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A água comanda a Vida


Vi gente a apaixonar-se porque lhes tremiam as mãos ao trocarem histórias de assuntos relevantes, conheci gente incapaz de aceitar o improvável, mas isto ainda não tinha visto. - Mentira, tinha sim.
Encontrei-as hoje de manhã, depois de já as ter visto à coisa de cinco semanas, e ainda mais duas vezes no ano passado. Ia caminhando aos meus afazeres, por nunca acreditar ser ainda possível, só por me obrigarem a viver em 2017, ou porque julguei que se faziam filmes em Vila do Conde.
As mesmas duas mulheres, reconheci-lhes logo pela pinta do detergente, amigas há trinta e sete anos ou por quanto o preço da água se foi tornando incontornável. Encontram-se no tanque para lavar a roupa e a vida, ali naquele baixio da estrada, onde o caminho amaldiçoa costas e cabelos armados. 
Depois, sentam-se lado a lado e à sombra mal parada da roupa a secar dobram em quatro, o tempo. A mais velha lê o jornal do LIDL e a mais nova fuma e recorta memórias de cabeça. 
Avancei aqueles leves degraus e perguntei-lhes os nomes, mas prometi-lhes reservas e por isso não os escrevo aqui. Apesar de curioso sou comprometido, às minhas promessas e histórias. Nunca as desmancho, por muito que me ameacem. 
Despacham toda a correspondência entre si, que chega a percorrer o longo percurso dos meses separadas, armam-se rígidas de orgulho e sobrancelhas inclinadas. Uma delas, a mais velha, ainda me quis espantar dali, não fosse eu roubar-lhes a água de todos. Jurei-lhe logo que só a queria escrever e que nem sede tinha. Ninguém que passa as interpela, nem por língua ou aceno, e sabem que tem aquilo tudo só para elas agora. A correnteza da edilidade, paga a peso de ouro, só delas por algumas horas, naquele tanque público, que nem topónimo é, onde enchem os cestos de roupa corada, que o maridos virão depois buscar. Sabem ao que vão e não brincam com a experiência do tempo. Voltam sempre antes da roupa ficar tesa de tanto sol, porque aquele gesto é quase planeado para um amor de repente.
Quando chove, disseram-me, dão uns pontos na vida dos outros, nos degraus abrigados que dão para a estrada e adivinham as cores das ideias das pessoas que passam. Na maior parte das vezes, ficam em casa a carregarem a máquina de lavar. É só quando se decidem a enfrentar o tempo das suas mães e avós, que realmente se tornam dignas de nota para uma breve história.

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