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Mensagens

Hayao Miyazaki

A razão de pensar que a vida tem uma finalidade será sempre um alicerce para a construção de um homem. Os observadores, que entendem esta razão como substância humana, facilmente a discernem perante uns mais do que em outros. Talvez seja esta a molécula da genialidade. Se assim for, não tenho dificuldade alguma em apontá-la neste senhor: Hayao Miyazaki (1941-2018) Desde pequeno que gosto de banda-desenhada e de filmes de animação. Ao crescer, felizmente que não perdi esta propensão, apenas a depurei, e os filmes saídos do mítico Estúdios Ghibli (Tóquio), do qual Miyazaki foi co-fundador em 1985, sempre me ajudaram nessa tarefa tão grata de me deixar simplesmente deslumbrar pelas histórias encantadas que foram produzindo ao longo dos anos. Apenas para citar aqueles realizados por Hayao Miyazaki, recordo: " O Castelo no Céu " (1986),  " Totoro " (1988), " Porco Rosso - O Porquinho Voador " (1992), " Princesa Mononoke " (1997), ...

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro. Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio. O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou...

Textos Devolvidos III

Aquele Céu de um Cinzento Cristal O rumor fino das pessoas que passam pela marginal ainda em obras de alargamento suplanta o das marés vivas de encontro às rochas. Até em dias de nevoeiro cerrado engolfam o ruído sonolento da sirene de vapor, em efeito, o compasso da sua passagem contínua e embirrenta, só destrói a idílica paz marítima deste lugar de istmo rasurado dos mapas comuns. Uma tarde, David estava nas traseiras a tirar fotografias ao céu, quando percebeu que existiam demasiadas pessoas novas em Cabo Alvo. Como se de repente se tivessem reproduzido em número, do mesmo modo que o fazem os ratos, ou os insectos de bando, exponencialmente, por mero mecanismo de sobrevivência. Visto tudo em conjunto, era preciso reconhecer que a vida moderna tinha muito más intenções. Pareciam andar todos à deriva, a falarem cegos e sozinhos, alheios a tudo. Deixou de as fotografar, e foi à cozinha dar dois goles de uísque para não se lembrar de meter um outro ansiolítico pela goela abai...

Sons de Memória

Bernardo Bertolucci

A minha última recordação do trabalho deste grande mestre, foi a de uma noite de grandes chuvas em que fui exorcizado pelo filme "The Dreamers" (2003). Esta foi a altura em que senti que o realizador me examinou nu, com uma caixa de ferramentas para reparar males da alma. Veio a ser o penúltimo filme que dirigiu, e indiscutivelmente um dos seus melhores, espantou-me os mau humores todos como que com um ramo de urtigas. Bertolucci tinha uma forma muito diversificada de trabalhar, e contudo, é possível seguir-lhe os traços estilísticos em qualquer um dos seus filmes. Visceral mas encantador. Epopeico mas extremamente intimista em simultâneo. Foi sem sombra de dúvidas um dos derradeiros mestres desta arte que tanto amo, o que agora nos deixou. Qualquer um dos seus filmes acendia-nos uma fogueira em pontos distintos da alma, e tinha este extraordinário toque de midas, para decifrar identidades secretas nos seus personagens, partilhando-as connosco. O volume do seu trabalho t...

A rubrica da Madalena Patusca I

O resto do dia cismei aquele encontro. Quiçá mesmo o resto da minha vida. O coração de um outro é sempre uma escura floresta onde se aventuram apenas os verdadeiros apaixonados. Para o lado oposto da estrada já quase ficava outra terra, e ali não havia quase nada de amor-próprio. Como foi que ganhei coragem para estar ali naquela praça, naquele dia, naquela hora? Nunca o saberei. A minha vergonha era rija como se imaginaria que fosse o dorso de um rinoceronte. Encouraçada naquela frustração, perante o fim inusitado da faca do tempo, deixei-me estar.  Isto, até o saber ali, vivo. Nem sei porque me apetece contar esta vulgaríssima história de um amor estranho. Mas, como poderei resistir à tentação de reproduzir este nosso momento? Juraria, apesar de tudo, que aquele encontro, à deriva do que ambos éramos por dentro foi a grande excitação das nossas vidas. Mal lhe afaguei o cabelo, soube que também ele sempre me amara sem saber. E provou-me. Tocou-me no braço, e depois pegou-...

Black Friday?

Começar um novo Livro por Acabar Poema 5 Depois do primeiro olhar apanhado de surpresa fora das margens, ficaste sentada num nicho de pedra azul naquele novo absoluto pasmo que se sente face ao branco de um começo. Aí escreveste o nosso romance inteiro.  Um breviário. O ponto final foi a mais perfeita sentença que sempre imaginei para uma tarde só feita de olhos postos. Deslizaste-os lassos pelo meu peito assolado pela fome  de meses inteiros de iliteracia e aí deixaste a frase a começar um resto de dia para sempre. Logo despi todos os medos no calmo rio, defronte. Misteriosamente, libertou-se uma mecha do teu cabelo pelo vento do entardecer e os teus lábios nem se mexiam eram só o teu sorriso parecido a um fogo-de-artifício em câmera lenta, luzes lentas num fim de tarde quente de Verão, abrindo a minha frágil trincheira.. Falhar-te-á um dia a minha memória, e o que fomos ruirá, no primeiro vento que o ...

As Crónicas do Senhor Barbosa XIV

Clareara-se o dia. As nuvens pareciam um outro mundo só montanhoso feito de cal e pendurado lá em cima, em cima da sua janela. Notoriamente o senhor Barbosa perdera a batalha contra a própria determinação, mas quiçá ainda se pudesse salvar algo desta sua guerra. Lá fora, na praça lavada de paralelos, estava uma mulher parada ao lado de um dos pilares dos arcos. As outras pessoas passavam para aqui e para acolá, porém, aquela mulher não se mexia do seu lugar. Tinha um pescoço delgado e a cabeça atirada para trás, com os olhos presos à sua janela. - Não pode ser. - Pensava o Senhor Barbosa. No entanto, a sua razão esforçava-se por romper os véus da descrença e por compreender a situação. - Devo abrir a janela? - Continuou nos seus pensamentos. - Não. Não será nada comigo. Admirará apenas o edifício, certamente. - Todavia, de modo algum conseguia desviar dela o olhar, também. Pareciam ambos trancados um no outro. Fechados pelos olhos e oblívios a tudo o resto. Foi ela quem rompeu...

Perguntar não ofende.

Pergunto-me se ainda existirão editores valentes, impregnados daquela invulgar audácia que só cabe aos verdadeiros iconoclastas. Editores atirados a fugirem dos mercados e da necessidade de se sistematizar tudo ao ínfimo tostão da mais valia. Pergunto-me se ainda existirão pessoas assim, que liderem uma editora, ou que trabalhem numa. Pessoas assim que ainda se atrevam a ler blogs com trinta e cinco seguidores, que se deparam com um excerto como este que aqui apresento e que sintam curiosidade em vez de lástima. Pergunto tanta coisa em uma só frase que se calhar já os  afugentei... (...) O vento baixava dos telhados nas manhãs de Abril. E as nuvens ficavam lá no alto à espera de que o bom tempo as fizesse descer para o pátio. Enquanto isso ficava vazio o céu azul, deixava que a luz caísse toda no jogo do vento removendo a poeira e batendo nos postigos como o  assobio dos amoladores de facas. - Estás na mesma, que bom, fica assim. Nunca mudes meu filho, nunca. – Di...

Pensamentos Avulsos XV

Em que lugar viverá a humanidade de alguns que, regateiam e maralham, fecham as mãos, a carteira e o coração, mostrando o quanto são poderosos quando compram algo a alguém que realmente precisa, e, depois, mais adiante, esbanjam generosidade para com aqueles que não a necessitam de todo? - Parece tão simples isto, mas acontece sempre. - Já vi acontecer. Já me aconteceu.

Um filho que não se chama assim.

Tenho dois filhos, um tem vinte anos e a outra dezasseis. A explicação estereotipada das abelhas e dos pássaros, das florzinhas...não sei... não funcionou de todo. Talvez por minha inépcia, ou talvez que por enquanto, tenha funcionado melhor num que no outro, resta saber. Os dois juntos são o cão e o gato e ambos insistem que não fazem mal a uma mosca. É verdade. Sou eu quem mata todas as moscas, melgas e aranhas cá de casa, e ainda que em muitos momentos destes anos todos, aqui e ali me parecessem bicharocos terríveis, toda esta experiência vem sendo uma zoologia bonita de amor, repleta de macacadas e aves de voos tristes. Ou isso, ou então aqui aplica-se aquela velha apologia de que tudo está destinado a encontrar o seu próprio caminho. Tentei ensinar-lhes isto de rosto sério mas eles olharam para mim e desdenharam tudo com um encolher de ombros. Não são parvos nenhuns os meus filhos, e nesta urgência de aprender a ser pai, ensinaram-me eles a constante lembrança de não falar coi...

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Virna Lisi

iluminado

"le principe du plaisir" - René Magritte Consta que esta pintura “ Le principe du plaisir ” de René Magritte terá sido vendida ontem mesmo por uns ridículos  26,8 milhões de dólares (23,8 milhões de euros), num leilão da  Sotheby's   em Nova Iorque, tornando-se assim na obra mais cara do pintor belga. É caso para se dizer que hoje em dia o princípio do prazer se paga absurdamente caro.

Stan Lee

É bem possível acreditar-se em heróis, talvez muito mais do que em super-heróis, neste caso porém, torna-se absolutamente provável conseguir-se acreditar em ambos. Stan Lee  foi, ele mesmo, um herói poderoso de uma mão cheia de gerações. O seu super-poder foi o de criar personagens que, apesar de habitarem um espaço de fantasia e misticismo, eram, cada um deles à sua particular maneira, tão humanos e relacionáveis como qualquer um dos seus fãs. Stan Lee e um dos seus personagens icónicos, Spiderman. A sua deslumbrante genialidade foi a de nunca permitir que na equação de um personagem seu, o processo criativo pendesse demasiado para o absurdo, sem alguma âncora narrativa que o agarrasse para sempre ao imaginário realista do mais comum dos mortais. Assim se explica o sucesso desta lenda e das suas criações, que o acompanharam ao longo dos 95 anos da sua vida e que indubitavelmente lhe prestarão o bom serviço de perpetuar o seu legado. Stan Lee (1922 - 2018)

Vila do Conde

para Rui Pedro Tendinha Dormi pouco. Fiz trezentos quilómetros. Julguei ver-te várias vezes no caminho. Encontrei os teus cabelos soltos numa estação de serviço. Ao abrir sem querer o guarda-luvas redescobrirem o teu cheiro. Por duas vezes pensei na tua boca em estado de pura provocação. Eras quase tu e nunca me dizias nada. O cansaço deixa-nos tão vulneráveis. Um bom amigo levou-me para o Norte. Achou por bem que mudasse de paisagem, de companhias. Na noite em que chegámos bebemos tanto, ele ainda mais do que eu. De manhã não se recordava do fim da noite. Perguntou-me várias vezes se não tinha feito nenhuma asneira e não se mostrava tranquilo quando lhe dizia que não. Como se eu não fosse de confiança no que respeita a recordações. Havia um rio, havia rosas. Eu acho que tivemos sorte. O meu amigo só me pedia que não o deixasse sozinho, que tinha medo de não voltar a encontrar o caminho do hotel e no hotel a porta do quarto. Dormi sozinho. Antes ainda li alto uma tradução de ...

As Crónicas do Senhor Barbosa XIII

Fechada a última caixa, o Senhor Barbosa, atirando um murro à mesa, levantou-se, deu um safanão às calças, passou a mão pela barba crespa e densa que lhe dava ao rosto uma expressão feroz e, com uma voz retumbante, despediu-se: "Adeus velho mundo, adeus, adeus. Adeus esperança tão efémera. Puta que pariu os retornos, novos erros nunca apagarão os antigos." - Talvez tenha vertido aqui alguma lagriminha manhosa, daquelas que nos assaltam quando menos as esperamos.  Contava uma mão cheia de décadas no corpo e bastava-lhe de indigência caseira. Isto passou-se no maravilhoso dealbar do Inverno que fugia de ser mais tempo de Outono e gozava de completa liberdade.   Anulara a renda da casa frente a um senhorio exultante, despedira-se da EDP e da Indáqua que muito prontamente lhe cortaram os serviços de assistência - já não se importava - Podia morrer lá fora à chuva se quisesse, de joelhos, sobreaguado no declive da rua das Mós. Ao por os pés fora da casa, o seu rosto parecia...

Que Alguém Saiba que ando Seco.

Vendo o que me resta desta poesia como parte de um crowdfunding   que se destina a angariar fundos para a compra de uísque suficiente para conseguir escrever mais livros de poesia (ou qualquer outro género.)  que por sua vez acabarei por tentar vender, desesperadamente, para conseguir comprar mais uísque e assim prosseguir a escrever. e a beber e a escrever e a vender e a beber e a escrever...  E por aí fora... É uma espécie de boa causa!  - Mandem mensagem para Casimiroteixeiraescritor@gmail.com - (Nota: o ' c ' no inicio do endereço é mesmo maiúsculo ) (Nota 2: Podem sempre chegarem-se à frente e mandaram-me foder. Eu entenderei mal, mas é normal isto, pois sóbrio, entendo muito pouco do mundo de hoje. Prefiro escrever e beber até rebentar de infâmia.)

*...* Mais.

Coisas da mesma amálgama masoquista

Anda um homem, vivo, por pouco ainda vivo e extraordinariamente ainda cheio de vontade, a choramingar constantemente a mesma baba e ranho, lavados a seco para um nada higienizado de absoluto desdém, para depois assistir a isto: o saque do espólio dos mortos, ainda mortos e certamente já sem vontade alguma de publicar seja o que for. - Estão, tipo...mortos! Certo? Mas não, a altura é exacta, é sempre exacta ao ritmo da necessidade dos ganhos possíveis, da família, da editora, do raio que os parta, nunca dos fieis leitores, que esses são carneiros puros com moeda infinita incrustada na lã inocente do bom gosto. E mais, o texto tem de ser alto, levantado, sublime, pois é do Bolaño valha-me deus, um tipo que escrevia bem como o caralho mas que poucos serão os que, com genuína honestidade se chegarão à frente para descrever a emoção orgástica da leitura das duríssimas e dificilíssimas 1063 páginas do seu épico romance " 2666 " - ' A vida humana inteira está dentro destas ...