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A sorte posta a nu.

O seu grito estridente de vitória foi inoportuno. Parecia despropositado, embora totalmente justificado. Terá sido somente a constante falta de oportunidades que nos assolava a todos, que o fez destoar, ou talvez o simples facto de Josefina não envergar naquela tarde, a modéstia da roupa de baixo, expondo sem compromissos o seu corpo ainda rijo de mulher madura, perante o aglomerar da multidão de vizinhos que se reunia todas as semanas em sua casa por esta hora. Mas, confesso que o solavanco da sua felicidade absoluta, no exacto instante em que viu o alinhamento perfeito daqueles números no ecrã iluminado da televisão, terá sido em parte, também uma imensa alegria para mim, e para todos os outros infelizes, que sem poderem gozar do luxo de possuírem uma televisão em casa, acabaram por presenciar  ao custo do mesmo valor, o desaire de mais semana de miséria e um espectáculo completo de variedades, composto por um número de magia extraordinário, (a sorte grande de Josefina) e de um bailado exótico de corista  de circunstância, tudo no correr de um momento inesquecível. 

Josefina, que recebera tantos homens nos seus tempos de mulher inteiriça e trabalhadoira, pouco se lamentou com o repelão deslumbrante que o seu salto de delírio nos proporcionou. E quem a poderia assaltar com essa repreensão? Eu não, com certeza. E não haveria decerto, homem algum naquela saleta acanhada que pudesse expressar um ganir de castidade forçada defronte daquela visão saltitante do paraíso.
Apesar do seu passado dito "desavergonhado", mais fruto das condições de abandono do que de outra coisa, ela sempre fora uma mulher de uma timidez pia, nunca em nenhuma circunstância, dada a afrontamentos de exposições sem sentido ou despudores de avanço. Josefina era uma mulher de família, na falta de uma outra definição melhor para lhe dar, pesasse o triste fado de não ter nenhuma que pudesse chamar de sua. Éramos nós a sua família mais chegada, e todos a reconheciam como sendo mais limpa na moral e mais séria em valores católicos, que muitas carpideiras que se encontram à tarde ajoelhadas nos púlpitos das igrejas.
Em algum determinado momento das nossas vidas, foi mãe, mulher, irmã, amante e amiga de todos quantos ali se encontravam.
Fosse como fosse, saiu-nos a taluda a todos naquela tarde, mesmo àqueles para os quais aquele corpo já não retinha qualquer segredo, pois nenhum de nós, eu muito menos vos garanto, havia alguma vez visto Josefina tão livre e descoberta de embaraços como naquela tarde em que lhe saiu o Euromilhões. Parecia ter rejuvenescido ante os nossos olhos, as carnes tornadas rijas e as peles rugosas esticadas em forma de seda, como quando tinha vinte anos, e os olhos, os olhos brilhavam com uma luz que quase nos ofuscava a visão do seu corpo nu.
Foi quando todos tomamos conta de que Josefina por baixo daquele roupão encardido, não envelhecera de todo, mas mantivera aquela compleição de beleza intacta e aqueles olhos verdes e encarniçados cheios de vida, talvez tivéssemos sido nós quem envelhecera e nem dera nota disso. Foi preciso a fortuna vir bater-lhe à porta para a vermos como ela sempre fora. Uma mulher linda.
Sem pensar duas vezes, que é coisa que nem faz muito o meu feitio, adiantei-me ao assombro de todos e depois de limpar as solas dos sapatos no tapete de juta na porta, aproximei-me daquela miragem que não desgrudava os olhos da televisão e beijei-lhe a mão com uma vénia.
- És um homem como os que havia no meu tempo - disse Josefina com uma gargalhada de granizo, e foi só então que lhe voltou a modéstia num lampejo de percepção. 
Abraçou o roupão em redor do corpo e laçou-o com o cinto.
- Desculpa a sem-cerimónia - disse-me ela -, mas estou há mais de cinquenta anos nesta vida e parece-me que nasci hoje mesmo.
Preparava-me para me atravessar ao comprido, certo de não ter resposta decente para aquilo, mas Josefina agarrou-me por um braço e não me largou.
O ténue fulgor de Novembro mal chegava para iluminar o interior arrumadíssimo da sala que mais parecia a montra de uma loja de penhores, mas pelo reflexo da luminosidade da TV no seu olhar, todos se aperceberam de três coisas inequívocas: que para a semana poderiam descobrir se a sorte lhes calharia, sentados nas suas casas em frente a um televisor a estrear, que Josefina mostrara-lhes o mapa por onde estaria disposta a navegar dali em diante, e que todos, exceto eu, deveriam sair imediatamente.
Três dias antes tivera em sonhos a revelação de que iria morrer numa sexta-feira à noite, e fechara-se na sua solidão, repartindo mentalmente a divisão póstuma dos seus haveres, fossem eles quais fossem, e o destino do seu corpo. Agora, ao olhar em volta para as paredes carcomidas de salitre que conservavam ainda as marcas de algum combate sem glória, riu-se numa enorme gargalhada agastada e preferiu fitar-me de frente com uma expressão de infinita meiguice. Sentiu que naquele instante já podia morrer sem incomodar ninguém, mas como a vida tem caminhos que parecem não ter fim, achou que este seria o melhor a tomar. Mal o último vizinho fez soar o trinco da porta, largou-me o braço e deixou solto o nó do cinto.

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(....) Começou com um grito inenarrável da Josefina. Um grito estridente de vitória que pareceu inoportuno, quase despropositado, embora totalmente justificado. E foi como se o céu rebentasse. Terá sido somente a constante falta de oportunidades que nos assolava a todos, que o fez destoar daquele silêncio pegajoso d…