fraco.
De tronco nu, destapado, estendido, os ombros queixam-se
os pés queixam-se do chão
a cabeça queixa-se do céu. De não voar.
Sou fraco!
Se a alma fosse etérea já teria partido para longe 
de todo este sangue inútil.

Comentários

  1. A alma é energia. Os 7 gramas que perdemos no último sopro. A energia que nos faz mexer o cérebro e despoletar a criatividade como em «Um dia meto-te a lua no ventre/
    para que nasça o sol de manhã.»
    Todos estamos de passagem até um dia. A forma como preenchemos cada um dos dias até esse é que nos atira ao mar de gostar de estar vivo.

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