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Mensagens

Saudades de ver bons filmes (XIX)

Selvagens. Livres. Experimentalistas como a própria Vida... Por vezes, a vida mostra-se mais dura do que parece ser possível aguentar, e começa-se a fingir que já  nem notámos a passagem dos dias. Tampouco já nem reparámos nos disfarces daqueles que nos rodeiam e o que nos apetece mesmo é mandar tudo às favas e partir. Despedirmo-nos de tudo um pouco e sair à aventura antes que passe a nossa vez. Metermo-nos à estrada, desfrutando deste mundo maravilhoso por todo. Contudo, epifanias desta natureza são coisas que requerem o seu quê de esforço. Não é coisa de somenos deixar-se uma vida inteira para trás das costas. Assim que encolhe-se os ombros e retorna-se ao facebook ou ao sofá. Mas os heróis insuspeitos existem, e foi o caso de Chris McCandless (interpretado no filme por Emile Hirsch). - Certo dia simplesmente decidiu tomar fôlego e colocar em prática o que muitos apenas sonham às escondidas. Foi. Tanto se dedicou à gloriosa tarefa de ser um puro espírito-liv...

As Crónicas do senhor Barbosa XVI

Há pouco, de manhã, deparou-se-me a senhora Norberta, a vizinha do 1º esquerdo, e saudou-me levando os olhos ao céu. Tossi de imediato. O raio da gripe! - Que Inverno! - Disse-me ela após a pausa do cumprimento de cabeça. Fiz o mesmo, para não me estranhar mais do que o costume; "Sim, que Inverno!" - Exclamei elevando um pouco o saco do pão até à tosse, e só depois é que levantei também desajeitadamente os olhos. Aquilo pareceu agradar-lhe, pois sorriu pelo seu caminho descambado adiante. Era hóspede da irmã mais nova, com rótulo de pensionista, cujo marido se encontrava em situação particularmente vantajosa. A senhora Norberta partira a bacia dois meses depois de perder o marido, três anos após ter perdido o emprego na fábrica das calças. E a frase " parente pobre " que soa tão mal a uma irmã como a qualquer um, nunca a ouvi vir pronunciada desde o andar de baixo. Só que o chibo do marido da irmã, o grandessíssimo senhor engenheiro, conta tudo à vizinhança c...

Príapo em dúvida.

O Sangue dos Géneros

Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar. Os homens vertem sangue por doença sangria ou por punhal cravado, rubra urgência a estancar trancar no escuro emaranhado das artérias. Em nós o sangue aflora como fonte no côncavo do corpo olho-d'água escarlate encharcado cetim que escorre em fio. Nosso sangue se dá de mão beijada se entrega ao tempo como chuva ou vento. O sangue masculino tinge as armas e o mar empapa o chão dos campos de batalha respinga nas bandeiras mancha a história. O nosso vai colhido em brancos panos escorre sobre as coxas benze o leito manso sangrar sem grito que anuncia a ciranda da fêmea. Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar. Pois há um sangue que corre para a Morte. E o nosso que se entrega para a Lua. Marina Colasanti Edições Rocco, 1993.

Todas as inclinações das Flores

"It's ok to be angry...but not to hurt me..."

Textos Devolvidos VII

(...) O Septo de colunatas assim formado, é guarnecido por estátuas, sendo que a mais imponente de todas encima um lindo relógio, e em segundo plano, vêm-se os maiores tubos de todos, assim mesmo, mascarados à boca de cena. E por fim a frisa decorada por uma corrente de pequenas colunas majestosas, e de uma cornija ornada por dentículos, por medalhões e por rosáceas de um trabalho delicado, que completam a beleza celestial deste extraordinário instrumento. De tal forma o impressionou com a sua exuberância que o conseguia sempre descrever, assim, com todos os detalhes, mesmo após muitos anos. Que vergonha  Dan Brown,  - Disse Adães muito baixinho. - Não te teres debruçado sobre a beleza deste instrumento de Deus. Não acredito, que não te tenha tocado tanto quanto o fez a mim? Terás entrado sequer cá dentro? Terás feito algum esforço por esse monumental êxito de literatura? Literatura, Ah! - Largou alto a interjeição sem querer. E precisamente sob o mesmo, uma figura ...

A Falsa Ilha

Quem se dirige, rumo a nordeste, do extenso lavradio alagadiço para o interior da ilha falsa do Marques Trancão, nota logo a rápida elevação do terreno, oculta de outros pontos de vista, pelo espesso arvoredo e que faz de ponte com o resto do país. Após vinte minutos bem contados de marcha ao longo de tortuosos caminhos obstruídos por pedras enormes ou escavados em ladeiras escorregadias, com casas de paredões de barro largadas aqui e ali, ao abandono, chega-se à pátria do Trancão, e de quem quer que esteja em dificuldades com a lei. Gilberto Sidónio, "o pelintra", homem monumental, de espáduas quadradas e sólidas, com passadas elásticas, fez todo o percurso em doze minutos, e ademais carregava em cima da sua bárbara saúde, uma sacola impermeável de lona que quase parecia sua gémea em peso e volume. O interior sacrossanto da ilha é um baluarte que nasceu do peito de um bastião encaniçado, rodeado por pequenos fossos de água salobra e cães semi-selvagens que vagueiam...

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Monica Vitti

A rubrica da Madalena Patusca IV

Puxou a colcha mais os lençóis para a frente, levantou-se e acendeu a luz pálida do candeeiro da mesinha. Três palmos ao seu lado, o Senhor Barbosa sonhava com galáxias. Havia-as visto no Sábado no cinema. A temperatura caíra lesta durante a noite e ele apertava-se na colcha almofadada como um filho no colo de uma mãe. O filme continuava-lhe no sonho. - Tenho de ir trabalhar - murmurou Madalena, e ele retomou a posição inicial de barriga para cima. Mas logo acordou. O dia chegara com as suas vozes de mistério, embrulhadas no mesmo silêncio de sempre, mas agora havia algo diferente a secar-lhe o bafo do sonho. A janela que se abria para a praça saltava divisões, e no quarto havia uma dupla cortina a bloquear a entrada da luz da manhã. Na mesa-de-cabeceira do seu lado havia um rádio-despertador cujo chinfrim incomodativo só seria devido daí a mais uns quinze minutos. Ulisses Barbosa carregou em um botão, detendo-o e sentou-se na cama a dar pancadinhas no queixo, como se tentasse d...

Pérolas obscuras da internet

Ano novo, mesmas queixas.

Como sempre imaginei que assim fosse, tudo se resume a mãos dadas, a entregas desprendidas. A um amor primordial, pois. De outro modo como poderei racionalizar que um texto "x" valha mais que outro "y"? - Venham os teóricos patrões desta razão toda e discutam isto. - Não virá ninguém, eu sei. Escrever é uma bestialidade tremenda que só serve as aflições mais primitivas do ser humano. Em boa verdade, desde a véspera de seja o que for que escreva penso em publicá-lo, e aqui é quando me sinto agitado, mergulhado numa excitação quase juvenil. No dia seguinte, visto-me quase sempre de fraque melodramático. Todos os dias seguintes, são a mais triste festa de passagem de ano que alguma vez passei (e já passei por algumas bem taciturnas). O pior, é que todos os anos são piores que os anteriores. Tomara que o tempo tivesse parado algures cerca de dois mil e treze. Aí tudo ainda me parecia possível e vivia uma ingenuidade libertadora, propensa ao desejo férreo de jamais ...

Bloody Hell it's Christmas Day and i'm Still Drunk.

It was Christmas Eve babe In the drunk tank An old man said to me, Won't see another one And then he sang a song The Rare Old Mountain Dew I turned my face away And dreamed about you Got on a lucky one Came in eighteen to one I've got a feeling This year's for me and you So happy Christmas I love you baby I can see a better time When all our dreams come true They've got cars Big as bars They've got rivers of gold But the wind goes right through you It's no place for the old When you first took my hand On a cold Christmas Eve You promised me Broadway was waiting for me You were handsome You were pretty Queen of New York City When the band finished playing They howled out for more Sinatra was swinging All the drunks they were singing We kissed on the corner Then danced through the night The boys of the NYPD choir Were singing 'Galway Bay' And the bells are ringing Out for Christmas day You're a bum You're a punk You're an old sl...

Pensamentos Avulsos XVIII

Saiu de casa pela hora da ceia. Voltou de manhã um homem pior. Entrou em casa, apagou a luz do corredor e só guardou os risos das crianças mais pequenas. Ainda trazia a cicatriz da navalhada traiçoeira, caída das portas que foi observando de um lado e do outro do corredor da vida injusta.  Eram só portas fechadas. E nenhum Natal as abriria jamais. Andou assim um bocado no corredor escuro, ante o riso dos infantes, trocistas. Acabou caído na lingueta do rio, adestra à estátua da rendilheira. Pôs-se em pé, sujo daquela gosma nauseabunda conhecida e voltou. Hoje espera pelo novo ano. Ingrato por estar ainda vivo.

Natal neste meu Mundo

A rubrica da Madalena Patusca III

Eram duas e um quarto quando lhe bati à porta. Recebera a carta nem há vinte minutos e puseram-se-me logo insustentáveis tanto as pernas como o coração. Procurei anos e anos agarrar-me a todas as horas tépidas. Inutilmente. Cada fim do dia era um fim. E nem me esforçava muito por tentar reter o Sol no céu, até o conhecer. Hoje de tarde, pôs-se tudo em um emaranhado de nevoeiro sujo, de rugidos industriais assustadores e de frio. Sobretudo frio. Um frio pior do que o de antes. Hoje de tarde pôs-se tudo Inverno. Mas já nem apetece acobertar-me mais como outrora. Vou desembestada pelas ruas da cidade e sou toda a cidade, como ele é da cidade e eu sou dele. - Como assim, não me procures mais? - Estava deitada na cama em roupa interior, vesti o roupão e desci os três lanços de escadas até à caixa do correio. Quando a abri com aquela chave pequenina e vi a sua letra fiquei eu desse tamanho. - O que quereria ele dizer com não me escrevas mais? - Esperava-o nessa tarde e até lhe preparei um...

A caminho do Natal

Pouca gente parece conhecer o génio discreto de Chris Rea, mas esta é a... Melhor música de Natal de sempre! I'm driving home for christmas Oh, I can't wait to see those faces I'm driving home for christmas, yeah Well I'm moving down that line And it's been so long but i will be there I sing this song To pass the time away Driving in my car Driving home for Christmas It's gonna take some time But i'll get there Top to toe in tailbacks oh, i get redlights on the run But soon there'll be a freeway, yeah get my feet on holy ground So i sing for you Though you can't hear me when i get trough and feel you near me (i am driving home for christmas) driving home for christmas driving home for christmas with a thousand memories i take a look at the driver next to me he's just the same just the same... Top to toe in tailbacks oh, i get redlights all around I'm driving home for chr...

Elegia para um caixão vazio

( Título roubado ao Baptista-Bastos ) Quando eu morrer, quantas pessoas assistirão ao meu funeral? Dez ou quinze, a família e os amigos ou uma pequena multidão carpideira? - Ainda não conheci ninguém que intimamente não fizesse este auto-julgamento pré-morte. - Talvez seja de alguma estranheza, relacionar-me com pessoas assaz mórbidas e egocêntricas para pensarem nisto, ou quiçá seja eu que projecto estas ideias e depois digo que foram outras pessoas que as comentaram. Quantas pessoas me amaram, e quantas dirão que fui boa pessoa? Quantas me elogiarão o trabalho e quais serão aquelas que inevitavelmente irão dizer, em sussurros, que: " ele nada fez para conseguir aquilo que queria. Quedou-se e esperou as oportunidades. Não sabia que as oportunidades nunca nos batem à porta? Era uma morte anunciada. " Não, não sabia. É que bater em portas, lembra-me os Natais da minha infância e não posso deixar de me emocionar apenas. O meu pai costumava fazer-se passar pelo pa...

Textos Devolvidos VI

O Orgulho é uma Nuvem Um dia acordarei longe do teu abraço.  Porque existir é outra coisa diferente disto que me exiges: é a surpresa da vida,  o encontro da emergência de aqui estar, o princípio bondoso do amor próprio  e também o seu maravilhoso fim.  Um dia não precisarei mais de pedir a tua mão acumulada sobre o meu destino.  Um dia serei o meu mundo próprio.  Serei assim, 
 E poderei ser livre finalmente, como as orgulhosas nuvens de outrora.  Vagueando pelo céu eterno, sem pedir permissão a ninguém. 
 Um dia serei alguém sem arrogâncias, alguém liberto de todos os cinismos,  de todos os azuis anti-naturais, tingidos. 
 Um dia serei melhor, alguém melhor! 
 Um dia acordarei longe e certo, e nesse dia serei somente a minha própria luz.  
 Que o fogo dos outros em nada me ilumina, 
  em nada me seduz. 
 Porque os dias só feitos de mãos atiradas ao vazio são a morte mais lenta de todas.  
 A m...

Música para chorar em grupo

É a parte irada de si mesmas que as pessoas querem esconder, quando se prestam a tirar uma fotografia, e se obrigam a sorrir? E em todas as fotos que tiram estarão mesmo a sorrir como se estivessem incrivelmente felizes naquele preciso momento, ou nem por isso? Se fôssemos realmente sinceros estaríamos apenas ali, a sermos e a sentirmos aquilo que somos e como estamos. Se queremos chorar, deveríamos chorar, mesmo que todos nos digam: não chores, por favor não chores! - Choremos pois, e em grupo. Passámos todos por tristezas e frustrações, perdas e depressões e isso pede a purga do choro. Só que nada disto é aceitável. Nesta sociedade temos sempre de ser positivos, alegres e foliões. Não! Choremos todos em conjunto pelo que nos faz justamente chorar e depois talvez chegue uma palavra simples ou um abraço para nos passar o choro e quiçá começarmos o processo de resolução dos nossos problemas pessoais. Mas não riam fingidores. Não se façam de hipócritas felizes. De acomodados com o ...