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Queima do Judas 2015


Por uma só noite fui poeta, e isso basta-me para uma vida.





Fotos: Sara Jaques
 - Poema na Tasca -

Sento-me ali todas as noites esperando pela maciez do passar do tempo.
Sinto que poderia escrever o tempo inteiro sobre os vossos passos,
olhar para trás e vê-los anavalhados num futuro líquido,
mas não posso.
Sinto perto a tempestade fatal que descreverá o poema do vosso fim.
Talvez o rio suba demasiado, e seja certeiro, na hora marcada
desse tempo que não espero ser feito de dias felizes.
Talvez..
Tantos lanhos vos contei por tantas mãos por tantos barcos por tantos copos, tantos risos, tantos gritos e canções, tantas discussões de mortos, por tantas e tantas noites, ali sentado ao vosso lado.
Que golpe tão infeliz fez o gume do progresso!
Ali fui narrador da vossa história inteira, mas agora, não sei de mais nada...
Dali assisti já ao vosso fim.
O novo mundo nem vos quer.
Sois sujos e barulhentos, pobres e inconsequentes.
Tendes filhos a mais, demasiada alegria, esperança enganada. 
Tendes vontade de viver.
Vós infelizes, que fostes gente perfeita por madrugadas infinitas de madeira fogo e aço.
Formidáveis vos vi, moldando barcos do nada, lançados para o nada, um a um...
E a história maldita, nem se lembrará de nenhum.
Sim, sentei-me ali todas as noites entre o oblívio do vinho e escrevi o futuro que nunca desistiu de vos querer matar, escrevi-o mesmo sem saber o que fazer do tempo escuro que viria.
Tão estranho e definitivo como uma máquina incessante que vos tirará as mãos do corpo.
E o corpo deste lugar,
e este lugar desta terra,
e esta terra do mapa.
Ficará somente o rio,
que nunca esperará por passageiros, na distância de outro destino.
Não mais assistirá às cores vivas da prata saltando viçosa por longos convés de pessoas graves.
Sim, jamais.
Não sabeis disso ainda? Não atentais, não escutais, não vedes?
Não sabeis sobre as aves e as pedras e as memórias que ficaram?
Não sabeis nada sobre o fim do mundo e sobre a existência de um chão de serrim que nem precisa de asas para desaparecer?
Pois não...
Pus dias em todos os olhos que com os meus se cruzaram neste mesmo lugar.
O tempo e o seu rasto encarregaram-se do resto.
E esse tempo emprestado ainda o senti como a resina
colando nos cantos, nas paredes, nos interstícios de cada novo mundo que esperava nalguma lonjura, os cabelos brancos dos homens que sois.
Lá fora no rio sereno pressinto a revolta. Apenas três ondas regressaram hoje do mar.
Acabam-se as noites de riso na tasca, calam-se as zaragatas, desligam-se as mãos devagar. Deixo que o tempo me cubra de vergonha, se misture com o meu corpo, me entre pela boca, pelos olhos e pelos dedos. Deixo-me matar convosco, mansamente, enquanto o vosso futuro se enche de mentiras e de longas esperas sem proveito.
Morri ali naquela mesa e depois da minha morte, quando alguém se lembrar do nome de algum barco será o vosso.
Mas já será tarde tudo isto.
Eu já não sei nada deste mundo moderno, continuo ali sentado todas as noites,
a escrever a história de homens-fantasma.
Chegou mesmo agora a esta margem,
nos primeiros cansaços sem remédio,
o último barulho de uma serra
Fincou-se o último barco moribundo naquelas pedras além,
fez-se de estorvo, e mesmo assim, chamaram-lhe Futuro.

Miro Teixeira
2015

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