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Piquenas estórias de amore IV




- Substituir-te, foi o mais difícil de tudo. Se realmente fores como sempre te julguei, uma peça rara de porcelana ajeitada em sons puros do mais moderno sistema de som, presumo que, a minha antiga grafonola nunca conseguirá esquecer a boa música que existiu entre nós. Estava tudo errado lá ao longe, não sei se ficará mais certo aqui.
- Havia duas ou três crianças soltas na aldeia que habitáramos juntos em criança, lembras-te? Filhos únicos do pouco que nos restava de amizade. Agora, essa aldeia ficou sem folhas, e tu, a teu bel-prazer, vais dizendo coisas de mim, sem freio, como ervas altas que ocultam perigos inomináveis. Como faço para te perdoar isso?
O outro leva a mão à boca. Chora sem se ver, dentro de um armário do passado.
- Quem é que fala assim?
- Assim como?
- Assim assim... como nós falamos um do outro.
- Mantém-te aqui comigo. Que mal nos fará ficarmos? Sabe-se lá o que o futuro nos reserva?
Alguém cantava uma canção triste ali perto. Talvez alguém que lhe pudesse explicar tudo sem recorrer a palavras.
- Depois dos últimos aplausos ficámos todos sós, à mesma. O que nos separa é essa busca. Querer encontrar o último aplauso é uma chatice dos diabos. Não aguento mais isto!
- O quê?
- A ressaca. Recrutaram-me para tomar os silêncios prolongados como normais. Agora, reencontro-te e tudo o que dizes parecem coisas que já ninguém usa, ninguém diz. Já ninguém manda postais ou se senta aprumado à mesa. Quem és tu afinal?
Nascêramos ambos com um pequeno defeito. Coisas de coração que só um outro coração defeituoso admite. Ele assustou-se muito com essas coisas da anatomia humana que põe almas no lugar de orgãos vitais. Aquele medo ganhou corpo, casou e partiu para longe, sem saber que o coração crescia para além do previsto e do espaço e do tempo.
Ficou um tal silêncio ali. Podia-se ouvir as respirações subir e descer pelas cadeiras do café.
- Isto é uma separação então?
- Não! Separados estivemos sempre. É um recomeço, um desabrochar. Estivemos fechados tanto tempo sem nos vermos realmente. Anda cá.
E uma brisa forte passou a correr pela sala, um vento melhor dizendo. Tinham ambos endireitado os dedos, esticado os cotovelos sobre a mesa, contado até mil, respiravam agora. Depois, abruptamente, soergueu-se um suspiro de alívio, que os pesou e preservou com a gravidade de quem muito se quer. Esperava-os o plano quase secreto de reconstruirem um passado. Começava ali a amizade.

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