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Mensagens

As estrelas também envelhecem.

Que tal mordermos a bala?

Quando uma teoria se revela falsa, cai em desuso e já não interessa a ninguém, ganhamos uma compreensão e inteligência de nós próprios e dos outros através do conhecimento observado. A filosofia vigente e a salvação da mente humana, no convencimento geral de como pensamos, mantém-se em estado de problema convencido, mas não resolvido. Somos demasiado estúpidos para atingir uma compreensão inteira do "fim da nossa existência". Somos covardes, e nesse caso, lidar com este problema, parece-nos tão inútil, que reviramos os olhos, e ignorámo-lo. Ora é precisamente isto que, a dado momento da nossa vida, nos atormenta tanto por nos considerarmos finitos, e termos tão presente aquela ideia da irreversibilidade da morte, que chega a ser a única consciência das nossas curtas vidas. Vivemos mal porque vivemos sabendo que um dia morreremos. O que nos parece irreparável não é nada inútil, de todo. Nenhum tempo está já todo contado, todo escrito. A ideia da irreversibilidade é quase...

Breathing underwater

by Adeline Mai

Feliz às Quartas.

(...) Escreve quase todos os dias. Sobretudo no Inverno, disse-me um amigo comum. Onde eu vivo são lugares fora do mapa, muito isolados, e esta leitura foi como um bálsamo e uma inquietação. Primeiro, foi belo. Segundo, consegui identificar o referente fundamental da narrativa. Terceiro, e a partir daí, o texto andou por onde eu nunca estive, mas gostaria. Foi paixão garantida para mim. Muitas vezes, fez-se silêncio total, ainda maior que o habitual silêncio da minha aldeia, onde todos os cães e gatos pararam de mexer, à escuta. eu lia em voz alta e a aldeia parece que ouvia. Houve por aqui, tantas vezes, uma nostalgia tão forte, ou, mais raramente, expressões de uma tão negra tristeza, que me pareceu quase impossível prosseguir, mas, quase sempre a sua escrita é de tal modo ampla que só pode ser literatura, experiência literária. A vida e o pensamento normais, em suma, foram ficando para longe enquanto fui vivendo com o Humberto. E, naquele lugar plano, onde ele viv...

Até a morte chora melhor do que eu e tu.

O telefone fixo toca sozinho, é o tipo dos seguros a vender-me paz de espírito da distância do outro lado da linha. Pode estar na Boavista, em Massamá ou em Bangalore, não faço ideia de onde virá aquela segurança toda. Daqui, e até quando puder pagar as prestações não preciso mais preocupar-me com a vida ou com a morte. Fico seguro e bem seguro. Disse-lhe que não queria. Nunca me fez tão pouco sentido a paz de espírito. Sinto-me tão sujo por já me sentir bem seguro, por ser branco, europeu e estar aqui sentado confortavelmente a escrever isto. Nem é daquelas sujidades boas que emergem de um rebuliço na palha com uma rapariga, de uma brincadeira no parque com as crianças, de um dia de trabalho honesto. Não, de todo. Sinto-me imundo sem ver jeito de me lavar por dentro. Quando inesperadamente o meu pai, cidadão nacional octagenário, bateu com a cabeça num muro de pedra, abrindo-a, houve um momento de pânico na família e durante horas ninguém foi capaz de reagir ou tentar um plano de...

Concordas?

É proibido discordar? Não, mas discorde-se direito por favor, sem ironizar. Tem que haver cortesia na discórdia, respeito, entrega, discussão contínua que nos faça avançar. Proibido, proibido havia de ser aquele silêncio que só nos aceita para nos desprezar.

Me & Scott Mathew

Na minha cabeça poderíamos ser amigos para sempre.  Belo e feio, gordo ou hipster, pouco importa quando a música e a voz nos torna bonitos e iguais para sempre. Hoje, no Teatro Garrett, na Póvoa. Ouçam isto que é tão lindo  

Uma tarde inútil em Abril

Em tardes tão pouco douradas, absolutas em desmaios vespertinos, nada me apetece de produtivo. Agacho-me à janela, dentro de uma concha de inutilidade, escondido da vista, para que ninguém lá fora possa reparar em tanto desperdício. Tocam as músicas na mesma, mas baixinho como o mau cheiro dos pés dos anões, a Liz sussurra inconformada, o Robert desiste a meio da canção e sai de cena a retocar a maquilhagem. Mudo para bebop e animo um pouco-nada desta ronha entranhada. Bebo dois goles seguidos sem perder tempo a contar as porções. Que interessam as porções? As garrafas só choram quando lhes acaba o líquido. Tenho destes dias assim fodidos, tenho pois. Graças a Deus que os tenho. Se tivesse de ser normal todos os dias, enlouqueceria normalmente! Lá fora, o mundo inteiro imobilizado na minha cabeça, enche-se de apelos luminosos, como a luz de um farol voltada ao mar de incerta tempestade. Rais' partam os donos dos cães que cagam tudo com os seus bichos mal ensinados. Malditos...

Queima do Judas 2015

Por uma só noite fui poeta, e isso basta-me para uma vida. Fotos: Sara Jaques  - Poema na Tasca - Sento-me ali todas as noites esperando pela maciez do passar do tempo. Sinto que poderia escrever o tempo inteiro sobre os vossos passos, olhar para trás e vê-los anavalhados num futuro líquido, mas não posso. Sinto perto a tempestade fatal que descreverá o poema do vosso fim. Talv ez o rio suba demasiado, e seja certeiro, na hora marcada desse tempo que não espero ser feito de dias felizes. Talvez.. Tantos lanhos vos contei por tantas mãos por tantos barcos por tantos copos, tantos risos, tantos gritos e canções, tantas discussões de mortos, por tantas e tantas noites, ali sentado ao vosso lado. Que golpe tão infeliz fez o gume do progresso! Ali fui narrador da vossa história inteira, mas agora, não sei de mais nada... Dali assisti já ao vosso fim. O novo mundo nem vos quer. Sois sujos e barulhentos, pobres e incons...

Sou a perdição absoluta num só homem só.

(...) Subimos juntos as escadas que conduziam ao primeiro corredor do primeiro andar. Desaguamos ali sem recordações de maior, imersos naquela noção de bom pecado que o Henry Miller transformou em pureza, num bafo de uísque inspirado. Como se o movimento de rotação da terra, não se tivesse alterado para sempre naquele pátio anterior ao nosso beijo. Tornei-me seu escravo absoluto no momento devastador em que o seu perfume me penetrou. E os escravos só sabem coisas sobre revoltas e insurreições, não têm cabeça para mais, porque o resto do corpo, e grande parte da cabeça também, estão firmemente soldadas à vontade exterior de um segundo índividuo. Perdi a minha vontade na carne vermelha daqueles seus lábios rarefeitos. Subi todos aqueles degraus seguindo-a, hipnotizado pelo movimento ficcional das suas nádegas, a dança triunfante das suas coxas livres. Do outro lado daquele movimento pendular de linhas rectas imparáveis, havia quem disparasse aos pássaros mais lentos do céu de Sete...

Bons tempos, para variar.

Os senhores tribais de gostos encarniçados, só demonstram balanços diários incertos. Nada lhes ferve no sangue, demasiado espesso de tanta gordura ou cultura, parado em hipnose, em veias entupidas de desdém. Se me calhar na má sorte, vir um dia ser um destes senhores tão congestionados, purgados do sangue real que traz vida a todos os desertos, levem-me a praça pública e fuzilem-me por favor, com uma só bala pura. Antes quero ser para todo o sempre um eterno ninguém, que um senhor desconforme de tantos dizeres disparatados. Hei-de morrer ao alto, no peito verde de lugares com carvalhos despertos. A palavra escrita nunca é definitiva, mas pode ser tão dura, como o partir inútil de um coração de alguém. que nem quis engrossar sequer o bastião dos desesperados. Miro Teixeira 2014

Para o único Helder que nunca conheci.

Mergulhar em todas as bocas, que horror! Por vezes estão tão sujas que só me conspurcam de nulidade, é o fim, acreditem! É este o fim! Estão mortos, todos.  E ninguém salva nenhuma criança afogada da abertura fatal de nenhuma retrete. Debaixo de alguma barba explodem eternidades que ninguém percebe por inteiro. Dois ou três fizeram um esforço, mas no derradeiro, no derradeiro momento desta existência, quem sabe ao certo o que nunca foi dito por palavras escritas? Os bons vivos morrerão assim mesmo, vivos, à espera da morte que os tornará vivos, para sempre. Rompendo todas as gargantas ignóbeis, que aguardam com os pulmões postos em punhos, com os olhos postos em entrevistas invasoras, com os corações esfaqueados pelo agora, os corpos esfacelados pela imagem, as palavras vendidas num nada. Resgatemos estes vivos dos cádaveres antecipados. Resgatemo-los do vírus da existência só terrena deste mundo moderno. Sim, o resgate também é possível para os vivos, ainda que estes nem...

Ainda haveremos de ir todos a Viana

Versos para um homem arder.

Trey Ratcliff - "Burning Man 2014" Perdido é o homem onde a esperança desmaiou. Naquela disposição terrível de destino, que nunca apaga a fúria enorme que nem começou, ou sacia a fome do seu próprio assassino. Pisam-lhe os pés, as sombras dessas lanças, outras sentenças, outros ditames, novos lameiros. Tão triste acabar a vida sem esperanças, cabelos alvos, a recordarem outros mais trigueiros. Que lhe importa então a penúria, o desterro, o quase nada. O seu país, é aquele que nem o mar quer ter, junto a um peito de gente, feito de sal e sangue, todos os homens iguais, sem ter ninguém para os querer. Estão nus todos os degraus, apagadas todas as luzes. Acaba-se o tempo de passos sem sentido. Venderam-se os homens mortos, os espigões e as cruzes, Resta-lhe uma só proeza em seu longo corpo aguerrido. E por se julgar tão indigno de tal façanha, o homem inesperado, desprovido de outra esperança. Acende um fogo, ...

Piquenas estórias de amore VI

Soube mesmo agora que se cometem crimes por amor mesmo aqui à minha porta. Percebi logo que aquilo era um paraíso em ruínas, quando soou a primeira derrocada, tomada de nervos ao telefone, e que por fazer tanto barulho  me incluiu, sem querer. A primeira fronteira violada foi a da pele. Imenso limite do corpo, que encerra e define o líquido todo que nos faz. Estava toda ali, em ebulição de gestos furiosos, fervorosos. Por sinal, alguém a agredia às bofetadas do outro lado da linha. Depois, ela, (sim, era uma rapariga. Brasileira, por sinal) juntou-lhe a língua inteira, demarcando-se do território dele, tão minimalista, que me pareceu partido, como um labirinto sem saída. Nunca perceberei se algum Adão moderno se prontificaria para se agarrar tão intrinsecamente a uma qualquer Eva, mas neste mitico corpo que assisto, partiam-se algumas costelas do coração mesmo debaixo dos meus olhos. Ignoro ser capaz de me colocar a jeito de saltar para a represália de alimárias primitivas,...

Respiração em Apneia

Essas tuas palavras mataram um pedaço grande da pessoa pequena que vive cá dentro. Já as esqueci na última respiração, e nunca as lamento por terem sido claras como um sono de morte abrupta. Lamento ter de vir aqui outra vez traduzir a sua inclemência, mas sabe tão bem desabafar, que nem me importo de ser circular a falar. Sustenho o fôlego contínuo e vou ao fundo ver o estado de decomposição das nossas coisas. Todo o homem sério tem de ser como um bom mergulhador quando pensa; disciplinado, bem treinado, sem ter palavras constritas, espezinhadas nos pulmões. Um homem a sério ajuda aquilo que diz com os lábios, não com a cabeça, nunca com o coração. O Coração atrapalha tantas razões que a súmula de todas as guerras da Humanidade, poderia esvanecer-se facilmente num nada, face à ignorância poética deste músculo danado.  Tudo isto fica ao cuidado dos idealistas que nunca se entendem com a dureza dos falsos realistas. Os homens a sério respiram do oxigénio de que d...

Perder tempo a querer ou querer ganhar tempo para poder?

Correntes d escritas 2015 Perdemos tanto de nós nas coisas mais vulgares de todas, nas mais básicas e repelentes. O espírito humano parece sempre voltado ao primitivo esforço de querer alcançar, sem merecimento. Aos anos que acompanho e idolatro as sessões das Correntes D'Escritas. Para mim, que gosto da literatura, sou português e do Norte, que gosto de escrever e até já fui publicado algumas vezes, é a minha Graceland, a minha Meca. - Eu quero tanto estar ali, mas não posso, ainda. Onde se peroram as pulsões sexuais da escrita, das anedotas bem-recebidas da escrita, da carne dos escritores que atendem, ou das diferenças entre ser escritor e não o ser, é ali mesmo. Por isso é que eu quero lá estar. Porque sou tão invejoso como sou humano, e porque ser humano é ser invejoso também. Não existe mal algum em invejar aquilo que queremos para nós próprios. Levanta-nos. Acorda-nos. - Há que ser forte cá dentro para combater toda esta torrente de inveja e conseguir transfor...

Até sábado.

A dor que corre por trás da dor

Amor, mas só aquele amor. Aquele amor que nos dá as belezas mais simples, perfeitas como pessoas, ou bichos ou coisas, ou coisas de amor que se desenham devagar. Amor, mas só aquele amor, que nos ensina lições de alegria, faz delas pressuposto, até as vir buscar de volta. Até as vir buscar! Dessossega e depois aquieta-se, dói, põe, tira, refaz e perfaz e até faz dó de tanto desgosto. Como se amor fosse sinónimo, dessa mesmissíma dor. Amor, mas só aquele amor, que só nos quer ensinar a audácia, de estarmos vivos no devagar do seu tempo. Talvez não devesse, não parece muito certo gostar-se e retirar-se e pelo meio caber o resto de uma vida. Amor, mas só aquele amor, só porque mais tarde ou mais cedo, se fica ou incompleto ou tão cheio, que só existe ou não existe tempo para a despedida. Amor, mas só aquele amor, e não me parece assim tão certo, esquecer de sentir medo na dor que corre por trás da dor. Mas assim é. Amor não se gaba de ensinar, quem muito depr...

"Máscaras com Rostos dentro" - Helder Sanhudo

Foto tirada durante a montagem da exposição (peço desculpa mas não sei o nome da sua autora) Inaugurou neste último sábado, no Centro de Memória, em Vila do Conde a exposição " Máscaras com Rostos dentro " do Arquitecto vila-condense e meu bom amigo, Helder Sanhudo.  Mais uma vez, pela terceira quase consecutiva, foi meu grande prazer poder me associar à sua rápida e merecida maturidade e ascenção como pintor, cujo progresso e divulgação ainda fará correr muita tinta por quem, muito melhor do que eu, consiga escrever sobre este mote das artes plásticas. Ainda assim, tive a honra de oferecer os meus préstimos, escrevendo no livro de sala, os meus dois dedos de modesta apreciação sobre o seu vibrante trabalho, que poderão consultar após devida visita à referida exposição. Recordo que a mesma estará patente até ao dia 3 de Maio e que as visitas aos Domingos de manhã, são gratuitas. Em simultâneo, e aquando da sua abertura, fui também convidado para dizer algumas pa...