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Um café, três cigarros e uma conversa de chacha.


Parece quase como se as nossas referências comuns, se relacionassem mais com eventos que até nunca aconteceram de facto, ou com pessoas que nunca iremos conhecer, do que com outras coisas e pessoas que realmente nos deveriam ser insubstituíveis ao diálogo. Sabemos mais sobre celebridades ou sobre personagens de ficção, do que sobre os nossos vizinhos ou o senhor que nos vende o pão todos os dias.
Chamo-lhe a tirania da aceitação.

Quando condenamos ou justificamos, não podemos ver com clareza, e também não podemos fazê-lo quando nossa mente está a tagarelar incessantemente; não observamos então o que é; só olhamos nossas próprias "projeções". Temos, cada um de nós, uma imagem do que pensamos ser ou deveríamos ser, e essa imagem, esse retrato, nos impede inteiramente de vermos a nós mesmos como realmente somos.
Se desatar p'ráqui a falar sobre a D.Isabel do 2º dir., que é uma criatura adorável asseguro-vos, e me trata como seu terceiro filho, que interesse isso teria para outrém? Ou então sobre a simpática carteira que me toca à campainha quando chegam cartas registadas e adocica o rápido processo de permuta com um sorriso e duas ou três palavras indeléveis, haveria alguém de querer saber sobre isto, ou ir mais além, e até entabular um diálogo comigo sobre esse assunto? Não. Claro que não. Queremos todos embarcar na arca transbordante que celebra o mediatismo do eterno, papaguear sobre a profusão de nomes, lugares e imagens que nos acendem todas as luzes interiores e depois despoletam-nos todos os comentários possíveis. Mortos ou vivos, pungentes, divertidos ou inenarráveis. Maravilhosos ou horríveis demais para serem mencionados de todo, não interessa, queremos participar nesse coro do momento, porque é o lugar certo para nos sentirmos iguais e seguros. Ninguém nos explicou isto, mas é inato, o conforto está na manada, na segurança dos números. Pois todos sabemos qualquer coisa sobre isso. Seja lá "isso" o que for. Parece que só nos sentimos aceites quando partilhamos o que é de todos, ao invés daquilo que é nosso, claramente mais genuíno, porém, desinteressante do ponto vista comum. É uma ditadura interna que nem nos preocupámos em combater, com medo desta não representar, adicionar ou retirar importância alguma ao bem geral. Penso nisto muitas vezes, seja lá o que "isto" for. E compactuo também para este descrédito humano de procurar importância por transferência da genialidade ou banalidade de terceiros. Mea Culpa! Mas vou tentando corrigir-me um bocadinho de cada vez, um texto de cada vez. Porque, cada passo na direcção certa é um melhor caminho para uma paz interior duradoura.

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