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Mensagens

A ilha deserta do Mundo

  A lógica consegue colocar em contradição o interlocutor mais pertinente. Estes meses, semanas, estes dias, todos os minutos destes dias. Todos os longos e amargos segundos, vividos à margem da triste e isolada vontade de viver em pleno, de poder existir às abertas, de caminhar entre outros corpos quentes e normais, sem medos, suportado por mais abraços e beijos do que talvez mereceríamos em situações normais. Mais do melhor que realmente nos torna humanos, perto deste paradoxo insolúvel de realmente sê-lo. Junto ao equilíbrio pertinente e sem poder concretizá-lo. Foda-se. Sem poder algum, impotente, sem ter a capacidade de o poder fazer como nos apetece, só como nos dizem que deve de ser. Mas tem de haver soluções para este paradoxo. Se fosse mais inocente, diria: a realidade não existe realmente, logo, este problema também não. Parece-me portanto, que, mesmo assim, todos estes meses, semanas, dias, minutos, segundos profiláticos, são muito melhores do que a alternativa. É por is...

Fantásticos solitários e como encontrá-los.

 

O Tempo, essa ferida que nunca cicatriza.

  Julguei nunca me faltar tempo para me adoçar a amargura. Para ser bom marido, pai, avô, amigo, filho e irmão. Julguei nunca me faltar tempo para ser uma boa pessoa. Alguém que não espirrasse desdém, mirra e um ouro azedo pelos olhos. Houve alturas para arranjar respostas a perguntas impossíveis que nunca cheguei a dar, mas pensei que sim: que tenho tempo, vou sempre a tempo, nunca me faltará esse tempo. Fui tolo e consumi-me! Não, não tenho tempo nenhum. Ninguém já tem tempo para nada. O mundo é rápido. Tão rápido que nos rouba a noção do tempo que julgamos ter para as coisas. Para coisas, quanto mais para as pessoas, quanto mais para as pessoas que nos importam, sem esquecer, sem mágoa para substituir a dor pelo Amor, o azedume pela gratidão e o medo pela coragem de viver acima do tempo que nos falta, sobre o tempo que nos resta.

Amar Carolinas.

 

A vida é uma caixa de sapatos

Admito que os álbuns de retratos me fazem um pouco de espécie. As fotografias ali tem sempre um certo ar bovino, quase domesticado, irritam-me. Sabe-se de cor a ordem de entrada em cena, e criam uma lógica de tempo e espaço nas nossas vidas que talvez jamais tiveram ou voltem a ter.  Arrumam-se para ali organizados os momentos mais marcantes de uma vida. Mas porquê aqueles? E qual a razão para terem aquela ordem? Cronológica, a ver um grupo de pessoas a envelhecerem em fragmentos de papel " gloss ", página a página? Ou pior, álbuns de efemérides? Infindáveis. Todas as vidas nutrem estas composições singulares. Existe um paradoxo pré-ordenado para se angariarem estes instantes, em vez daqueles outros, os passageiros, que, sem que nos apercebamos importam mais que os anteriores. O casamento da Mi e do Carcará; que magra estava ela naquela altura, linda mesmo, porém, aquilo quiçá era a bicha solitária a comer-lhe por dentro. Mais tarde seria o marido a devorar-lhe a vida inte...

Saudades de ver boas Séries V

  É provável que alguém já o tenha feito. Tanto se diz à solta pela internet (vejam o caso deste blogue!) - Porque não? Sei que eu próprio já o fiz e sinto-me satisfeito por isso. Grato por ver além do comum, independentemente de outros já o terem feito. - Se pareço arrogante ao dizê-lo? Pareço, claro! Mas que me importa. - Haveriam mais era de colocar o Ricky Gervais em uma classe à parte. Um segmento da comédia negra onde o sarcasmo vulgar sai de si mesmo e voa mais alto, pelas nuvens esparsas da panaceia televisiva.  Antes de mais é preciso estabelecer que este senhor é um escritor de excelência. Deixem de lado  " The Office " - o original. Genial que foi, esqueçam-no por agora - e pensem em alguém que duramente subiu as escadas do mundo cruel do entertenimento a tentar inexoravelmente marcar o seu cunho pessoal sem criar dívidas com o sistema estabelecido. Pensem nisto e tentem perceber as dificuldades que alguém assim não teve de ter para enfrentar obstáculos tão he...

Coleccionar Caves

 

Saudades de ver bons filmes (XXIII)

  ...grandioso Poitier. saudoso Poitier. corajoso Poitier. Enorme Sidney desbravador. 

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Estaciona junto à praia.

  Nada, destes tempos irremediavelmente fúteis e perigosos, jamais nos prepara para o desinflar inexorável do nosso ego grotesco. Muito menos as redes sociais! Deus nos livre! Fomos nos condicionando para uma visão exarcerbada de nós próprios e aceitámo-la incondicionalmente, como se se tratasse de realidade pura e crua. Inchámo-nos todos os dias por nulidades e, sem que percebamos acabamos em Tik-tok's que nem sabemos o que são. Somos 'memes' adulterados, apenas uma visão surrealista de nós próprios. Uma espécie de movimento digital de alguém, que pode, ou não, ter algo de significativo para dizer, mas, que nem interessa, pois o interesse só se condiciona pela multidão de quem nos ouve e vê, logo, não somos verdadeiramente. Estamos a ser, não como podemos, mas como tentamos que outros nos percebam, e isso nunca é real. É uma construção. Assim que acabamos por perceber que, nesse contexto, não estamos a ser grande coisa. Seguimos como sonâmbulos rumo ao desastre. Porque inf...

Este mundo é para quem gosta de chocolate!

  Há oito dias de um ano já a morrerem-me. Estou tão cansado deste caminho e faz oito dias apenas neste calendário. Que será de mim nos restantes, estarei aqui ainda? Estou exausto de estupidez. A estupidez põe-me em salmoura, deixa-me o cérebro reduzido uma planície salina de calor e solidão.  Os dormentes enfurecidos saem do céu platinado, todos cheios de crostas de lama podre nos olhos, endurecidos em todos os restantes lugares do corpo. Cada passo batem com os cornos numa realidade de limites abertos que não toleram nunca. Dobram-se, dói-lhes o pescoço abaixo da cabeça em branco, e ficam com o equilíbrio em perigo. Todos os dias nasce mais um horror monótono que lhes baralha um pouco os cérebros. Mordem os lábios com força, e o que observam de liberdade no resto do mundo, parece servir-lhes de estímulo para mobilizarem as reservas mais íntimas de estupidez. É uma posição privilegiada, a da estupidez. é também um estado de escravidão, é pois, mas o resto do mundo permite-lh...

Peter Bogdanovich

  A morte aceita todos, é o que a faz ser tábua rasa da realidade de qualquer um. No dealbar de um novo ano, já leva o seu quilo de carne no rol. Tantos dias pela frente ainda...Em tempos ansiei por um documentário que ma explicasse até ver um filme de ficção e perceber que a realidade tudo imita quando é bem filmada, até a explicação da própria morte. Perdi a conta à soma de documentários sobre cinema que assisti, sobre os nichos do cinema, mas também sobre as mais decentes explicações específicas e muito pessoais sobre o que o cinema é, na perspectiva das diferentes interacções que cada um entrega ao seu próprio cinema, à sua ideia de cinema. Pois o bom documentário cinematográfico é também, em si mesmo, bom cinema. Quase ficção. E, na sua maioria encontrei a voz e/ou o rosto do Peter Bogdanovich .  Realizador de mão cheia, ainda que malogrado e desiludido. - Como não me identificar com ele? Será arrogância da minha parte ou pura empatia; - não cito títulos, são óbvios, algu...

O Portento morre cedo

  Saudades de ter amigos.  É, de todas, a que mais me assombra. Se antes me sentia essencial a um grupo, agora, e depois de me manifestar como sou, vejo-me nas franjas, onde todas as boas emoções se retiram deixando-me só no que expresso livremente porque sou. É um peso incomensurável que balança alguma se preparou para equilibrar. É uma força imbatível que nos derrota à partida: querer ter amigos e afastá-los perpetuamente porque queremos ser como somos. Um dia acordei e vi o abismo. Não era nenhum fosso, nenhum desfiladeiro entre coisas que existem para nos separarem. Era, tão somente, um branco nulo. Panorama de absurdo, onde um abraço surtia tão raro como um unicórnio, e a fala caía no terror do desuso do electrónico fácil.  Nesse dia percebi que sempre tive amigos contrafeitos. Vendiam-se-me com falsas etiquetas e pareciam-me tão verdadeiros que comprei tudo o que me abraçaram. Justo até sentir frio, um gelo oculto por baixo dos seus braços.  Mas, onde estão hoj...

Saudades de ver bons filmes (XXII)

 .    ..Absolutamente perfeitos! Isto porque, Wes Anderson vem depurando a sua infindável capacidade de contar histórias díspares e de as filmar de um modo que é absolutamente impossível de lhes ficar indiferente.  O seu último projecto: " The French Dispatch ", é pouco mais do que aquilo que fazer bom cinema havia sempre de ser.  Nele, Anderson conta-nos as visões de diferentes escritores de uma imaginária, mas grandiosa gazeta literária, de todos os modos impossível de ser em um país moribundo onde o seu centro (Kansas) se desmorona paulatinamente pela desgraça da estupidez humana, contagiando todos os seus territórios adjacentes e pervasivos. No processo imaginário criativo, saímos desse 'corpo pútrido' e somos atirados a uma 'Paris' condicional, que se denomina por " Ennui " - livremente traduzida como sendo: " Um sentimento de aborrecimento profundo e de se estar mentalmente cansado por não haver nada mais que nos interesse ou excite."...
  Faleceu uma das mulheres que me formou. Sofro muito. A par com a minha mãe, irmã, esposa e algumas amigas mais próximas, sinto-me fruto desta árvore portentosa. O esclarecimento não carece de feminismo, é somente a viga mestra da formação de qualquer indivíduo esclarecido. Mas claro, é preciso a entrega, o desprendimento das regras obtusas da masculinidade. Qualquer homem que se coloque na superioridade de algum patamar fictício, nunca compreenderá isto. A D.Rosa, foi a minha professora primária. Antes dela, só conheci a minha mãe, algumas tias, a minha madrinha e a minha irmã, depois do primeiro dia de escola primária, fiquei a saber sobre a existência das mulheres fora do sangue, e de como também estas nos conduzem os caminhos da vida. É que, uma boa professora primária não nos ensina apenas o BeàBá e a aritmética básica. Se for excelsa no que faz, conduz-nos o futuro e molda-nos a estrada que palmilharemos doravante. Assim aconteceu comigo. A D.Rosa (minha professora) e a D.Ge...

Saudades de ver bons filmes (XXI)

...misteriosos e absorventes. Mankiewicz faz o seu trabalho de casa e consegue desempenhos extraordinários de todos os protagonistas, sobretudo dos seus três principais actores femininos. Isto, em um tempo em que os filmes saíam dos estúdios como as salsichas emergem da máquina de as encher de carne, em série.  Dez filmes após este, dez filmes todos eles mais ou menos extraordinários (convém dizer) após este, Mankiewicz enterra-se no projecto de filmar " Cleópatra " (1963) com a Elizabeth Taylor e, sem culpa própria, acaba por afundar todo o sistema de 'estúdio' até aí dominante, em um desbragar cavalcante que mataria o passado inteiro, o seu próprio passado, e iniciaria a contra-cultura cinematográfica do Hollywood dos anos 60.  Todavia, isso seria depois, muito depois. Em 1949 " A Letter to Three Wifes " demonstra bem o seu génio ao adaptar um mero, mas muito rico conto publicado na "Cosmopolitan" neste filme fabuloso e tão contrário ao que era ...

Bom, bom, era ser como o Benjamim Button

Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente. Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa, mais lúcido e vívido. Ser expulso porque estou demasiado viçoso e saudável, recusar a pensão e começar a trabalhar. Trabalhar 40 anos até ser novo o suficiente para não imaginar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, se me apetecer. Estar pronto para o liceu. Não é fácil, mas estou na idade de enfrentar esse pesadelo. Em seguida o ciclo, a primária, o infantário. Ser criança e brincar apenas. Sem responsabilidades logo acabo em um colo, serei um bébé até ao retorno inevitável do nascimento. Por fim, passarei 9 meses a flutuar num spa de luxo, com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia até sentir um orgasmo e acreditar na felicidade por breves instantes.

Contra os canhões, defenestrar, defenestrar...

  Sou e serei sempre pela Paz graciosa e pura, mas este dia recorda-me tempos em que até aos mais mansos lhes saltou a tampa. Intriga-me esta ideia cimentada de sermos um povo de "brandos costumes"; recalcarmos tudo numa massa interior e cozemos cá dentro o aziago pão, em total silêncio de acções resolutas. - Intenica-me isto. Intenica-me tanto. (gosto desta palavra intenicar. É açoriana e muito bonita) - A Democracia é um bom conceito, é sim senhor, mas, vez por outra precisa da proverbial palmatória, para não sair dos eixos. Em que exacto momento da nossa História nos tornámos assim tão serenos e domesticados? No 1 de Dezembro de 1640 pusemos travão à leda placidez de 60 anos de sermos murcões e ajuizamos uma vontade colectiva posta em acção. Isto sim, é a verdadeira Democracia. Pois, quando esquecidos da devida reprimenda merecida, os mafarricos do passado retornam. retornam pois. Outras caras, outras palavras, outras filosofias mal disfarçadas, o fito porém, será sempre o...

Dia sim, dia não uma beleza antiga

  Eartha Kitt

Tudo branco pelas paredes negras.

  Ouvir o álbum branco dos Beatles enquanto encarreiro cigarro atrás de cigarro é um bom artifício de contrição contra a apatia que muitas vezes a vida nos impõe. O álbum branco aqui é meramente inconsequente, como qualquer outro o seria. Mais me importa a nuvem de tabaco que produzo e que a tudo se agarra. Aquelas garras de águia nevoeirentas trazem-me a distância da memória junto ao peito. O meu pai fumava em casa. O meu pai fumava na sua oficina de alfaiate. O meu pai fumava imenso, fumou até quase à minha idade actual, quando um médico lhe ditou uma sentença da qual não se pode esquivar. Depois desse dia, o meu pai jamais prendeu um cigarro nos lábios.  Porém, até então, o meu pai fumou muito. Sempre me pareceu um prazer simples que o agradava. E, nunca sequer, suspeito, ouviu o álbum branco dos Beatles enquanto baforava qualquer coisa e bebia muitas outras. Com ele na oficina, fumavam o meu tio, tanto ou mais do que ele fumava, tanto, tanto que o matou pela garganta, ou p...