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Jogo das cadeiras

Sentado, ocupo um lugar esquecido pela idade. Incapaz de me agarrar ao verão, deixo-me ficar. Por respeito, ninguém comenta isto. É justo, mas tão triste em simultâneo. 
Entre todas as coisas boas há este mesmo espaço, se se considerar que cada coisa boa, ou má, ou mesmo assim-assim, tem apenas dois lados, sempre desenquadrados. - Deixem-me explicar de outra forma. -
Considere-se uma estrada de terra, por exemplo, rugosa, uma longa estrada atafulhada de pequenas pedras e torrões de terra soltos, sem fim à vista, com campos verdes desiguais dos dois lados. Terra arada de um lado, esmero, organização de milho infindável, protegido e desabitado, produto da mão humana. No outro, relva fresca, poças de água e muita bicharada invisível, ocupada a viver as suas vidas.
Pressente-se um qualquer movimento a qualquer momento, mais do que a simples brisa suave que a atravessa no sentido longitudinal, e de repente, no único caminho que a cruza de través, ao lado do pequeno barraco de madeira das ferramentas, surge um homem com uma barba desgovernada, e uma mulher de cabelo em copa densa, mais permanente que perene. Por cima de ambos, o movimento antecipado; esvoaçam falanges de andorinhas, sem rumo aparente. A espera que se me foi amontoando fez-me doer os músculos e o meu corpo tornou-se um lugar desconfortável. Ansioso pela próxima coisa boa, nem dei conta do tempo que desperdicei, a caminho de lugar nenhum. 
A mulher aproximou-se, determinada, mas de rosto meigo. Trazia algo nas mãos. Algo laranja, vivo. Difícil lembrar o que era. Vive-se tanto tempo, entre  lembranças foscas e o desespero de um futuro, que nem se repara nas coisas mais simples. Vive-se só um tempo de envelhecimento, e as coisas dividem-se em outras coisas, que por sua vez, também tem dois lados. 
As andorinhas sumiram-se do horizonte. O homem penteou a barba com os dedos e deu um grito curto. Só o milho se curvava agora com o vento. A mulher volveu atrás e continuaram ambos pelo caminho lateral, até serem dois borrões desfocados, depois dois pontinhos e por fim, nada.
Vive-se assim até ao momento em que a próxima coisa boa não chega. E a espera não acaba. E o corpo, sentado, não deixa nunca de doer.

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