Avançar para o conteúdo principal

O triste caso do homem medíocre


Corri para junto dela logo que tal me foi possível, e nem posso descrever os tormentos que senti até conseguir estar a sós com ela. Contudo, ainda posso ouvir o grito que soltei quando me precipitei para os seus braços:
- Eles sabem! Bolas, isto é demasiado monstruoso! Eles sabem! Eles sabem!
- Mas o quê...? - Quando me abraçou, foi-me impossível sentir a sua incredulidade.
_ Aquilo que nós sabemos... e sabe-se lá o que mais! - Depois, soltando-me dos seus braços, expliquei, talvez de um modo demasiado incoerente, até mesmo para mim.
- Aperceberam-se das minhas fraquezas, todas, de tudo. Não é que não faça bem as coisas que faço, simplesmente, não as faço com a excelência que eles pretendem. Não tenho mais em mim. Os homens, ou se vergam perante as suas fraquezas e depois se levantam, ou são completamente destruídos por elas. Não vês? Eles viram. E aperceberam-se, imediatamente, num instante.
- Oh, sim? 
- Oh, nada! O que eles pensam é terrível. São as pessoas mais terríveis de todas, as mais crueis. Animais ardilosos sem qualquer piedade. Tenho de acabar com isto.
- Se acabares, acabas comigo também. - Disse-me ela.
- Oh - murmurei em voz fraca. - Não acabo nada.
- Ah, isso é que acabas. Se fores embora, irei contigo. Posso ir contigo não posso Álvaro?
Tenho uma ideia nebulosa do que aconteceu depois. Só me recordo que naquela noite fiquei prostrado na cama, de olhos abertos, entre a vida e a morte. Ela esteve ali a noite inteira, ao meu lado, a suplicar-me por respostas que eu não possuía.
Quando se refugiava nos braços para chorar, pensava que eu não me apercebia. Ausentava-se de me ver por vinte minutos seguidos e depois aparecia, como se nada fosse. Cheguei quase a falar-lhe, a interromper-lhe a vigília sem o mais ténue vislumbre de explicação. Sentia-a a desarmar-me toda a absoluta máscara de desgraçado, sem fazer a mera referência a toda esta tragédia, só com um olhar seco. E eu, quase sucumbi, sim.
- Alice?
Ela ficou a olhar-me como uma criança assustada. Durante um minuto não encontrou posição de voz ou de corpo. Doia-lhe tudo e ficou com medo de responder outra coisa diferente ao que respondera antes.
- Não me deixes. Leva-me contigo, por favor.
- Não te posso levar... Meu Deus! Sou demasiado egoísta para pensar em mais alguém, para tentar salvar mais alguém. Não entendes isso? Lembraste daquele dia em que estavas tão feliz e eu te mandei embora?
- Sim, e então?
- Então? E se eu for assim sempre, não será uma boa razão para te manteres à distância?
- Na altura...
- Na altura? Na altura? Eu sou sempre assim. Porque achas que eles me descobriram tudo? Eu não valho nada.
- Álvaro...
- Por favor... oh, por favor deixa-me acabar aqui, como eu bem mereço.
- Não!
- Estavas tão feliz naquele dia. Tão cheia de esperanças... e eu rechacei-te completamente. Fiz-te sentir que nunca terias nenhum lugar cá dentro. Como poderás tu alguma vez perdoar-me isso?
O meu cérebro ardia-me numa horrível agonia. Seriam umas cinco e meia, e pressentia os chacais a rondarem lá fora no espaço indefinido. Sempre encontrara um ponto de apoio, mesmo que por vezes, fossem esforços desesperados, levantava-me sempre. Naquela noite não consegui, senti fome. A fome incomodou-me desde as três da manhã, chegou a perturbar-me o bom funcionamento dos maxilares, não me levantei. Tive a bexiga a desfazer-se também, lentamente a encher-se de um líquido que assumi ser fermentado apenas pelo medo que senti. Havia uma casa-de-banho dentro do quarto, mesmo assim não me levantei. Passei as unhas pelo rabo, devagarinho, cheio de comichão, para que ela não me notasse o gesto bruto. Ela notou. Via-se tudo naqueles olhos, como numa fotografia. E, como em todas as fotografias, não somos apenas apenas nós que olhámos o tempo que passou, também ele nos vê.
Depois veio a luz inteira da manhã, que chegou morna e seca. Estranhas imagens rebentavam a luz enredadas nas cortinas. Não sei em que raio de teatro me fui envolver ao viver a vida que vivo.
- Deixa-me ir. - murmurei outra vez - eu cá me arranjo. Está um dia tão bonito, com este tempo em cima, creio que consigo deixar para trás toda esta amargura.
- Oh, não! Leva-me contigo, por favor leva-me contigo.
- Deixa-me, agora. Vou-me levantar e sair, de uma vez por todas. Queres ver?
Ela soltou um choro alto, carregado de boa saúde.
- Eles encontram-te. Seja lá para onde fores, eles encontram-te e volta tudo ao mesmo. Não te iludas Álvaro, tu sozinho não aguentas.
De pé conseguia ver melhor a revelação das suas palavras. A explicação era clara afinal, e figurava entre a natureza mais simples e poderosa de um ser humano. Entretanto, ela relanceou os olhos por mim abaixo. A turba interior impeliu-me a erguer-me por fim. O seu olhar propagava-se concêntrico e embalava-me os movimentos. Uma outra actividade, secundária, prosseguia lá fora entre uma chuvinha quente e miudinha que começara a cair.
- Se tu acabares, eu também acabo. Aqui e agora. Fala...
- Tu não sabes o que dizes. Não imaginas o o que eles me fazem se eu tentar...
- Fala!
- Bolas Alice! Já te disse. Eles sabem... Eles sabem! Imaginas o mal que me farão, que nos farão se eu insistir nisto?
- Pouco me importa isso... fala! - continuava a insistir.
- É uma tolice tão grande estragares a tua vida por mim. Eu nunca atingirei nada de grande alcance... sou demasiado fraco para isso.
- FALA!
- Fala, fala...eu falo, pronto! Sim, amo-te Alice. Sempre te amei, mesmo sabendo que não me entendeste nunca. Mesmo sabendo que nem te importaste com um triste punhado do meu trabalho... o mesmo trabalho que eles me querem arruinar para sempre, o mesmo trabalho que me ocupa quase tudo cá dentro... mesmo assim, eu amo-te. E se calhar até...
- Oh, cala-te Álvaro. Está já tudo dito. Tudo o que eu queria ouvir. Levanta-te, e vamos embora daqui.



Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Cinco minutos

Assumi escrever isto em cinco minutos, sem tempo para hesitações. É só para esvaziar, para não me deixar soterrar pelas avalanchas da inadequação.  Os meus olhos saltam perdidos entre os grandiosos eventos estivais, apanham respingos das fontes iluminadas com os rostos eleitorais, entram pelas bibliotecas dentro, todas maiores que os meus medos. Param nos cafés lotados de soberba, cheios de viciados em exposição, a transbordarem pelas esplanadas, parecem todos mais cansados que eu com as suas roupinhas de férias.  Tanta feieza e formosura juntas que já não tenho certezas sobre como saber separa-las. Ou se devo. Ou se preciso fazê-lo. Ninguém me mandou andar por aqui, ao acaso, a procurar personagens absurdos. Aqui fora, todas as montras são íntimas, e ninguém mostra vergonha de nada comprar. Aqui fora vêem-se os rostos, olhos nos olhos, enquanto rejeitam de frente. Dói, mas é melhor assim. Durmo e tenho sonhos estranhíssimos em que ajudo pessoas que parecem nem precisar de mim. Afastam-s…

As Crónicas do Senhor Barbosa III

O Senhor Barbosa acredita que já nada o pode magoar. Nem o desprezo passado, presente ou futuro, nem o cão esgalgado da vizinha, de dentes longos, nem a hesitação insípida do amor mais ou menos alvoroçado, nem a morte, nem nada. Nada mais lhe poderá acontecer de tragédia inventada. Já outros a inventaram por si. Olha para os reflexos e sabe que isto é de uma tal arrogância que até lhe faz doer os dentes postiços. Ri-se e prossegue a acreditar na sua recém-criada fortaleza inexpugnável. Mas, o Senhor Barbosa não fecha os olhos debalde, e sabe que, em tempos difíceis, às vezes é preciso morder a laranja para a poder descascar. Nada significa o que quer que seja até ao dia seguinte, altura em que voltamos a fazer contas à vida. É quando o riso cessa. Sabe isto e mesmo assim ri. Porque não? Está tão bêbado que outra coisa não lhe ocorreria fazer. O que é difícil é ultrapassar a espera pelo dia seguinte. Ali estava outra vez o ruído. Aquele ruído frio, cortante, vertical, que tão bem conheci…