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Mensagens

Piquenas estórias de amore IV

- Substituir-te, foi o mais difícil de tudo. Se realmente fores como sempre te julguei, uma peça rara de porcelana ajeitada em sons puros do mais moderno sistema de som, presumo que, a minha antiga grafonola nunca conseguirá esquecer a boa música que existiu entre nós. Estava tudo errado lá ao longe, não sei se ficará mais certo aqui. - Havia duas ou três crianças soltas na aldeia que habitáramos juntos em criança, lembras-te? Filhos únicos do pouco que nos restava de amizade. Agora, essa aldeia ficou sem folhas, e tu, a teu bel-prazer, vais dizendo coisas de mim, sem freio, como ervas altas que ocultam perigos inomináveis. Como faço para te perdoar isso? O outro leva a mão à boca. Chora sem se ver, dentro de um armário do passado. - Quem é que fala assim? - Assim como? - Assim assim... como nós falamos um do outro. - Mantém-te aqui comigo. Que mal nos fará ficarmos? Sabe-se lá o que o futuro nos reserva? Alguém cantava uma canção triste ali perto. Talvez alguém q...

O Relógio de Natal

O Relógio de Natal Aquela véspera de Natal veio encontrá-lo completamente perdido. O presépio por armar, e o mal-amanhado pinheiro de sempre, aquele que todos os anos desempoeirava dos arrumos, esquecido num canto, junto ao bar, desconchavado em quatro ou cinco fanicos ainda por montar. O carrilhão austero do relógio anunciava cinco batidas aterradoras. Garcia era íntimo deste ruído de címbalo, quase como se ouvisse a voz do pai a chama-lo. O relógio havia sido a única herança que conseguira surripiar do sarrabulho das partilhas entre os seus três irmãos, e remexia-se em cuidados extremosos para o manter em perfeito funcionamento. - Cinco horas! – Exclamava em surdina. – Não vou ter tempo. Multiplicava-se, corria, deliberava e providenciava mil coisas, mas a atrapalhação era muita, e só Albina conhecia o lugar de cada coisa naquela casa, ele, cumprira a sua função de recolher os enfeites, a árvore artificial e as peças do presépio dos seus lugares...

Todos os gatos são cinzentos menos o meu.

Todos os donos têm os gatos que merecem. Acredito nisto. O Homem faz de conta que é capaz de compreender tudo, mas, no que toca ao seu gato, não existem momentos para fraquezas. Se pensarmos no que dizem sobre os gatos terem sete vidas, qualquer dono de um gato, faria um grande favor há Humanidade em portar-se realmente como um Homem perante isto. Todos os gatos têm sete vidas? É capaz, mas o meu só precisa de uma, a nossa. Afinal, que grandes ambições poderá ter um gato? Cuidados, um amor confortável e comida farta. Não vejo grandes diferenças entre nós. Julgam-se os animais domésticos como pessoas. E depois? Todos os dias fazemos racionalizações, que são aquelas mentiras clementes, que servem o propósito de nos fazer sentir melhores. E os gatos nunca nos mentem, manipulam-nos sim, mas inadvertidamente, não sabem que nos estão a mentir, por isso, nunca nos mentem verdadeiramente. E só os gatos o fazem, e só porque a natureza os dotou dessa ferramenta num ambiente domésti...

Pequenas notas sobre Ciro

Este pequeno texto é sobre um tipo chamado Ciro Milhares.  Em Istambul aprendeu a andar de mota e recebeu lições de geografia de um descendente do Alexandre o Grande. Começou a comer chamuças a meio do estreito de Dardanelos, e ganhou-lhe o gosto para a vida. Em Valparaíso conheceu a Flora, que o ensinou a nadar de costas. Mais tarde, em Cartum, na confluência dos Nilos, leu o Ulisses do Joyce em três dias, e apaixonou-se por um gato. Em Praga descobriu que não quereria jamais ser velho. E tudo isto, sem nunca sair de uma decadente urbanização parada no tempo, que dizem ficar ali para os lados de Labruge. Este rapaz, vem a ser o personagem principal do meu novo romance: "A Ausência dos Pássaros" Amigos leitores, leriam isto? Caros senhores editores, publicariam-no?

Esta Sexta, todos com FOME nas mãos!

Nem a Isabel Jonet se lembraria disto!

Todos os céus merecem um cão (um gato, uma tartaruga, ou mesmo um periquito...)

Não me tenho em conta de ser um tipo muito piegas, porém, c ertas coisas que se ouvem, não se podem mais desouvir, seguem-nos como cães obedientes até sítios por descobrir, cá dentro, enroscam-se, fazem ninho e ficam.  Um destes dias, no consultório veterinário, uma criança e a sua mãe visitavam uma cadela de 19 anos, recém-operada. Enquanto fazia festas à gata, esperando a nossa vez, abstraí-me dos g uinchos estridentes vindos da TV e absorvi aquilo tudo , como se fosse comigo. A mãe explicava à menina que se a cadela fosse uma pessoa, já teria mais de 100 anos , e, como já não aguen tava mais o peso da idade , como já não havia cha nce de melhoras, o melhor era mesmo que fosse para o céu, porque o céu também precisa de cães . A reacção da miúda foi o que me desarmou sem remédio : abraçou-se à mãe e a c enou que sim com aquela cabecinha inconsolável. Não chorou, não respondeu, não fez birra alguma. Disse que sim! Porra! Não consegui deixar de pensar na possibilid...

Televisão para os olhos certos.

Abri um canal de anatomia humana no capítulo intitulado: Ironia da carne fora-de-prazo! - Tanto poderia ser um desses programas da manhã, onde velhos carentes telefonam para os seus quinze minutos de companhia, como uma leitura do destino plasticizado em cartas, ou a infusão profunda na temática da doença de Crohn. É tudo igual. Calhou de ser um canal de anatomia humana, onde se disseca tudo. Disseca-se e disseca-se tudo até à exaustão do mais tímido pedaço de carne. As figuras enceradas falavam indeferidas, em curtos intervalos, pausadas pelas directrizes do canal em questão. Tinham três posições diferentes e cinco dedos em cada mão, mas, nem pareciam humanas de todo. Estão ali, porque alguém menor, lhes paga para ali estarem, e para estarem a cortar, livres de remorso, bocadinhos de pessoas, divididos pelas suas três posições: de esguelha, de frente e a sorrirem inconformados. É uma espécie de mesmerismo catódico diário. Eu sei, não é nenhuma novidade. As diferentes três posi...

A história da Albertina

Se te explicar que me acendes os céus tão cedo me desocuparias os dez minutos que te mentem sobretudo sobre a força da vontade. Um estilhaço azul brilhante que passa, mostra-me, não ser tão forte quanto o merecerias e caio frouxo e sem alento para fugir do fogo nobre do teu adeus. Só penso em ti em cores que nem existem e em barcos que fogem da barra da saudade. Pergunta o motorista do carro de praça: Conhece o senhor todos os preços e categorias? Aceno que sim, mas é inútil, pois já nem tento. Mais longe ficam-se as janelas perdidas na inocência, a noite está triste como a vizinha solteirona, e pela cidade espalharam mensagens, os poetas que fica apagado o fogo da menina. Malditos poetas que só sangram pelos braços, e de suas línguas em parafuso, inclemente destila-se a vergonha da minha abstinência. Que fica a menina sozinha, ali sentada na poltrona. Explico ao taxista que me leve de volta às pretas mas ele, muito torcido, diz que aquilo não se faz à Albertina...

Um mal que nem parece

Quando me mexe demasiado coço, e só quando coço demasiado é que me dói. Doer é bom. Doer é uma sensação, um pequeno passo até à realização da própria existência. Pouco me importo com a sensação de disco riscado, dói-me, mas digo, digo... digo o que me apetece dizer. E apetece-me sempre falar sobre isto; estou obcecado! Um dos grandes equívocos da primeira metade deste século, um dia há-de ser reconhecido como: FACEBOOK. Sintético quanto baste, expansão fria de grande monotonia e vulgaridade, priva as pessoas de contactarem directamente com a realidade das outras, e vice-versa, habituando-as a uma falsa impressão do que é ser-se uma pessoa a sério. Tal é a sua expansão de polvo, que quem não está, deixa de existir, como que por magia milagrosa. Se pensarmos profundamente nisto, veremos que nos conduz a certas e determinadas práticas, que um dia, nos hão-de envergonhar a todos. "Postar", "Likar" e "Tagar" como alguns infinitivos anglo-saxónicos, e...

A frustração é uma cabra!

Aos poucos, começo a sentir um incrível descrédito por tudo, mas, em particular pelo correio electrónico: "Não o podemos usar/aceitar neste momento." "Não captou o nosso interesse." "Não se enquadra com as nossas necessidades." "Só estamos a editar livros comparticipados pelos próprios autores." "A sua obra não se enquadra na nossa estética." "Não está conforme os nossos planos editoriais." "Vamos ter de recusar." "Lamento, mas falhou em criar ressonância connosco." "Não é algo que que estivessemos dispostos a publicar." "De momento, não possuímos espaço para adquirir mais clientes." (excepto se for algo realmente inovador). "Não somos uma editora livreira ainda que gostássemos de poder vir a ser." "Em virtude da nossa diminuta planificação editorial e da necessária selecção de originais que temos de fazer, não nos será possível considerá-la para publica...

Um livro na mouche.

(...) "o tema é complexo: perda, sensação de fracasso, a ideia de que se gastou uma vida inteira para quase nada. O narrador, um professor de escrita ou talvez escritor falhado, enfrasca-se em Macau a observar a empregada chinesa de um bar anónimo, a falar com ela em imaginação (como se a rapariga pudesse perceber as palavras dele). Temos ali o cansaço e o desencanto, a impossibilidade de comunicar, a fantasia sobre a vida dos outros. (...) por Luís Naves no blog Delito de Opinião

Ah!

A estupidez não conhece limites, só pessoas, e os seus mistérios não trazem o prazo de validade à vista, daí ser tão difícil dizer ao certo o dia em que começam ou acabam. Aguenta-se sempre tudo em nome das pessoas de quem gostamos, é que o coração sempre se alimentou mais de esperança do que de tempo.

Febre de quinta de manhã.

O triste caso do homem medíocre

Corri para junto dela logo que tal me foi possível, e nem posso descrever os tormentos que senti até conseguir estar a sós com ela. Contudo, ainda posso ouvir o grito que soltei quando me precipitei para os seus braços: - Eles sabem! Bolas, isto é demasiado monstruoso! Eles sabem! Eles sabem! - Mas o quê...? - Quando me abraçou, foi-me impossível sentir a sua incredulidade. _ Aquilo que nós sabemos... e sabe-se lá o que mais! - Depois, soltando-me dos seus braços, expliquei, talvez de um modo demasiado incoerente, até mesmo para mim. - Aperceberam-se das minhas fraquezas, todas, de tudo. Não é que não faça bem as coisas que faço, simplesmente, não as faço com a excelência que eles pretendem. Não tenho mais em mim. Os homens, ou se vergam perante as suas fraquezas e depois se levantam, ou são completamente destruídos por elas. Não vês? Eles viram. E aperceberam-se, imediatamente, num instante. - Oh, sim?  - Oh, nada! O que eles pensam é terrível. São as pessoas mais...

A pensar morreu um burro!

Pensava na morte todos os dias, todos.  De manhã, enquanto se vestia e se sentia vivo, imaginava-se arrebentado por uma rajada de tiros, levado mar adentro por um temporal violentíssimo, arrojado em braços até uma fogueira, atingido por um relâmpago rebelde, trespassado, soterrado, enforcado, envenenado; lavava os dentes e caía sem amparo, em queda livre, por penhascos sem fundo.  Só assim se sentia realmente vivo e nada o atingia, nada o conseguia ferir, nada além das palavras, que até de longas distâncias conseguem ter um poder destruidor. Usava a imaginação da morte como um escudo silencioso, pois, estando calado, não estava necessariamente desarmado. Por isso pensava na morte, para afastar as palavras que o matavam aos poucos, e também, para se sentir vivo e forte. O que conseguisse. Parecia quase em casa assim. Morto por dentro, mas protegido. Pensar nisso, concedia-lhe a p erturbante capacidade de se lhe apresentar, umas vezes, a segurança como bizarro, e o...

Como perder amigos e alienar outras pessoas

Tenho um gato branco...mas, que me adianta?

A morte chega no sábado

  O Sétimo Selo (1957) - Ingmar Bergman Com alguma certeza absurda, imagina-se constantemente a morte como um revés, o derradeiro insucesso, nunca a imaginando como a oferenda de um domínio, um último, e talvez o único poder para quem perde a vida: quase um triunfo sobre todas as piores derrotas.

Um café, três cigarros e uma conversa de chacha.

Parece quase como se as nossas referências co muns, se relacionassem mais com eventos que até nunca aconteceram de facto, ou com pessoas que nunca iremos conhecer, do que com outras coisas e pessoas que realmente nos deveriam ser insubstituíveis ao diálogo. Sabemos mais sobre celebridades ou sobre personagens de ficção, do que sobre os nossos vizinhos ou o senhor que nos vende o pão todos os dias. Chamo-lhe a tirania da aceitação. Quando condenamos ou justificamos, não podemos ver com clareza, e também não podemos fazê-lo quando nossa mente está a tagarelar incessantemente; não observamos então o que é; só olhamos nossas próprias "projeções". Temos, cada um de nós, uma imagem do que pensamos ser ou deveríamos ser, e essa imagem, esse retrato, nos impede inteiramente de vermos a nós mesmos como realmente somos. Se desatar p'ráqui a falar sobre a D.Isabel do 2º dir., que é uma criatura adorável asseguro-vos, e me trata como seu terceiro filho, que intere...